Maria catando lenha

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Publicada em 20/04/2018 às 22:39:00

 

*Rangel Alves da Costa
Era dia de domingo, um dia de descanso para muitos. Mas assim que cheguei ao Assentamento Madre Teresa de Calcutá, na zona rural do município sergipano de Poço Redondo, para uma visita a um amigo, mais adiante, chegando pelo meio da estrada, logo avistei uma mulher com sua carga inusitada. De calça comprida, camisa de pano grosso também de mangas compridas, chapéu na cabeça e luvas pretas nas mãos, com a face queimada de sol, tendo à frente um carro de mão abarrotado de lenha. Seu nome: Maria.
Maria. E talvez nem precise de sobrenome. Ou precise sim, mas apenas Maria do Sertão, Maria Nordestina, Maria da Luta, Maria Mulher, Maria Maria, apenas. Uma Maria como tantas outras Marias que diuturnamente, que faça chuva ou faça sol, jamais se curva perante as dificuldades ou deixa de se virar em muitas para garantir a sobrevivência dos seus. Maria de lata d'água na cabeça, Maria de trouxa de roupas na cabeça, Maria de enxada e foice deitados ao ombro, Maria voltando da roça com um punhado de feijão, de milho, de qualquer coisa. Maria abrindo a janela do amanhecer para que seus olhos avistem a esperança do dia. Mas aquela Maria voltava carregada de lenha.
Uma Maria incansável na luta, disposta a dar tudo de si para a digna sobrevivência, tecendo sua vida nos duros ofícios debaixo da lua e do sol. Ainda jovem, de rosto bonito e de evidente simpatia humana, bem que podia cuidar apenas dos afazeres da casa. Mas não. Foi avistada já chegando do mato, já voltando do meio do mundo com seu carro de mão tomado de lenha. Madeira em pedaços, catados e recolhidos na mata, para alimentar o fogão de lenha. No lugar do botijão de gás, a lenha dando vida ao fogo e o fogo fervendo a panela com qualquer coisa por dentro.
Logo que avistei Maria senti vontade de registrar aquele momento tão original e representativo da vida sertaneja. Esperei ela se aproximar um pouco mais e depois segui em sua direção. Cumprimentei e pedi permissão para uma fotografia. Ela já me conhecia e por isso mesmo em nada se opôs. Mesmo chegando de longe, carregando um peso grande debaixo do sol, não se mostrava exausta nem entristecida pela vida dura. Parecia acostumada com aquele cotidiano de luta e de correria, onde catar lenha no mato era apenas uma parte do muito dificultoso no dia após dia. Retratei aquele momento e logo publiquei a fotografia nas redes sociais com as seguintes palavras:
"A dignidade pelo trabalho. Eis a melhor tradução para a fotografia abaixo, retratada no Assentamento Madre Teresa de Calcutá, em Poço Redondo. Talvez tenha saído logo cedinho de casa. Talvez nem tivesse tido tempo de tomar uma xícara de café e morder um pedaço de pão. Talvez nem tivesse deixado algum alimento sobre a mesa para os filhos ou os menores de casa. Talvez nem tivesse pensado em pedir a um homem que fizesse o duro trabalho de recolhimento de lenha na mataria ao redor. Talvez nem tivesse pensado em nada senão ir depressa ao trabalho, à catação e extração de toco e pedaço de pau para alimentar o fogão de quintal. Tanto faz o alimento que se tenha. Tanto faz a panelada ou apenas a frigideira com um pedacinho disso ou daquilo. O que importa mesmo é a conquista através da luta. Uma gente assim, disposta e incansável na labuta do dia a dia, sempre tem uma galinha de capoeira, um bicho de cria, um pedaço de carne e de toucinho pendurados no varal nos fundos da casa. Coisa bonita avistá-la na estrada, sentir sua chegada e o sorriso na face. Aproximei-me, proseei um pouquinho para não atrapalhar sua chegada e seu descanso, mas não tive como não pedir para retratá-la daquele jeito assim tão sertanejo. E ela não se negou. Mostrou que não tinha vergonha de ser fotografada assim. Então ela até fez pose. Então eu sorri por fora e por dentro e me reconheci como nunca naquela sertaneja. Ela me representa. Representa sim".
Apenas um retrato de Maria. Mas quem conhece os sertões e suas Marias, certamente também conhecerá a luta de cada Maria. E esta Maria, a do carro de mão cheio de lenha, aquela que logo cedo sai de casa para o ofício da luta, também aquela que retorna para alimentar o fogão e colocar panela por riba, vai além desse viver mariano para se constituir noutra saga de mulher: a Maria que é pai e que é mãe, a Maria que tem de cuidar dos seus esforçando como mulher e também como homem. E assim por que esta Maria sustenta sozinha uma casa, não possui marido nem pai para seus filhos, e por isso mesmo é tudo no seu lar e na vida dos seus. E uma Maria assim só podia mesmo ter a força e a abnegação de uma Maria sertaneja.
*Rangel Alves da Costa é advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa


Era dia de domingo, um dia de descanso para muitos. Mas assim que cheguei ao Assentamento Madre Teresa de Calcutá, na zona rural do município sergipano de Poço Redondo, para uma visita a um amigo, mais adiante, chegando pelo meio da estrada, logo avistei uma mulher com sua carga inusitada. De calça comprida, camisa de pano grosso também de mangas compridas, chapéu na cabeça e luvas pretas nas mãos, com a face queimada de sol, tendo à frente um carro de mão abarrotado de lenha. Seu nome: Maria.
Maria. E talvez nem precise de sobrenome. Ou precise sim, mas apenas Maria do Sertão, Maria Nordestina, Maria da Luta, Maria Mulher, Maria Maria, apenas. Uma Maria como tantas outras Marias que diuturnamente, que faça chuva ou faça sol, jamais se curva perante as dificuldades ou deixa de se virar em muitas para garantir a sobrevivência dos seus. Maria de lata d'água na cabeça, Maria de trouxa de roupas na cabeça, Maria de enxada e foice deitados ao ombro, Maria voltando da roça com um punhado de feijão, de milho, de qualquer coisa. Maria abrindo a janela do amanhecer para que seus olhos avistem a esperança do dia. Mas aquela Maria voltava carregada de lenha.
Uma Maria incansável na luta, disposta a dar tudo de si para a digna sobrevivência, tecendo sua vida nos duros ofícios debaixo da lua e do sol. Ainda jovem, de rosto bonito e de evidente simpatia humana, bem que podia cuidar apenas dos afazeres da casa. Mas não. Foi avistada já chegando do mato, já voltando do meio do mundo com seu carro de mão tomado de lenha. Madeira em pedaços, catados e recolhidos na mata, para alimentar o fogão de lenha. No lugar do botijão de gás, a lenha dando vida ao fogo e o fogo fervendo a panela com qualquer coisa por dentro.
Logo que avistei Maria senti vontade de registrar aquele momento tão original e representativo da vida sertaneja. Esperei ela se aproximar um pouco mais e depois segui em sua direção. Cumprimentei e pedi permissão para uma fotografia. Ela já me conhecia e por isso mesmo em nada se opôs. Mesmo chegando de longe, carregando um peso grande debaixo do sol, não se mostrava exausta nem entristecida pela vida dura. Parecia acostumada com aquele cotidiano de luta e de correria, onde catar lenha no mato era apenas uma parte do muito dificultoso no dia após dia. Retratei aquele momento e logo publiquei a fotografia nas redes sociais com as seguintes palavras:
"A dignidade pelo trabalho. Eis a melhor tradução para a fotografia abaixo, retratada no Assentamento Madre Teresa de Calcutá, em Poço Redondo. Talvez tenha saído logo cedinho de casa. Talvez nem tivesse tido tempo de tomar uma xícara de café e morder um pedaço de pão. Talvez nem tivesse deixado algum alimento sobre a mesa para os filhos ou os menores de casa. Talvez nem tivesse pensado em pedir a um homem que fizesse o duro trabalho de recolhimento de lenha na mataria ao redor. Talvez nem tivesse pensado em nada senão ir depressa ao trabalho, à catação e extração de toco e pedaço de pau para alimentar o fogão de quintal. Tanto faz o alimento que se tenha. Tanto faz a panelada ou apenas a frigideira com um pedacinho disso ou daquilo. O que importa mesmo é a conquista através da luta. Uma gente assim, disposta e incansável na labuta do dia a dia, sempre tem uma galinha de capoeira, um bicho de cria, um pedaço de carne e de toucinho pendurados no varal nos fundos da casa. Coisa bonita avistá-la na estrada, sentir sua chegada e o sorriso na face. Aproximei-me, proseei um pouquinho para não atrapalhar sua chegada e seu descanso, mas não tive como não pedir para retratá-la daquele jeito assim tão sertanejo. E ela não se negou. Mostrou que não tinha vergonha de ser fotografada assim. Então ela até fez pose. Então eu sorri por fora e por dentro e me reconheci como nunca naquela sertaneja. Ela me representa. Representa sim".
Apenas um retrato de Maria. Mas quem conhece os sertões e suas Marias, certamente também conhecerá a luta de cada Maria. E esta Maria, a do carro de mão cheio de lenha, aquela que logo cedo sai de casa para o ofício da luta, também aquela que retorna para alimentar o fogão e colocar panela por riba, vai além desse viver mariano para se constituir noutra saga de mulher: a Maria que é pai e que é mãe, a Maria que tem de cuidar dos seus esforçando como mulher e também como homem. E assim por que esta Maria sustenta sozinha uma casa, não possui marido nem pai para seus filhos, e por isso mesmo é tudo no seu lar e na vida dos seus. E uma Maria assim só podia mesmo ter a força e a abnegação de uma Maria sertaneja.
*Rangel Alves da Costa é advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com