A HONRA DE TEMER E O SORRISO DE GEDEL

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Publicada em 29/04/2018 às 00:56:00

Gedel Vieira Lima, aquele, que acumulava numa sala de um apartamento de classe mé-dia, em Salvador, a quantia nada desprezível de 51 milhões de reais e alguns trocados, está agora, como se sabe, passando uma temporada na penitenciária da Papuda, em Brasília.

Todas as manhãs, antes do banho frio e do café com pão, ou das necessidades atendidas num sanitário raso, onde se fica acocorado, que os seus companheiros do andar de baixo, os ladrões de quantias irrisórias, chamam curiosamente de¨ boi ¨, o nosso Geddel, agora com papada menos farta, a revelar a flacidez dos viciosos ocupantes de gabinetes refrigerados, tenta divisar, ao longe, numa empreitada impossível, o terceiro andar do Palácio do Planalto. A vista se perde, e se embaraça na lonjura alcançável dos horizontes largos, naquela imensidão do planalto, onde JK ousou instalar a nova capital brasileira. Geddel aguça a vista, ajeita os óculos, logo embaçados pela pele gordurosa, e insiste na ânsia inútil. Quer, a todo custo, avistar o palácio distante, onde, seguramente, aquela hora não estaria ainda o seu amigo, o seu parceiro, o seu chefe, que um dia o acolheu em festa, para acomodá-lo naquele andar, o terceiro, numa sala junto aquela que o velho, digamos assim, cúmplice, acabava de ocupar, como beneficiário direto de um impeachment, para cujo desfecho o nosso Geddel contribuiu, quer cabalando votos na Câmara, quer manifestando nas ruas, a sua indignação cívica, contra a corrupção que contaminava exatamente aquele Palácio, onde ele, junto ao chefe, logo se alojou.
Finalmente, mais uma vez sem êxito, o nosso Geddel desiste e vai, resignadamente, a mais um banho de sol, um dos ¨direitos ¨que lhe restam, naquela horrorosa nova casa onde lhe está sendo permitido viver. De volta à sua cela, acomoda-se no catre estreito, e fica a assistir televisão, um privilégio, sem dúvidas.

Mas na manhã desse dia, sexta-feira, 27, de um abril findante que está sendo o pior da sua vida, da folgada vida que sempre viveu, e eis que na tela aparece ele, o amigo, o chefe, o parceiro, o cúmplice. Era o presidente Temer, Michel, como ele preferia chamá-lo, na intimidade que sempre tiveram. Ficou atentamente a escutá-lo , notou que o rosto do presidente estava tenso, e os seus gestos mais nervosos e desconexos do que usualmente.
Depois de ouvir a fala do homem de quem fora Ministro, e poderoso ministro, Geddel, pela primeira vez desde a sua hora de desgraça, ao cruzar pela segunda vez a porta daquela penitenciária, remexeu as lembranças, chegou ate a sentir um frêmito, de início quase imperceptível, mas que identificou como originário da sua consciência, e de um tempo que, na condição de recluso, já lhe parecia imemorial, lhe vieram bem claras as lembranças, nítidas, fortes, quase fotografias bem definidas de episódios da sua vida, desde que se fez político, desde que se tornou amigo e parceiro de Temer, desde que foi seu Ministro, seu representante em tantos cargos estratégicos que ocupou, como uma cobiçada diretoria da Caixa Econômica.

No rosto, lhe apareceu um raríssimo riso irônico ao ouvir Temer dizer: ¨ Se pensam que atacarão a minha honra de minha família, não pensem que ficarão sem resposta .¨
Geddel fechou os olhos, e pela mente lhe sucederam as cenas numa sequência avassaladora.
Malas e mais malas recheadas de dinheiro, a divisão sendo feita entre o chefe e os demais companheiros; as licitações fraudadas, os acertos a meia voz, as chantagens também, os contatos com empresários tipo Joesley Batista, os dirigentes de empreiteiras e seus agentes, aquela rede intricada e imbricada de política e negócios, de negócios e política; as conspirações, os ardís, a montagem da rede de laranjas, o dinheiro pulverizado entre eles, a disputa pelos rendosos postos, a complicada logística para transportar e dar destino a valores, a despreocupação como tudo era feito, e de repente o susto, o alarma, a prisão. Em todos aqueles episódios da sua vida, enxergava o nosso Geddel Vieira Lima o seu amigo Michel, o seu irmão, ainda deputado e solto, Lúcio Vieira Lima, que, como ele, guarda tantos segredos; o arrogante e insaciável Eduardo Cunha, o calculista Moreira Franco, o ousado Padilha, o sisudo coronel Batista, o desastrado Rocha Loures, o convencido advogado Iunes, o impetuoso Padilha, o avassalador Jucá.

Éramos todos uma só e eficiente turma, concluiu Geddel.
E o riso irônico não lhe saia da face, enquanto assistia o amigo falando na televisão, até que lagrimas lhe empaparam o rosto, e lhe veio a desoladora reflexão: É inútil, eu nunca mais vou enxergar o gabinete que ocupei ao lado do meu amigo e sócio de aventuras Michel Temer, eu aqui, agora, e ele lá, no Planalto, falando na sua honra ferida. E fez a si mesmo a desolada e enigmática pergunta: ¨E, a nós todos, restaria alguma honra?¨