HOSPITAL DO CÂNCER A ILUSÃO A SER DESFEITA

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Publicada em 08/04/2018 às 00:59:00

Nem sempre o que se chama ¨clamor popular¨ pode ser atendido da ma-neira como as ruas sugerem, ou pedem, na onda de sentimentos que se transformam, aparentemente, numa reivindicação coletiva e urgente. O anunciado Hospital do Câncer de Sergipe surgiu num momento desses, em que o impacto de uma dor coletivamente sentida, diante do sofrido calvário que percorreu o governador Marcelo Déda, logo potencializou o sentimento de que era indispensável a criação de uma moderna unidade de tratamento específico para o mal, que, apesar dos notáveis avanços da ciência, e da medicina em particular, continua sendo uma foice afiada a decepar vidas.

Quando surge o ¨clamor popular¨ alguns políticos entendem que faz a hora de levantar a mesma bandeira. Na verdade, o ¨clamor popular ¨ que agora se torna permanente, resulta da indignação do povo contra a classe política. A amplitude das demandas populares é quase infinita, desde que existam as redes sociais e a mídia tradicional para colocá-las em foco, com a liberdade que a democracia faculta, para que sejam por todos os meios vocalizadas. Atendê-las, seria a tarefa maior do poder público.
Ai então acontece o que no popular se diz: ¨a porca torce o rabo.¨ Há um item desprezado, que se chama orçamento. Basta analisá-lo , para saber se existe disponibilidade monetária para transformar aspirações em realidade. E então, se faz o que se convencionou chamar seleção por ordem de prioridades. Acontece que essas prioridades são traçadas de acordo com algo subjetivo, definido assim, difusamente, na expressão, ¨sensibilidade social ¨.

E então, a partir dos termos dessa equação jamais resolvida, surge o grande debate ideológico que dá asas às ações políticas. Isso, se entendermos a máquina de governo movendo-se no espaço das regras da probidade administrativa. O que, como sabemos, nem sempre acontece. Admitindo-se que a máquina do estado se move exclusivamente em função do interesse publico, surge então um variado leque de opções, para o desenho das prioridades. A ¨Velha República ¨, aquela do ¨café com leite ¨, paulista - mineira, posta abaixo para que um gaúcho desse inicio à outra, teve, num aristocrata da vertente cafeeira, Washington Luiz, o seu derradeiro representante. Dele, ficou para a história a frase tão famosa quanto simplificadora: ¨Governar é abrir estradas ¨. Getúlio Vargas, o sucessor armado,
artífice de uma ditadura, ampliou a visão estreita de governo, indo em direção às massas populares, de um Brasil, com fome, analfabetismo, exclusão social, mas com uma preocupação que 30 anos depois um economista, Delfim Neto, que se tornou o Tzar, ou o Rasputin, de uma outra ditadura, assim explicitou: ¨É preciso crescer o bolo para depois repartí - lo¨. Fez a tradução fria de uma realidade que muitos não querem admitir, por equívocos ideológicos, ou espertezas populistas.

O senador Edvan Amorim, (perdoem-me o ato falho ) o senador Eduardo Amorim, é um conceituado médico, se fez político quase por imposição, e transita sem carisma popular, mas não deixa de cumprir, sem muito brilho, é verdade, isso, talvez resultante da indisfarçável timidez, o seu oficio de integrante da Câmara Alta da República. Não se trata de um omisso nem indiferente, mas não é prodigo em protagonizar ações que mereçam visibilidade. O clamor popular pelo hospital do câncer de fato nunca chegou a acontecer. Mas a rede de emissoras que então o irmão do senador, Edvan Amorim controlava, se encarregou de fazer do hospital do câncer a obra que seria a mais importante e urgente de Sergipe.
Déda, considerou positiva a ideia do hospital, em seguida, o senador Amorim conseguiu aglutinar a bancada sergipana, e vieram emendas expressivas, que garantiriam o inicio da obra , ficando uma faixa ainda a ser preenchida com recursos, para a conclusão do hospital e a compra de equipamentos. Jackson iniciou a obra, mas a empresa vencedora da concorrência desistiu, e na lentidão característica da burocracia que envolve tudo o que é estatal, se fez uma outra licitação. Já pronta a terraplenagem as obras do hospital poderão ser iniciadas. Pelo projeto, será um hospital moderníssimo, com capacidade para 200 leitos e dotado de equipamentos de ultima geração.

Na pindaíba em que se encontram os cofres estaduais, a operação e manutenção do hospital é algo impensável. Se houvesse a possibilidade de federalizá-lo, estaria aberto um caminho.
O Hospital do Câncer, teria as portas sempre abertas para todos os que dele precisarem.
Dizem os especialistas, que um hospital com as características do que se pretende construir, consumiria, a cada mês. entre 35 e 40 milhões de reais. É dinheiro que Sergipe hoje não tem hoje, e não terá amanhã, ou mesmo nunca, caso não se ponha fim à sangreira desatada do déficit na previdência social. O governador Belivaldo Chagas abordou essa questão fundamental no seu discurso de posse na Assembleia, e fez a advertência de que o caso terá de entrar na pauta sergipana das nossas preocupações prioritárias e urgentes.
Na Folha de S. Paulo o jornalista Leão Serva dia 3 deste, escreveu um artigo abordando o caso do hospital de Parelheiros que há muito tempo está sendo construído e nunca concluído pela Prefeitura paulistana.
Transcrevemos alguns trechos :
¨Chamo a atenção para o fato de que o hospital de parelheiros é uma obra equivocada, que desperdiça dinheiro publico, criada por pressão de uma longa lista de agentes, começando pelos movimentos de moradores, lideranças políticas locais, sucessivos administradores municipais, ONGs que deveriam falar em nome de ¨nossa São Paulo ¨, empreiteiros de obras publicas e até da imprensa, que há anos cobra a inauguração do hospital em vez de mostrar à opinião pública a irracionalidade coletiva ali representada.
A saúde pública estaria muito mais bem cuidada se, com menos dinheiro do contribuinte, a prefeitura e o estado tivessem melhorado as unidades existentes anteriormente na região, como o pronto - socorro de Parelheiros ( municipal ) e o Hospital do Grajaú ( estadual ) diversas AMAs e UBS.

Um exemplo do que deveria ter sido feito ali na cidade como um todo antes de decidir imobilizar milhões em novos prédios, é a melhora da produtividade, o tempo médio de internação dos pacientes nos hospitais do SUS em São Paulo é de 7 dias; na rede privada ( que o senso comum diria ter interesse em manter os pacientes por mais tempo) esse número gira em torno da metade, No mundo todo há uma tendência em reduzir a permanência de pacientes nos hospitais para diminuir contaminação e doenças colaterais.
Em outras palavras, caso a média de tempo de internação nos hospitais públicos paulistanos fosse semelhante à da rede privada imediatamente dobraríamos a disponibilidade de leitos. Se, em vez de pensar como construtores de obras os nossos gestores raciocinassem como zeladores, investiriam em manutenção e qualidade de serviços, e não em construções. A solução é melhorar o atendimento já existente. Mas para tanto é preciso mudar a mentalidade empreiteira dos nossos políticos, o que parece cada vez mais difícil. ¨