Tempo fechado em Aracaju

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Jorge Amado: Literatura de lamber os beiços
Jorge Amado: Literatura de lamber os beiços

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Publicada em 13/04/2018 às 07:32:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Os leitores fiquem sa-
bendo: Se as previ-
sões foram confirmadas, haverá chumbo em cada palavra desta página, até segundo aviso. Impossível realizar convites e promover os encontros da boa convivência e da Cultura sob um céu pintado de cinza. Sem tempo bom, viramos todos russos de espírito.
Como todo sergipano legítimo, eu reclamo do calor todos os dias. Está escrito nos mapas; Ensinaram-nos, nas aulas de geografia: Bonito mesmo é sentir frio. Mal nos damos conta do preço cobrado pela elegância coberta de panos pesados, vestida dos pés à cabeça. Intuitivamente, imitamos os portugueses das caravelas, ainda estranhamos o índio.
Em cidade litorânea como Aracaju, onde o sol se derrama em luz escandalosa, somente a cor, a vibração, o movimento mais aberto e o barulho afirmam o povo. Por isso, o Largo dos Bonecos não convenceu muita gente. Os turistas tiram fotos, porque turistas fotografam qualquer coisa. Mas os grupos folclóricos representados pelo artista baiano contratado a peso de ouro seguem à míngua, metidos em molambos, mortos de fome, desconhecidos. 
A nossa única esperança de felicidade verdadeira está no céu azul. Na praia, quase sem roupa, o sergipano se reconcilia com a verdade nativa. Ninguém bebe água de coco fazendo pose de intelectual; ninguém afeta a preocupação de noites perdidas com o futuro da democracia com uma raquete de frescobol às mãos. Na praia, mesmo o vendedor ambulante, o dia inteiro pra cima e pra baixo, sem refresco, sob o sol escaldante, acredita na chance remota de ser feliz.
Eu já enchi a boca de consoantes para pronunciar o nome de autores estrangeiros, os mais introspectivos e sisudos, paridos no frio. A juventude é insegura, tem horror aos espelhos. Hoje, quase careca, um bruto de pai e mãe, amante ideal do Carnaval, leio Jorge Amado e me farto, lambendo os beiços. Basta fazer bom tempo.

Os leitores fiquem sa- bendo: Se as previ- sões foram confirmadas, haverá chumbo em cada palavra desta página, até segundo aviso. Impossível realizar convites e promover os encontros da boa convivência e da Cultura sob um céu pintado de cinza. Sem tempo bom, viramos todos russos de espírito.
Como todo sergipano legítimo, eu reclamo do calor todos os dias. Está escrito nos mapas; Ensinaram-nos, nas aulas de geografia: Bonito mesmo é sentir frio. Mal nos damos conta do preço cobrado pela elegância coberta de panos pesados, vestida dos pés à cabeça. Intuitivamente, imitamos os portugueses das caravelas, ainda estranhamos o índio.
Em cidade litorânea como Aracaju, onde o sol se derrama em luz escandalosa, somente a cor, a vibração, o movimento mais aberto e o barulho afirmam o povo. Por isso, o Largo dos Bonecos não convenceu muita gente. Os turistas tiram fotos, porque turistas fotografam qualquer coisa. Mas os grupos folclóricos representados pelo artista baiano contratado a peso de ouro seguem à míngua, metidos em molambos, mortos de fome, desconhecidos. 
A nossa única esperança de felicidade verdadeira está no céu azul. Na praia, quase sem roupa, o sergipano se reconcilia com a verdade nativa. Ninguém bebe água de coco fazendo pose de intelectual; ninguém afeta a preocupação de noites perdidas com o futuro da democracia com uma raquete de frescobol às mãos. Na praia, mesmo o vendedor ambulante, o dia inteiro pra cima e pra baixo, sem refresco, sob o sol escaldante, acredita na chance remota de ser feliz.
Eu já enchi a boca de consoantes para pronunciar o nome de autores estrangeiros, os mais introspectivos e sisudos, paridos no frio. A juventude é insegura, tem horror aos espelhos. Hoje, quase careca, um bruto de pai e mãe, amante ideal do Carnaval, leio Jorge Amado e me farto, lambendo os beiços. Basta fazer bom tempo.