Temer, a tragédia e o humanitismo

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Publicada em 05/05/2018 às 00:08:00

 

* Lelê Teles
Todo mundo afirma que o governo Temer é uma tragédia, como se isso fosse algo ruim.
Mas isso é apenas um ponto de vista.
Do ponto de vista do humanitismo, doutrina filosófica seguida por Temer e por todos os golpistas, não importa a razão das chamas, "desde que eu possa assar ali a minha batata".
Explico-me.
Manhã de primeiro de maio, Temer chega ao Largo do Paissandu, centro de São Paulo, como chegou aquele personagem de Machado de Assis ao ver a casa de uma infeliz em chamas.
Volto a essa  imagem no final.
Por enquanto, vemos cidadãos confusos com a presença daquele estranho senhor na trágica cena, cercado de seguranças e repórteres, escombros ao fundo.
Quem seria?
"É aquele homem do carnaval?", perguntou uma senhorinha intrigada.
"O vampirão?", redarguiu o neto adolescente que a tomava pelo braço, " não, quele do Tuiuti tinha um cabelão mais Carmen Lúcia, vó". 
A mulher da carrocinha de churros, boquiaberta, mandou um áudio pra filha pelo zap, "filha - o sangue de Jesus tem poder, eu vi com meus próprios olhos - não é que o Drácula saiu dos escombros do prédio que ruiu?!" 
Todos o sabemos, na noite anterior, o edifício abandonado e ocupado por cidadãos sem moradia ardeu em chamas.
Na madruga veio o colapso, o prédio caiu sobre si mesmo, word-trade-cêntricamente.
Cena trágica. 
Lembremos o que significa a tragédia para o humanismo e para o humanitismo.
Centenas de famílias se abrigavam ali, dezenas morreram.
Numa tragédia dessas espera-se a presença do prefeito, para dar uma satisfação à sociedade, do governador e até do presidente da república.
O prefeito deu de ombros e mandou avisar que os mortos e feridos pertenciam a uma facção criminosa; as chamas fizeram justiça.
O governador, ninguém sabe, ninguém viu. 
Mas pelo presidente ninguém esperava.
"O presidente Temer acaba de chegar ao local da tragédia...", informava, ao vivo, a repórter maquiada.
"É o Temer", gritou um moleque de nariz sujo. 
O ceguinho ouviu e bateu com a muleta nas pernas do vendedor de chip de celulares, passando o telefone sem fio: "aquele é o Temer, o presidente que desfilou na escola de samba".
Com o megafone em punho, o rapaz gritou: "o presidente Temer está aqui e veio fazer uma selfie nos escombros, é ano eleitoral, senhoras e senhores".
Aí iniciou-se um corre-corre. 
O vendedor de sombrinhas atirou-lhe um de seus produtos, sem se importar com o prejuízo.
Temendo a chuva de guarda-chuvas, seguranças aconselharam o morto-vivo a se abrigar no automóvel.
Temer tinha poucos segundos para decidir se corria sorrateiro como um rato ou se rastejava como um verme.
Deu-se o pandemônio, a multidão percebeu que aquele cão que corria com o rabo entre as pernas era o mesmo responsável pela perda de emprego de boa parte dos transeuntes.
"Vai embora, ladrão!", gritou o gordão com a camisa do Vasco.
"Filho da puta descarado", rezou a freirinha de óculos.
"Vagabundo maldito", disse um trombadinha.
Nesse momento, Temer já se escondia debaixo do sovaco dos seguranças.
O vendedor de balas ainda conseguiu atirar-lhe uns caramelos, um senhor encanecido lançou o chapéu de Panamá no para-brisa do veículo oficial.
Objetos começaram a voar.
"É o que acontece quando um vampiro sai à luz do sol...", refletiu na poça d'água o fumador de crack.
Um jovem preparava-se para jogar uma das muletas na porta do carro oficial assim que ela se fechou, mas foi contido pelo ceguinho.
No interior do carro, Temer exibia uma cara apavorada, como se houvesse acabado de ser retirado dos escombros. 
Não, perdoe-me, a imagem não presta.
No interior do carro, com o paletó emporcalhado de escarros, Temer ligava pro marqueteiro: "olha. aqui deu tudo certo, viu". 
E o carro arrancou.
No dia do trabalhador, quem iria se lembrar de Temer? Ele aproveitou a tragédia para ter seus 15 minutos de infâmia: "humanitas tem fome..."
No trajeto para a churrascaria, sem o paletó escarradeira e lendo, em tempo real, a repercussão pelo Twitter, o presidente ainda viu pela janela do carro um homem ser agarrado pelos policiais.
O infeliz revoltoso trazia numa das mãos uma estaca de madeira pontiaguda e gritava alguma coisa.
No reflexo do vidro do carro  alguém interpretou a leitura labial que parecia dizer "morra, vampiro desgraçado".
Quanto ao que disse o homem da estaca nunca iremos saber. 
Resta-nos especular.
O que sabemos com certeza é que Temer usou a tragédia numa draculesca jogada de marketing.
Lemos hoje n'O Globo que o Usurpador foi aconselhado a sair mais. 
Tragédias não faltam pra ele visitar e levar cusparada.
Tudo isso, e o diligente internauta há de concordar comigo, me faz lembrar do filósofo Quincas Borba, afirmando que as tragédias são úteis e até necessárias.
"Era uma vez", prosseguiu o filósofo no capítulo CXVII, "uma choupana que ardia na estrada; a dona, - um triste molambo de mulher, - chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão.
"Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela. 
- É minha, meu senhor, é tudo o que eu possuía neste mundo.
- Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?"
Vês o que é o humanitismo?
O Vampirão foi ao local da tragédia não por humanismo, mas por humanitismo. 
Quem vê o otimismo farsesco e bufão de Temer, aquele que sai às ruas para celebrar sua impopularidade, imagina que se trata de um seguidor do doutor Pangloss.
Nada mais inexato. 
É Quincas Borba sua leitura de cabeceira.
Palavras sapienciais.
* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista

* Lelê Teles


Todo mundo afirma que o governo Temer é uma tragédia, como se isso fosse algo ruim.Mas isso é apenas um ponto de vista.
Do ponto de vista do humanitismo, doutrina filosófica seguida por Temer e por todos os golpistas, não importa a razão das chamas, "desde que eu possa assar ali a minha batata".
Explico-me.
Manhã de primeiro de maio, Temer chega ao Largo do Paissandu, centro de São Paulo, como chegou aquele personagem de Machado de Assis ao ver a casa de uma infeliz em chamas.
Volto a essa  imagem no final.
Por enquanto, vemos cidadãos confusos com a presença daquele estranho senhor na trágica cena, cercado de seguranças e repórteres, escombros ao fundo.
Quem seria?
"É aquele homem do carnaval?", perguntou uma senhorinha intrigada.
"O vampirão?", redarguiu o neto adolescente que a tomava pelo braço, " não, quele do Tuiuti tinha um cabelão mais Carmen Lúcia, vó". 
A mulher da carrocinha de churros, boquiaberta, mandou um áudio pra filha pelo zap, "filha - o sangue de Jesus tem poder, eu vi com meus próprios olhos - não é que o Drácula saiu dos escombros do prédio que ruiu?!" 
Todos o sabemos, na noite anterior, o edifício abandonado e ocupado por cidadãos sem moradia ardeu em chamas.
Na madruga veio o colapso, o prédio caiu sobre si mesmo, word-trade-cêntricamente.
Cena trágica. 
Lembremos o que significa a tragédia para o humanismo e para o humanitismo.
Centenas de famílias se abrigavam ali, dezenas morreram.
Numa tragédia dessas espera-se a presença do prefeito, para dar uma satisfação à sociedade, do governador e até do presidente da república.
O prefeito deu de ombros e mandou avisar que os mortos e feridos pertenciam a uma facção criminosa; as chamas fizeram justiça.
O governador, ninguém sabe, ninguém viu. 
Mas pelo presidente ninguém esperava.
"O presidente Temer acaba de chegar ao local da tragédia...", informava, ao vivo, a repórter maquiada.
"É o Temer", gritou um moleque de nariz sujo. 
O ceguinho ouviu e bateu com a muleta nas pernas do vendedor de chip de celulares, passando o telefone sem fio: "aquele é o Temer, o presidente que desfilou na escola de samba".
Com o megafone em punho, o rapaz gritou: "o presidente Temer está aqui e veio fazer uma selfie nos escombros, é ano eleitoral, senhoras e senhores".
Aí iniciou-se um corre-corre. 
O vendedor de sombrinhas atirou-lhe um de seus produtos, sem se importar com o prejuízo.
Temendo a chuva de guarda-chuvas, seguranças aconselharam o morto-vivo a se abrigar no automóvel.
Temer tinha poucos segundos para decidir se corria sorrateiro como um rato ou se rastejava como um verme.
Deu-se o pandemônio, a multidão percebeu que aquele cão que corria com o rabo entre as pernas era o mesmo responsável pela perda de emprego de boa parte dos transeuntes.
"Vai embora, ladrão!", gritou o gordão com a camisa do Vasco.
"Filho da puta descarado", rezou a freirinha de óculos.
"Vagabundo maldito", disse um trombadinha.
Nesse momento, Temer já se escondia debaixo do sovaco dos seguranças.
O vendedor de balas ainda conseguiu atirar-lhe uns caramelos, um senhor encanecido lançou o chapéu de Panamá no para-brisa do veículo oficial.Objetos começaram a voar.

"É o que acontece quando um vampiro sai à luz do sol...", refletiu na poça d'água o fumador de crack.
Um jovem preparava-se para jogar uma das muletas na porta do carro oficial assim que ela se fechou, mas foi contido pelo ceguinho.
No interior do carro, Temer exibia uma cara apavorada, como se houvesse acabado de ser retirado dos escombros. 
Não, perdoe-me, a imagem não presta.
No interior do carro, com o paletó emporcalhado de escarros, Temer ligava pro marqueteiro: "olha. aqui deu tudo certo, viu". 
E o carro arrancou.
No dia do trabalhador, quem iria se lembrar de Temer? Ele aproveitou a tragédia para ter seus 15 minutos de infâmia: "humanitas tem fome..."
No trajeto para a churrascaria, sem o paletó escarradeira e lendo, em tempo real, a repercussão pelo Twitter, o presidente ainda viu pela janela do carro um homem ser agarrado pelos policiais.
O infeliz revoltoso trazia numa das mãos uma estaca de madeira pontiaguda e gritava alguma coisa.
No reflexo do vidro do carro  alguém interpretou a leitura labial que parecia dizer "morra, vampiro desgraçado".Quanto ao que disse o homem da estaca nunca iremos saber. 
Resta-nos especular.
O que sabemos com certeza é que Temer usou a tragédia numa draculesca jogada de marketing.
Lemos hoje n'O Globo que o Usurpador foi aconselhado a sair mais. 
Tragédias não faltam pra ele visitar e levar cusparada.
Tudo isso, e o diligente internauta há de concordar comigo, me faz lembrar do filósofo Quincas Borba, afirmando que as tragédias são úteis e até necessárias.
"Era uma vez", prosseguiu o filósofo no capítulo CXVII, "uma choupana que ardia na estrada; a dona, - um triste molambo de mulher, - chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão.
"Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela. 
- É minha, meu senhor, é tudo o que eu possuía neste mundo.
- Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?"
Vês o que é o humanitismo?
O Vampirão foi ao local da tragédia não por humanismo, mas por humanitismo. 
Quem vê o otimismo farsesco e bufão de Temer, aquele que sai às ruas para celebrar sua impopularidade, imagina que se trata de um seguidor do doutor Pangloss.
Nada mais inexato. 
É Quincas Borba sua leitura de cabeceira.
Palavras sapienciais.
* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista