SOB OS ESCOMBROS DO EDIFÍCIO, UMA DAS TRAGÉDIAS BRASILEIRAS

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Publicada em 06/05/2018 às 04:27:00

Talvez, não por inteira desgraça, mas, pela graça da reflexão que suscitam, as nossas tra-gédias brasileiras começam a ganhar corpo no indispensável debate político, agora,  intensificado pela proximidade das eleições. Sob os escombros do edifício incendiado e desmoronado, além da comoção pela amplitude do desastre,  revelou-se a face  de uma calamidade social que a megalópoles  paulistana incorporou, sem nenhuma cerimônia, ao seu cotidiano, como se fosse algo normal ter milhares de seres humanos sobrevivendo precariamente em edifícios, inclusive públicos, abandonados, e que, como ficou fatalmente demonstrado, às vezes  são consumidos pelo fogo, desabam, e matam os seus moradores.
Depois de consumada a tragédia, divulgam-se, agora, os números de uma realidade devastadora,  talvez, guardados  despreocupadamente nos escaninhos burocráticos. São Paulo, a cidade, tem cerca de 300 edifícios abandonados, públicos, ou particulares,na maioria ocupados por quem não tem onde morar. São Paulo, o estado, teria uma carência de mais de um milhão de moradias. Sobre moradores de rua, os cálculos oscilam entre limites largos de dez à cinquenta mil.
Tudo isso, na cidade féerica, trepidante, onde estão as sedes das grandes corporações industriais, financeiras, comerciais,as imensas  fortunas, os megaempresários, onde existem as mais conceituadas instituições  cientificas, os centros acadêmicos de primeira linha.
Há, em São Paulo, todo um aparato de conhecimento científico, tecnológico, a sofisticação do pensamento econômico e social, enfim,  uma rede  disponível de conquistas humanas, para que se formulem  ideias e se apliquem as soluções.
Apesar de todas essas referências, que apontam para a quase excelência, São Paulo é a fotografia mais nítida das imperfeições brasileiras, e a mais constrangedora, porque, ali  se faz a imagem   ampliada das nossas desigualdades; no caso paulistano, o abismo mais profundo  de distancia entre a riqueza portentosa, as vezes até ostentatória, e a mais aviltante miséria, sem recatos exposta.
O que mais assusta em tudo isso, é  que o tamanho do abismo social,  exemplificado pela tragédia, e   onde sobressai  o desmazelo dos poderes públicos, parece ser um tema impróprio,  que deve dar lugar a uma interpretação mais simplista, como, por exemplo,  a criminalização dos movimentos sociais pró moradias.
O janotinha enfatiotado João Dória, que fingiu fraudulentamente administrar São Paulo, como gestor  que levava ao mais alto grau a resolutividade, diante da noticia do desastre, logo capciosamente o diagnosticou `a distancia: ¨No prédio instalou-se uma facção criminosa ¨.
Típico representante da picaretagem que invade a política, Dória se fantasiou, quase à perfeição, como o ¨messias salvador¨  bem nascido  na ¨manjedoura ¨ reluzente,  onde os restos do banquete  são incinerados. Assim,não chegam à boca do faminto, fazendo-o perigosamente supor, que a mesa da fartura poderia ser menos injusta do que é, restrita a uns poucos comensais.
Então, se há miseráveis mofando em prédios públicos abandonados, mais cômodoseria então criminalizá-los.
Aos ouvidos seletivos, que se fazem moucos ao vozerio dos espezinhados, ainda soa, como suave e inspiradora música, a frase  dos rancorosos passadistas: ¨Problema social é caso de polícia ¨.