Brasília não é do Brasil...

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Publicada em 25/04/2018 às 23:26:00

 

* Dom Edvaldo Gonçalves Amaral, SDB
Sim, a nossa capital federal não parece estar no Brasil. É a impressão que fica ao visitante que passa alguns dias por lá.
Cidade única no mundo, Brasília não tem as prosaicas ruas e praças de que toda cidade dispõe. É toda feita de super-quadras, com grandes blocos de majestosos edifícios, em grande parte apartamentos funcionais. À beira do lago Paranoá, estão as mansões distribuídas em Lago Norte e Lago Sul, com alguns arremedos de ruas. Fala-se na Praça dos Três Poderes. Na verdade, um imenso e magnífico espaço, onde se colocam, como se fossem ali cuidadosa e artisticamente depositados, os prédios-símbolos dos três Poderes da República: de um lado, o do Poder Executivo, o Palácio do Planalto, com sua bem ostensiva rampa, que é galgada pelo depositário supremo da confiança da Nação; do outro, o do Poder Judiciário, o Palácio da Justiça, tendo à frente sua artística estátua sentada de olhos vedados; e no centro, o do Poder Legislativo, as duas Casas do Congresso Nacional, num único e maravilhoso conjunto, como a significar que este Poder deve ser o principal e a matriz dos demais. E será que é? Os fatos dos anos passados estão a desmentir essa verdade. Para chegar aí, aos três símbolos dos Poderes, atravessa-se uma - não é avenida - imensa esplanada sem similar em nosso país: é a Esplanada dos Ministérios, onde têm sede os vários órgãos, cada vez mais multiplicados e cada vez menos eficientes, da ação governamental. Tudo muito alheio ao Brasil de verdade, o Brasil das favelas, das ruas imundas e das praças mal cuidadas.
As grandes cidades brasileiras, mesmo as mais ricas, como Rio e São Paulo, têm o centro invadido pelos camelôs, o comércio dos pobres, e repleto das pessoas que vêm dos subúrbios para adquirir utilidades a preço baixo ou algum humilde importado, via Paraguai. Vejo isso no Recife, na Praça do Carmo e adjacências, ponto de encontro da pobreza recifense, vinda dos remotos subúrbios, dos morros e das cidades-dormitórios, que fazem o Grande Recife.
Em Brasília, não! Com exceção da rodoviária, o que se vê são apenas funcionários públicos devidamente engravatados. Os pobres de Brasília, os descendentes dos candangos que construíram a capital dos sonhos de JK, estes foram habilmente afastados do chamado Plano Piloto e se encontram nas várias cidades-satélites, hoje já inchadas e super-povoadas pela pobreza brasiliense. São esses que quase só podemos encontrar na estação rodoviária, exatamente no início e no fim de dura jornada, como diaristas dos apartamentos das madames, vigilantes de casas particulares, comerciários e outros humildes trabalhadores.
Brasília é realmente dos mais belos cartões-postais do Brasil. Mas não é o Brasil que conhecemos…
* * *
Brasília, capital federal do Brasil e sede do governo do Distrito Federal, foi inaugurada em 21 de abril de 1960 pelo então Presidente da República 'Juscelino Kubitschek de Oliveira'; festejou, portanto, no último sábado, seus 58 anos.
* Dom Edvaldo Gonçalves Amaral, SDB é Arcebispo Emérito de Maceió (foi Bispo Auxiliar de Aracaju - 1975 a 1980)
dedvaldo@salesianorecife.com.br 

* Dom Edvaldo Gonçalves Amaral, SDB


Sim, a nossa capital federal não parece estar no Brasil. É a impressão que fica ao visitante que passa alguns dias por lá.
Cidade única no mundo, Brasília não tem as prosaicas ruas e praças de que toda cidade dispõe. É toda feita de super-quadras, com grandes blocos de majestosos edifícios, em grande parte apartamentos funcionais. À beira do lago Paranoá, estão as mansões distribuídas em Lago Norte e Lago Sul, com alguns arremedos de ruas. Fala-se na Praça dos Três Poderes. Na verdade, um imenso e magnífico espaço, onde se colocam, como se fossem ali cuidadosa e artisticamente depositados, os prédios-símbolos dos três Poderes da República: de um lado, o do Poder Executivo, o Palácio do Planalto, com sua bem ostensiva rampa, que é galgada pelo depositário supremo da confiança da Nação; do outro, o do Poder Judiciário, o Palácio da Justiça, tendo à frente sua artística estátua sentada de olhos vedados; e no centro, o do Poder Legislativo, as duas Casas do Congresso Nacional, num único e maravilhoso conjunto, como a significar que este Poder deve ser o principal e a matriz dos demais. E será que é? Os fatos dos anos passados estão a desmentir essa verdade. Para chegar aí, aos três símbolos dos Poderes, atravessa-se uma - não é avenida - imensa esplanada sem similar em nosso país: é a Esplanada dos Ministérios, onde têm sede os vários órgãos, cada vez mais multiplicados e cada vez menos eficientes, da ação governamental. Tudo muito alheio ao Brasil de verdade, o Brasil das favelas, das ruas imundas e das praças mal cuidadas.
As grandes cidades brasileiras, mesmo as mais ricas, como Rio e São Paulo, têm o centro invadido pelos camelôs, o comércio dos pobres, e repleto das pessoas que vêm dos subúrbios para adquirir utilidades a preço baixo ou algum humilde importado, via Paraguai. Vejo isso no Recife, na Praça do Carmo e adjacências, ponto de encontro da pobreza recifense, vinda dos remotos subúrbios, dos morros e das cidades-dormitórios, que fazem o Grande Recife.
Em Brasília, não! Com exceção da rodoviária, o que se vê são apenas funcionários públicos devidamente engravatados. Os pobres de Brasília, os descendentes dos candangos que construíram a capital dos sonhos de JK, estes foram habilmente afastados do chamado Plano Piloto e se encontram nas várias cidades-satélites, hoje já inchadas e super-povoadas pela pobreza brasiliense. São esses que quase só podemos encontrar na estação rodoviária, exatamente no início e no fim de dura jornada, como diaristas dos apartamentos das madames, vigilantes de casas particulares, comerciários e outros humildes trabalhadores.
Brasília é realmente dos mais belos cartões-postais do Brasil. Mas não é o Brasil que conhecemos…
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Brasília, capital federal do Brasil e sede do governo do Distrito Federal, foi inaugurada em 21 de abril de 1960 pelo então Presidente da República 'Juscelino Kubitschek de Oliveira'; festejou, portanto, no último sábado, seus 58 anos.
* Dom Edvaldo Gonçalves Amaral, SDB é Arcebispo Emérito de Maceió (foi Bispo Auxiliar de Aracaju - 1975 a 1980)dedvaldo@salesianorecife.com.br