Política e Religião

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Publicada em 10/05/2018 às 00:51:00

 

* Dom Edvaldo Gonçalves Amaral, SDB
Nosso país atravessa uma fase de turbulência política e social como nunca. O Legislativo afronta o Executivo, o desemprego estende-se assustadoramente e o monstro da inflação ameaça a classe trabalhadora, minando seus parcos salários. Que devem fazer os católicos nessa situação?
"Na história, os ordenamentos jurídicos foram quase sempre motivados religiosamente. Com base em uma referência à Divindade, decidia-se aquilo que era justo entre os homens. Ao contrário das outras grandes religiões, o cristianismo nunca impôs ao Estado e à sociedade um direito revelado, nunca impôs um ordenamento jurídico, derivado da Revelação divina. Apelou para a natureza e a razão como verdadeiras fontes do direito; apelou para a harmonia entre razão objetiva e subjetiva, mas uma harmonia que pressupõe que suas esferas sejam fundadas na razão, criatura de Deus" - foi o que disse o Papa Emérito Bento XVI num famoso discurso, em 22 de setembro de 2011, no Parlamento de Berlim.
Doutrina igual ele já havia exposto em outra semelhante oportunidade no dia 17 de setembro de 2010, no Westminster Hall, em Londres: "A tradição católica afirma que as normas objetivas que governam o reto agir são acessíveis à razão, prescindindo do conteúdo da Revelação. Em vista disso, o papel da religião no debate político não consiste tanto em oferecer tais normas, como se elas não pudessem ser conhecidas pelos não-crentes. Muito menos propor soluções políticas concretas - o que está totalmente fora da competência da religião".
As duas referências acima foram citadas pelo Arcebispo alemão Georg Ganswein. É ele quem acrescenta às observações do Papa teólogo que, numa democracia digna deste nome, é inaceitável dar espaço ao discurso religioso como tal, porque estaria baseado numa autoridade, que frustraria qualquer tentativa de diálogo com os outros. E mais: "Ao intervir no diálogo democrático com base nos dogmas, as religiões violariam a regra de ouro das democracias - o diálogo entre as diversas posições - e agiriam como obstáculos, alterando a dinâmica democrática".
"O cristianismo que Bento propõe não permite, disse Ganswein numa Universidade romana, em junho de 2014, que os fiéis na ação política se privem do uso da razão, escondendo-se por detrás de um princípio de autoridade divina ou entrincheirando-se atrás de regras religiosas. As funções últimas do direito devem ser procuradas na razão e na natureza". Bento XVI afirma, conclui Ganswein, que a fonte das normas jurídicas não é a Revelação mas a razão e a natureza das suas interrelações.
Na Idade Média, sobretudo no Sacro Império Romano-Germânico, houve a confusão entre fé e política, entre governo e religião. Foi consagrado na Alemanha o princípio "cuius régio, huius et religio" - a região segue a religião do Rei.
No regime imperial brasileiro, tivemos o catolicismo como religião oficial do Estado e a lei do padroado, pela qual o Imperador indicava e mantinha bispos e párocos. Consequência foi a falta de autêntica evangelização de nosso povo e nossos bispos mártires Dom Vital e Dom Macedo Costa.
Concluindo, quero deixar claro que o católico na política vive com destemor os princípios católicos de sua consciência, sobretudo os relativos à vida, à família, e à santidade do matrimônio, mas não usa a Igreja nem sua fé católica no debate democrático.
* Dom Edvaldo Gonçalves Amaral, SDB é Arcebispo Emérito de Maceió
(foi Bispo Auxiliar de Aracaju - 1975 a 1980)
dedvaldo@salesianorecife.com.br

* Dom Edvaldo Gonçalves Amaral, SDB


Nosso país atravessa uma fase de turbulência política e social como nunca. O Legislativo afronta o Executivo, o desemprego estende-se assustadoramente e o monstro da inflação ameaça a classe trabalhadora, minando seus parcos salários. Que devem fazer os católicos nessa situação?
"Na história, os ordenamentos jurídicos foram quase sempre motivados religiosamente. Com base em uma referência à Divindade, decidia-se aquilo que era justo entre os homens. Ao contrário das outras grandes religiões, o cristianismo nunca impôs ao Estado e à sociedade um direito revelado, nunca impôs um ordenamento jurídico, derivado da Revelação divina. Apelou para a natureza e a razão como verdadeiras fontes do direito; apelou para a harmonia entre razão objetiva e subjetiva, mas uma harmonia que pressupõe que suas esferas sejam fundadas na razão, criatura de Deus" - foi o que disse o Papa Emérito Bento XVI num famoso discurso, em 22 de setembro de 2011, no Parlamento de Berlim.
Doutrina igual ele já havia exposto em outra semelhante oportunidade no dia 17 de setembro de 2010, no Westminster Hall, em Londres: "A tradição católica afirma que as normas objetivas que governam o reto agir são acessíveis à razão, prescindindo do conteúdo da Revelação. Em vista disso, o papel da religião no debate político não consiste tanto em oferecer tais normas, como se elas não pudessem ser conhecidas pelos não-crentes. Muito menos propor soluções políticas concretas - o que está totalmente fora da competência da religião".
As duas referências acima foram citadas pelo Arcebispo alemão Georg Ganswein. É ele quem acrescenta às observações do Papa teólogo que, numa democracia digna deste nome, é inaceitável dar espaço ao discurso religioso como tal, porque estaria baseado numa autoridade, que frustraria qualquer tentativa de diálogo com os outros. E mais: "Ao intervir no diálogo democrático com base nos dogmas, as religiões violariam a regra de ouro das democracias - o diálogo entre as diversas posições - e agiriam como obstáculos, alterando a dinâmica democrática".
"O cristianismo que Bento propõe não permite, disse Ganswein numa Universidade romana, em junho de 2014, que os fiéis na ação política se privem do uso da razão, escondendo-se por detrás de um princípio de autoridade divina ou entrincheirando-se atrás de regras religiosas. As funções últimas do direito devem ser procuradas na razão e na natureza". Bento XVI afirma, conclui Ganswein, que a fonte das normas jurídicas não é a Revelação mas a razão e a natureza das suas interrelações.
Na Idade Média, sobretudo no Sacro Império Romano-Germânico, houve a confusão entre fé e política, entre governo e religião. Foi consagrado na Alemanha o princípio "cuius régio, huius et religio" - a região segue a religião do Rei.
No regime imperial brasileiro, tivemos o catolicismo como religião oficial do Estado e a lei do padroado, pela qual o Imperador indicava e mantinha bispos e párocos. Consequência foi a falta de autêntica evangelização de nosso povo e nossos bispos mártires Dom Vital e Dom Macedo Costa.
Concluindo, quero deixar claro que o católico na política vive com destemor os princípios católicos de sua consciência, sobretudo os relativos à vida, à família, e à santidade do matrimônio, mas não usa a Igreja nem sua fé católica no debate democrático.
* Dom Edvaldo Gonçalves Amaral, SDB é Arcebispo Emérito de Maceió(foi Bispo Auxiliar de Aracaju - 1975 a 1980)dedvaldo@salesianorecife.com.br