O assalto salvador

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Publicada em 08/05/2018 às 05:50:00

 

* Antonio Passos
A festa corria solta. Muitos sorrisos e alegria, pagode romântico tocado ao vivo em altíssimo volume, brindes a todo instante pra lá e pra cá... Não era para menos. Comemorava-se ali o sucesso de um empreendimento. Todos os presentes, em valores diferenciados, ganharam algum ou muito dinheiro com o negócio.
Teve o tradicional momento das falas. Falaram um ou dois técnicos com função de mando, a esposa do dono e ele, o dono. Não é necessário especificar o que cada um disse, pois, todos falaram a mesma coisa: agradeceram aos trabalhadores pelo empenho, o apoio das respectivas famílias e ao bom Deus que os abençoou.
Tudo havia começado fazia uns cinco anos, quando um executivo recebeu a missão de estruturar uma empresa para vender e instalar cercas elétricas em um esparramado bairro de uma grande cidade. No início não foi fácil. O bairro tinha fama de pacato e quase ninguém acreditou na necessidade do novo equipamento de segurança.
Mas, a percepção mudou. Invasões de casas por assaltantes armados, bem divulgadas pela TV, deixaram claro para os moradores que o bairro já não era tão seguro como antigamente. E assim, os fios de arame enfileirados começaram a aparecer trepados em todos os muros: na frente, no fundo e também pelos lados.
No início a equipe comemorava quando conseguiam instalar uma cerca por dia durante alguns dias seguidos. Mas, logo depois do burburinho sobre as invasões de residências, os pedidos de instalação se multiplicaram e mais equipes de instaladores foram contratadas. Pontos de venda e divulgação foram colocados nas esquinas.
Já no segundo ano de atividade não restava mais nenhuma dúvida quanto ao estrondoso sucesso do empreendimento. A empresa estava consolidada e o faturamento e os lucros aumentavam a cada mês. Em mais três anos, em ritmo acelerado de trabalho, chegaram enfim a atingir a cobertura de 100% dos imóveis do bairro.
Nesse ponto, entretanto, configurou-se um estrangulamento. Se todos os imóveis do bairro - casas, empresas e condomínios - já dispunham de cercas elétricas instaladas, como o negócio continuaria daí para frente? Apenas com manutenção? Um rateamento prévio entre empresas impedia a expansão para outros bairros.
O momento era de crise. Porém, numa bela manhã, uma notícia veiculada logo cedo no rádio e na TV, apontou para um duradouro caminho de sucesso. Na noite anterior, dois assaltantes armados roubaram um veículo, arrancando-o da proprietária e motorista, na porta de um estabelecimento comercial do bairro.
 Empreendedores atentos, o dono e os gerentes da empresa de cercas elétricas ampliaram de imediato a abrangência do negócio: agora, seria uma empresa de segurança privada. Já na semana seguinte uma dupla de vigilantes armados e uniformizados estava plantada na porta da venda onde ocorreu o assalto.
O bairro era salpicado de pequenos negócios: minimercados, postos de lavagem, bares, cafés, restaurantes, escritórios... Aos poucos, assim como acontecera com as cercas elétricas, as duplas de vigilância estavam em todo canto. Tratava-se de um serviço a ser prestado permanentemente, daquele dia em diante.
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos


A festa corria solta. Muitos sorrisos e alegria, pagode romântico tocado ao vivo em altíssimo volume, brindes a todo instante pra lá e pra cá... Não era para menos. Comemorava-se ali o sucesso de um empreendimento. Todos os presentes, em valores diferenciados, ganharam algum ou muito dinheiro com o negócio.
Teve o tradicional momento das falas. Falaram um ou dois técnicos com função de mando, a esposa do dono e ele, o dono. Não é necessário especificar o que cada um disse, pois, todos falaram a mesma coisa: agradeceram aos trabalhadores pelo empenho, o apoio das respectivas famílias e ao bom Deus que os abençoou.
Tudo havia começado fazia uns cinco anos, quando um executivo recebeu a missão de estruturar uma empresa para vender e instalar cercas elétricas em um esparramado bairro de uma grande cidade. No início não foi fácil. O bairro tinha fama de pacato e quase ninguém acreditou na necessidade do novo equipamento de segurança.
Mas, a percepção mudou. Invasões de casas por assaltantes armados, bem divulgadas pela TV, deixaram claro para os moradores que o bairro já não era tão seguro como antigamente. E assim, os fios de arame enfileirados começaram a aparecer trepados em todos os muros: na frente, no fundo e também pelos lados.
No início a equipe comemorava quando conseguiam instalar uma cerca por dia durante alguns dias seguidos. Mas, logo depois do burburinho sobre as invasões de residências, os pedidos de instalação se multiplicaram e mais equipes de instaladores foram contratadas. Pontos de venda e divulgação foram colocados nas esquinas.
Já no segundo ano de atividade não restava mais nenhuma dúvida quanto ao estrondoso sucesso do empreendimento. A empresa estava consolidada e o faturamento e os lucros aumentavam a cada mês. Em mais três anos, em ritmo acelerado de trabalho, chegaram enfim a atingir a cobertura de 100% dos imóveis do bairro.
Nesse ponto, entretanto, configurou-se um estrangulamento. Se todos os imóveis do bairro - casas, empresas e condomínios - já dispunham de cercas elétricas instaladas, como o negócio continuaria daí para frente? Apenas com manutenção? Um rateamento prévio entre empresas impedia a expansão para outros bairros.
O momento era de crise. Porém, numa bela manhã, uma notícia veiculada logo cedo no rádio e na TV, apontou para um duradouro caminho de sucesso. Na noite anterior, dois assaltantes armados roubaram um veículo, arrancando-o da proprietária e motorista, na porta de um estabelecimento comercial do bairro.
 Empreendedores atentos, o dono e os gerentes da empresa de cercas elétricas ampliaram de imediato a abrangência do negócio: agora, seria uma empresa de segurança privada. Já na semana seguinte uma dupla de vigilantes armados e uniformizados estava plantada na porta da venda onde ocorreu o assalto.
O bairro era salpicado de pequenos negócios: minimercados, postos de lavagem, bares, cafés, restaurantes, escritórios... Aos poucos, assim como acontecera com as cercas elétricas, as duplas de vigilância estavam em todo canto. Tratava-se de um serviço a ser prestado permanentemente, daquele dia em diante.
* Antonio Passos é jornalista