Cidade malvadona

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Distante da rua em carne e osso
Distante da rua em carne e osso

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Publicada em 15/05/2018 às 04:56:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
A cidade malvadona, 
um motivo comum 
na Música Popular Brasileira, emerge de novo em faixa do EP 'Ewé', de Paulinho Só. 'Calamidade' não economiza nas tintas, pinta um diabo com chifres e tridente. A força inegável da música, um samba de compasso arrastado, no entanto, carece de alguma concretude. Sem pouso certo, nem endereço conhecido, o mal nosso de cada dia ganha aqui a máscara de bicho papão.
O compositor não mente, em nenhum momento. A geografia social brasileira é mesmo um território acidentado, repleto de altos e baixos. Há poucos dias, por exemplo, cidadãos sem teto enfrentaram os tiros da polícia sergipana de peito aberto, com a cara e a coragem, na esperança de conquistar um palmo de chão para chamar de seu. Mas a rotina urbana de 'Calamidade', pontuada por estilhaços de vidraça, sinais fechados e sangue nas calçadas, é uma realidade estritamente plástica, sem os contornos arriscados da rua em carne e osso.
Neste particular, há pelo menos duas canções exemplares dignas de menção, ambas assinadas por Chico Buarque de Holanda. 'Construção', um feito monumental, com arranjo do maestro Rogério Duprat, coloca um operário e o capital, dois pontos de vista antagônicos por natureza, frente a frente, em relação de ambígua oposição. 'As caravanas', mais recente, ecoa a tensão econômica e racial percebida nas praias cariocas - inclusive na forma musical, ao evocar um funk. E, embora jamais se atenha ao episódico, a crônica bem brasileira do compositor jamais recebeu o adjetivo de fantasiosa.
Os artistas possuem a propensão de manter os olhos muito abertos, atentos ao avesso e o aparente, um atributo do ofício. Se Paulinho Só percebeu o crescimento desordenado de Aracaju, com todos os problemas das grandes cidades, e resolveu manifestar o espanto aqui presumido em forma de canção, não teve ainda a manha de fugir ao lugar comum. Da forma como foi cantada, irreal, a sua potência esvai em significado vazio.
O artista - Paulinho Só é cantor e compositor gaúcho radicado nas terras de Serigy. Atuando desde a década de 90, acompanhou diversos nomes da música sergipana, além de integrar as bandas Rock da Silva e Uma Ruma. Produzido a quatro mãos, em parceria com Léo Airplane, o recém lançado 'Ewé', o seu primeiro trabalho solo, está a disposição dos curiosos em todas as plataformas de música digital.

A cidade malvadona,  um motivo comum  na Música Popular Brasileira, emerge de novo em faixa do EP 'Ewé', de Paulinho Só. 'Calamidade' não economiza nas tintas, pinta um diabo com chifres e tridente. A força inegável da música, um samba de compasso arrastado, no entanto, carece de alguma concretude. Sem pouso certo, nem endereço conhecido, o mal nosso de cada dia ganha aqui a máscara de bicho papão.
O compositor não mente, em nenhum momento. A geografia social brasileira é mesmo um território acidentado, repleto de altos e baixos. Há poucos dias, por exemplo, cidadãos sem teto enfrentaram os tiros da polícia sergipana de peito aberto, com a cara e a coragem, na esperança de conquistar um palmo de chão para chamar de seu. Mas a rotina urbana de 'Calamidade', pontuada por estilhaços de vidraça, sinais fechados e sangue nas calçadas, é uma realidade estritamente plástica, sem os contornos arriscados da rua em carne e osso.
Neste particular, há pelo menos duas canções exemplares dignas de menção, ambas assinadas por Chico Buarque de Holanda. 'Construção', um feito monumental, com arranjo do maestro Rogério Duprat, coloca um operário e o capital, dois pontos de vista antagônicos por natureza, frente a frente, em relação de ambígua oposição. 'As caravanas', mais recente, ecoa a tensão econômica e racial percebida nas praias cariocas - inclusive na forma musical, ao evocar um funk. E, embora jamais se atenha ao episódico, a crônica bem brasileira do compositor jamais recebeu o adjetivo de fantasiosa.
Os artistas possuem a propensão de manter os olhos muito abertos, atentos ao avesso e o aparente, um atributo do ofício. Se Paulinho Só percebeu o crescimento desordenado de Aracaju, com todos os problemas das grandes cidades, e resolveu manifestar o espanto aqui presumido em forma de canção, não teve ainda a manha de fugir ao lugar comum. Da forma como foi cantada, irreal, a sua potência esvai em significado vazio.
O artista - Paulinho Só é cantor e compositor gaúcho radicado nas terras de Serigy. Atuando desde a década de 90, acompanhou diversos nomes da música sergipana, além de integrar as bandas Rock da Silva e Uma Ruma. Produzido a quatro mãos, em parceria com Léo Airplane, o recém lançado 'Ewé', o seu primeiro trabalho solo, está a disposição dos curiosos em todas as plataformas de música digital.