Sorvete com sabor de gente

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 05/05/2018 às 00:05:00

 

* Manoel Moacir Costa Macêdo
Por fora, uma sorveteria qualquer. 
Por dentro, uma aparência nor-
mal. Paredes alvas, móveis claros, luzes e cores relaxantes - uma arquitetura aconchegante e de bom gosto. Um ambiente harmonizado e acolhedor.Parece somente uma sorveteria, mas não é. O fundamental não está na aparência e na forma; mas no conteúdo, no invisível e no seu fim. Sublimes conteúdos, além da simbologia. Não é uma sorveteria do tempo comum, com gelados empacotados à mostra. Não são apenas nomes de gelados convidativos à gula. Também não são cores e misturas artificiais ao convite de "quero mais". Isso, não qualifica essa sorveteria. A sorveteria que existe na realidade, tem sabor, formas, cores e atitudes de gente. Ela não vende produtos fantasiados em comuns sorvetes. Uma sorveteria que comercializa atitudes, mensagens e reflexões na concretude de uma sociedade perversa, desigual e assimétrica em suas oportunidades - uma contradição que merece uma ode aos deuses.
Ela existe, e bem perto de nós. Uma sorveteria de jovens corajosos e carismáticos, enfim uma gente alegre que transformam os frios gelados em quentes sorvetes, que aquecem a alma e rejuvenesce o ser, indo além dos profanos sabores. Sorvetes recheados de esperança e caldas quentes de trabalho e dignidade. Não identifico os seus nomes. Não direi onde fica e nem pronunciarei a identidade dos seus atores. Digo sim: ela existe. Não ouço e nem sou servil aos comentários desvinculados do sagrado propósito,pois para "ser feliz é simples, apenas descomplicar por dentro". 
Não é uma sorveteria qualquer. Ela não oferece congelados, mas "sorvetes com sabor de gente", que não cala e nem sucumbe perante os preconceitos das dificuldades físicas, e restrições do "falar e ouvir" com os comuns; no popular de "surdos e mudos". Em linguagem angelical gritam com as vozes do espírito: "quem quer sorvete com sabor de gente". Nós outros consumidores, não entendemos o clamor nas vozes roucas e silenciosas. Não possuímos "os olhos de ver, os ouvidos de escutar, e as mentes de apreender". Mensagens profundas escondem-se na realidade cruel com os diferentes, num tempo de intolerância e ódio com a diversidade. Haveremos de responder e em voz alta: "sim - queremos sorvete com sabor de gente". Não deve ser falado no singular, mas no plural. Não deve ser escrito no pretérito, mas no presente do indicativo.
Os "sorveteiros", não se distinguem em suas tarefas e nem se envergonham de ser o que são. Orgulham-se do que fazem. As expressões nos risos, olhares e gestos nas "libras", demonstram a alegria, traduzida num alfabeto de mistérios. Uma mistura entre mãos, mentes e mensagens. Profanos e sagrados se comungam, além do simples vender e comprar sorvetes. Eles contrariam o Padre Vieira, pois vão além do que "quererei só o que podeis". Podem mais do que querem. Eles mostram de que nascer não é uma desgraça, viver não é doloroso, e mover não é uma dificuldade. Eles derrubam os muros e labirintos de culpas dos que não sabem para que vivem. Revistam o papel do criador perante a miséria, injustiças, e catástrofes. O conservadorismo autoritário, e a matriz patrimonialista, capitulam de forma desigual as oportunidades dos que aparentam fracos, pobres, e diferentes, numa equação de desigualdade persistente e dolorosa.
O esperado, é que as atitudes no "sorvete com sabor de gente", alcancem o imaginário da coletividade propensa às transformações das assombrosas assimetrias sociais, mormente nas minorias, discriminadas, à margem das políticas públicas e conquistas da civilização. O tempo de hoje, dito "líquido" e extremo, parece recusar o humanismo e a cristandade,e opta por seguir os instintos e as preferências imediatas e superficiais do lucro, assustando os espíritos propícios à diversidade e à convivência pacífica e igualitária, que deveria ser a marca das sociedades democráticas e com marcas de religiosidade. Concluo, parodiando Marshal Berman, que na perspectiva marxista, escreveu: "tudo que é sólido desmancha no ar".
* Manoel Moacir Costa Macêdo, PhD pelaUniversity of Sussex, Brighton, Inglaterra.

* Manoel Moacir Costa Macêdo


Por fora, uma sorveteria qualquer.  Por dentro, uma aparência nor- mal. Paredes alvas, móveis claros, luzes e cores relaxantes - uma arquitetura aconchegante e de bom gosto. Um ambiente harmonizado e acolhedor.Parece somente uma sorveteria, mas não é. O fundamental não está na aparência e na forma; mas no conteúdo, no invisível e no seu fim. Sublimes conteúdos, além da simbologia. Não é uma sorveteria do tempo comum, com gelados empacotados à mostra. Não são apenas nomes de gelados convidativos à gula. Também não são cores e misturas artificiais ao convite de "quero mais". Isso, não qualifica essa sorveteria. A sorveteria que existe na realidade, tem sabor, formas, cores e atitudes de gente. Ela não vende produtos fantasiados em comuns sorvetes. Uma sorveteria que comercializa atitudes, mensagens e reflexões na concretude de uma sociedade perversa, desigual e assimétrica em suas oportunidades - uma contradição que merece uma ode aos deuses.
Ela existe, e bem perto de nós. Uma sorveteria de jovens corajosos e carismáticos, enfim uma gente alegre que transformam os frios gelados em quentes sorvetes, que aquecem a alma e rejuvenesce o ser, indo além dos profanos sabores. Sorvetes recheados de esperança e caldas quentes de trabalho e dignidade. Não identifico os seus nomes. Não direi onde fica e nem pronunciarei a identidade dos seus atores. Digo sim: ela existe. Não ouço e nem sou servil aos comentários desvinculados do sagrado propósito,pois para "ser feliz é simples, apenas descomplicar por dentro". 
Não é uma sorveteria qualquer. Ela não oferece congelados, mas "sorvetes com sabor de gente", que não cala e nem sucumbe perante os preconceitos das dificuldades físicas, e restrições do "falar e ouvir" com os comuns; no popular de "surdos e mudos". Em linguagem angelical gritam com as vozes do espírito: "quem quer sorvete com sabor de gente". Nós outros consumidores, não entendemos o clamor nas vozes roucas e silenciosas. Não possuímos "os olhos de ver, os ouvidos de escutar, e as mentes de apreender". Mensagens profundas escondem-se na realidade cruel com os diferentes, num tempo de intolerância e ódio com a diversidade. Haveremos de responder e em voz alta: "sim - queremos sorvete com sabor de gente". Não deve ser falado no singular, mas no plural. Não deve ser escrito no pretérito, mas no presente do indicativo.
Os "sorveteiros", não se distinguem em suas tarefas e nem se envergonham de ser o que são. Orgulham-se do que fazem. As expressões nos risos, olhares e gestos nas "libras", demonstram a alegria, traduzida num alfabeto de mistérios. Uma mistura entre mãos, mentes e mensagens. Profanos e sagrados se comungam, além do simples vender e comprar sorvetes. Eles contrariam o Padre Vieira, pois vão além do que "quererei só o que podeis". Podem mais do que querem. Eles mostram de que nascer não é uma desgraça, viver não é doloroso, e mover não é uma dificuldade. Eles derrubam os muros e labirintos de culpas dos que não sabem para que vivem. Revistam o papel do criador perante a miséria, injustiças, e catástrofes. O conservadorismo autoritário, e a matriz patrimonialista, capitulam de forma desigual as oportunidades dos que aparentam fracos, pobres, e diferentes, numa equação de desigualdade persistente e dolorosa.
O esperado, é que as atitudes no "sorvete com sabor de gente", alcancem o imaginário da coletividade propensa às transformações das assombrosas assimetrias sociais, mormente nas minorias, discriminadas, à margem das políticas públicas e conquistas da civilização. O tempo de hoje, dito "líquido" e extremo, parece recusar o humanismo e a cristandade,e opta por seguir os instintos e as preferências imediatas e superficiais do lucro, assustando os espíritos propícios à diversidade e à convivência pacífica e igualitária, que deveria ser a marca das sociedades democráticas e com marcas de religiosidade. Concluo, parodiando Marshal Berman, que na perspectiva marxista, escreveu: "tudo que é sólido desmancha no ar".
* Manoel Moacir Costa Macêdo, PhD pelaUniversity of Sussex, Brighton, Inglaterra.