O caminho da esquerda é o da democracia

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Publicada em 24/04/2018 às 23:14:00

 

* Emir Sader
A democracia parece asfixiar à direita. Conforme só disponha de um projeto profundamente antissocial, não pode se submeter a uma disputa democrática aberta, porque não tem como conquistar a maioria da população.
Por seu lado, a esquerda está profundamente comprometida com a democracia, não tem medo da disputa livre entre seu projeto e o da direita, tem confiança no que prega e sabe das debilidades do projeto da direita. A ofensiva conservadora na América Latina revela, cada vez mais, como a direita busca estreitar ou inclusive liquidar totalmente os espaços democráticos, seja para continuar no poder ou para chegar ao poder por vias não democráticas.
Essa ofensiva só confirma como a direita latino-americana não tem compromisso com a democracia, enquanto que é à esquerda quem nasce, se desenvolve, governo por meios democráticos e luta democraticamente por seguir governando ou por voltar a faze-lo. E' uma ilusão acreditar que a via democrática esta' esgotada e apontar para alguma via não democrática. Inclusive porque a via insurrecional seria caminho de derrota imediata e de catástrofe para a esquerda, como a situação colombiana o demonstra.
O que se esgota é o compromisso da direita com a democracia. A estratégia hibrida, a nova via de ação do imperialismo, representa uma sabotagem desde dentro dos sistemas democráticos. Valendo-se do monopólio dos meios de comunicação, do financiamento privado das campanhas eleitorais, e de um Judiciário aderido ao lawfare e à judicialização da política, montou-se uma estratégia de perseguição judicial, policial e midiática, única via possível de acesso ou perpetuação da direita no governo.
A luta pela democratização está na essência da estratégia da esquerda. A esquerda só pode chegar ao governo pelo convencimento da maioria da população. Só pode governar contando com essa maioria.
Mesmo se chegue a passar de um regime de exceção a um Estado de exceção, fechando todos os espaços legais, a esquerda não poderia abandonar a luta democrática. Teria que unir distintas formas de luta, mas mantendo o objetivo de reabrir espaços democráticos, que são onde os movimentos populares podem se organizar e desenvolver todas as formas de luta.
A mudança radical na correlação de forcas internacional com o fim do período de duas superpotências, para a passagem ao período de uma única superpotência, implicou também numa mudança radical na correlação de forcas no plano militar. Por isso os movimentos guerrilheiros em El Salvador e na Guatemala reciclaram suas formas de forma para o plano legal e institucional, porque o triunfo pela via militar já não seria possível.
O atraso nessa conversão na Colômbia gerou condições mais desfavoráveis para a esquerda nos acordos de paz. E uma conversão muito mais difícil para os movimentos guerrilheiros.
As condições se luta se tornam mais difíceis quando a direita se vale do sistema politico para corrompe-lo do seu interior. Conta com erros da esquerda, claro. Entre eles, o não se ter colocado a democratização do Judiciário - objetivo que a Bolívia encara com grande coragem. Além de não ter sido capaz de democratizar os meios de comunicação.
Mas o que afetou mais profundamente a esquerda e a levou, em alguns países, como o Brasil e a Argentina, a derrotas graves, foi ter perdido a disputa pela agenda nacional. Depois de ter convencido a maioria da população de que a questão social, a da desigualdade social, a da exclusão social, a da fome e da miséria, é a fundamental, ainda mais no que era o país mais desigual do continente mais desigual do mundo, sofreu uma mudança nesse consenso nacional, vítima de uma campanha midiática monstruosa, que impôs uma outra agenda: a da corrupção e a dos supostos gastos excessivos do Estado. Foi essa virada que possibilitou à direita recuperar iniciativa, quebrar a hegemonia da esquerda e retomar seus projetos neoliberais.
Valeu-se da falta de democracia: nos meios de comunicação, no Judiciário, no financiamento das campanhas eleitorais. Corresponde à esquerda não abandonar a via democrática, que é seu oxigênio essencial, mas aprofundar a luta pela democracia, renová-la, ampliá-la. Porque o caminho da esquerda é o da democracia
*Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

* Emir Sader


A democracia parece asfixiar à direita. Conforme só disponha de um projeto profundamente antissocial, não pode se submeter a uma disputa democrática aberta, porque não tem como conquistar a maioria da população.
Por seu lado, a esquerda está profundamente comprometida com a democracia, não tem medo da disputa livre entre seu projeto e o da direita, tem confiança no que prega e sabe das debilidades do projeto da direita. A ofensiva conservadora na América Latina revela, cada vez mais, como a direita busca estreitar ou inclusive liquidar totalmente os espaços democráticos, seja para continuar no poder ou para chegar ao poder por vias não democráticas.
Essa ofensiva só confirma como a direita latino-americana não tem compromisso com a democracia, enquanto que é à esquerda quem nasce, se desenvolve, governo por meios democráticos e luta democraticamente por seguir governando ou por voltar a faze-lo. E' uma ilusão acreditar que a via democrática esta' esgotada e apontar para alguma via não democrática. Inclusive porque a via insurrecional seria caminho de derrota imediata e de catástrofe para a esquerda, como a situação colombiana o demonstra.
O que se esgota é o compromisso da direita com a democracia. A estratégia hibrida, a nova via de ação do imperialismo, representa uma sabotagem desde dentro dos sistemas democráticos. Valendo-se do monopólio dos meios de comunicação, do financiamento privado das campanhas eleitorais, e de um Judiciário aderido ao lawfare e à judicialização da política, montou-se uma estratégia de perseguição judicial, policial e midiática, única via possível de acesso ou perpetuação da direita no governo.
A luta pela democratização está na essência da estratégia da esquerda. A esquerda só pode chegar ao governo pelo convencimento da maioria da população. Só pode governar contando com essa maioria.
Mesmo se chegue a passar de um regime de exceção a um Estado de exceção, fechando todos os espaços legais, a esquerda não poderia abandonar a luta democrática. Teria que unir distintas formas de luta, mas mantendo o objetivo de reabrir espaços democráticos, que são onde os movimentos populares podem se organizar e desenvolver todas as formas de luta.
A mudança radical na correlação de forcas internacional com o fim do período de duas superpotências, para a passagem ao período de uma única superpotência, implicou também numa mudança radical na correlação de forcas no plano militar. Por isso os movimentos guerrilheiros em El Salvador e na Guatemala reciclaram suas formas de forma para o plano legal e institucional, porque o triunfo pela via militar já não seria possível.
O atraso nessa conversão na Colômbia gerou condições mais desfavoráveis para a esquerda nos acordos de paz. E uma conversão muito mais difícil para os movimentos guerrilheiros.
As condições se luta se tornam mais difíceis quando a direita se vale do sistema politico para corrompe-lo do seu interior. Conta com erros da esquerda, claro. Entre eles, o não se ter colocado a democratização do Judiciário - objetivo que a Bolívia encara com grande coragem. Além de não ter sido capaz de democratizar os meios de comunicação.
Mas o que afetou mais profundamente a esquerda e a levou, em alguns países, como o Brasil e a Argentina, a derrotas graves, foi ter perdido a disputa pela agenda nacional. Depois de ter convencido a maioria da população de que a questão social, a da desigualdade social, a da exclusão social, a da fome e da miséria, é a fundamental, ainda mais no que era o país mais desigual do continente mais desigual do mundo, sofreu uma mudança nesse consenso nacional, vítima de uma campanha midiática monstruosa, que impôs uma outra agenda: a da corrupção e a dos supostos gastos excessivos do Estado. Foi essa virada que possibilitou à direita recuperar iniciativa, quebrar a hegemonia da esquerda e retomar seus projetos neoliberais.
Valeu-se da falta de democracia: nos meios de comunicação, no Judiciário, no financiamento das campanhas eleitorais. Corresponde à esquerda não abandonar a via democrática, que é seu oxigênio essencial, mas aprofundar a luta pela democracia, renová-la, ampliá-la. Porque o caminho da esquerda é o da democracia
*Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros