Entre dolo e avarezas

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Sacudindo moleques e imperadores com a mesma indiferença
Sacudindo moleques e imperadores com a mesma indiferença

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Publicada em 02/10/2012 às 15:26:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O muro do colégio nunca foi obstáculo para minha delinquência. Cabelos desgrenhados, cigarros no corredor, Kafka e Baudelaire durante a aula de matemática. O professor desenhava equações misteriosas, absorto como quem trouxesse uma grande responsabilidade sobre as costas, mas o que me perturbava mesmo eram as palavras prenhes de subjetividade malocadas no fundo da classe - gestantes desesperadas para preservar um delito qualquer nos intestinos, refúgio de criminosos amigos, companheiros de dolo e de avarezas.

Cordas, correntes, nada podem contra a erosão silenciosa, a escavação subterrânea que condena o terreno árido da educação institucionalizada. A corrupção que as famílias temem nos bares, nas esquinas; o receio que obriga mães diligentes a investigar bolsos e hálitos insones, entra em casa pela porta da frente. Entre as páginas dos livros abandonados pelo quarto, há mais do que resquício do barato desfrutado na frieza das madrugadas. Desejos desenfreados encontram pasto e convidam para orgias palacianas nas entrelinhas de um volume in quarto.

Os Stones não foram responsáveis pela minha degenerescência. Depois de vencer, clandestino, os limites do Colégio Nobel - hoje uma ruína na Rua Itabaiana, uma ferida encharcada de nostalgia que apodrece no fundo o meu coração -, eu corria para as dependências da Epifânio Dória. Ali, enfeitiçado pelo silêncio religioso estagnado entre as prateleiras, respirando o perfume acre que embriagava fantasmas impregnados de mofo, Alan Poe e Hemingway ansiosos por um punhado de fumo, abandonei a pretensão de me tornar um homem e abracei definitivamente a vocação de dosar adjetivos e pesar o faz de conta nas sentenças.

Na semana em que se comemoram os 124 anos de nascimento do patrono da maior Biblioteca Pública da cidade, há um bom par de anos, o saudoso Luiz Antonio Barreto lamentou o desprezo que os homens de governo lhe dispensam. Fez muito bem. Os santuários abarrotados de papel sacodem moleques e imperadores com a mesma indiferença. O Mês da Criança promovido pela Biblioteca Infantil Aglaé Fontes de Alencar (ver matéria abaixo) se esforça para remediar o delito.