Nem só de cão viverá o homem

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Publicada em 16/05/2018 às 05:39:00

 

* Lelê Teles
Jesus, como se sabe, não teve um cão. é 
dele a frase aí de cima, colhida em Mateus. 
Porém, dizem antigos cronistas, sob pressão da indústria dos pet shops, Constantino - no Concílio de 325 em Niceia - mandou trocar o vocábulo.
E o cão virou pão.  
Veja que curioso.
A indústria dos pet shops cresceu a partir de então e, só no Brasil, faturou mais de 18 bilhões de reais no ano passado. 
Em São Paulo há mais de 4 mil lojas para os bichinhos, o mesmo número de padarias.
Nem só de cão, nem só de pão...
Estima-se que o Brasil tenha hoje cerca de 50 milhões de cachorros, de quatro patas; fora os outros.
Nunca se ouviu tanto latido.
Os cães estão à solta, a ladrar nas redes sociais, deixando rastros de fezes nas caixas de comentários dos portais, mordendo a canela de adversários políticos... 
É claro que me refiro, diligente internauta, ao cão bípede; o que trocou a razão pela ração.
Quando Jucá proferiu a frase canina "com supremo com tudo", os fiéis ladradores da midiozona botaram a língua pra fora, rolaram na grama e se fingiram de mortos; cachorramente. 
O cão, todos o sabemos, será sempre fiel àquele que o alimenta, mesmo que este, vez ou outra, lhe dê algumas pancadas. 
Outro dia acharam um bunker - que tinha Geddel como cão de guarda - onde eram guardadas as rações que alimenta a cachorrada da grande mídia.  
Não sei se o amigo tomou conhecimento mas, segundo o IBGE, a República do Paraná é o estado brasileiro onde há o maior número de cachorros.
Diga lá.
Em Curitiba há 50 mil cães vivendo nas ruas. a prefeitura adquiriu um castra-móvel e está a percorrer a periferia capando os bichos pobres para que eles não se reproduzam.
Enquanto os cachorros que recebem auxílio-moradia dormem o sono dos justos, os cães sem-teto correm o risco do extermínio.
Esse país é uma fábula.
Sob marquises, depois de um dia mendigando comida e levando safanões, exaustos, os cães de rua dormem com um olho aberto e outro fechado pois, na calada da noite, alguém pode surgir para lhes dá pauladas, atear fogo em seus corpos ou aplicar-lhes uma injeção letal.
No município de Igaracy, sertão paraibano, o secretário de saúde mandou matar os cães de rua; exatamente como a Rússia está a fazer às vésperas da copa do mundo.
O diabo é que nem haverá copa no sertão paraibano.
Todo mundo gosta de cachorro, desde que ele seja de uma raça europeia e tenha pedigree, coleira e um dono.
Sem focinheira, viraláticos, criados livres como o lobo da fábula do poeta Trilussa, os cães enfeiam as cidades.
Enquanto isso, outros espécimes mais afortunados andam por aí no colo das madames, fazendo selfies e festinhas de aniversário.
Tem casamento de cachorros, senhoras e senhores.
Outro dia soubemos que a primeira dama tem um cãozinho, Picoly. 
Soubemos que o sacaninha, peralta, pulou na lagoa do palácio e, como se não fosse um cão, afogava-se. 
Dona Marcela, então, desceu do salto e saltou na água, resgatando o seu animal de regaço. 
A cena, espetacularmente ridícula, veio a público talvez para humanizar aquela criatura que mora com um morto-vivo; mas a emenda saiu pior que o soneto. 
Assim que emergiu das águas, a primeira-dama mostrou o seu amor pelos animais e o seu desprezo pelos seres humanos.
Deu as contas para a funcionária que achava que cachorro sabia nadar. 
Lembremos que o primeiro ato oficial do seu marido como presidente-usurpador foi demitir um negro que lhe serviria cafezinho.
Atitude cã.
Por falar em Temer, quem não se lembra que os marqueteiros que atiraram Marcela na lagoa são os mesmos que exibiram Temer com seu cão de estimação, o poderoso Thor.
Na gravura que saiu nos jornais, o presidente-usurpador está mal acomodado num trono de couro preto, exibindo não um sorriso, mas um esgar, um horrendo espasmo facial. Ao seu lado, como que a contra-gosto, o cérbero retriever todo arrepiado ao receber um bisonho cafuné do dono.
Mas nada é mais bisonha que a notícia que saiu na coluna de Andreza Matais, no Estadão, ela "informou" que Picoly é irmão do cachorro do encanecido Moreira Franco. 
Ela escreveu assim mesmo, o cachorro do Moreira Franco; estaria ela a xingar o ministro?
Questões enigmáticas.
E tem mais, a mãe destes dois cães é Tieta, a cadela do homo piauiensis Heráclito Fortes, o Boca Mole. 
Muita gente ficou chocada ao saber que o cão do Gatinho Angorá, quase humano, foi para terapia. 
Nos anos noventa, Antônio Rogério Magri, ex-sindicalista e então ministro de Collor, levou sua cadela para parir e cunhou ali uma frase famosa: "o cachorro também é um ser humano". 
Os repórteres fizeram graça com o ineditismo do aforismo magriano.
Mas ele nem foi original.
Quicas Borba foi o primeiro brasileiro a dar esse status quase humano a um cão. Quincas Borba era homônimo do seu dono e parece que também filosofava, o cão tinha tanto prestígio que saiu de um livro e entrou em outro; o segundo, inclusive, leva o seu nome na capa.
lá ficamos sabendo que o Quicnas humano deixou uma rica herança para o Quincas canino, que teve em Rubião o seu humano de estimação.
Os russos chegaram a enviar uma cadela para o espaço!
Há quem defenda que o cachorro domesticou o homem. 
É que, há milhares de anos, os cães perceberam do que o homem era capaz e preferiram se juntar a ele; baixaram a cabeça, encolheram os rabos e deixaram-se encoleirar. Ao passo que os lobos seguiram vivendo em liberdade. 
Percebendo que o homem é um ser que adora ser bajulado, o cão viu ali sua tábua de salvação.
Resultado, hoje há quase 200 milhões de cachorros no mundo e os lobos só existem nas ilustrações.  
Foi assim que o cachorro ganhou status de melhor amigo do homem.
Condição que o poeta Vinícius de Moraes discordava. Para o boêmio, era o Whisky o melhor amigo do homem, dando a este o epíteto de cachorro engarrafado.
O poder, é isso que quero dizer, sempre teve cercado de cachorros, bípedes ou quadrúpedes. 
Nos Estados Unidos todos os presidentes moram com seus cães, que frequentam, estes, o salão oval. 
O último foi Bo, o cão de Barack Obama, conhecido como primeiro-cão.
Trump, cuja imagem pareceu na orelha de um beagle, parece que vai romper com essa tradição, já mandou dizer que a partir de agora na Casa Branca só entra cachorro bípede.
Quando morava no Palácio da Alvorada, Dilma também tinha um cão, um labrador chamado Nego. 
Contam os cronistas meus contemporâneos que Nego tinha uma doença crônica, incurável, sofria fortes dores, já não andava. 
O veterinário achou melhor sacrificá-lo. Dilma deu-se por convencida e Nego partiu para o céu dos cães.
E não é que o nosso diligente Janot, o perdigueiro Procurador Geral da República, mandou os meganhas ao palácio para farejar a morte do animal?
Daqui a pouco teremos a delegacia dos cães, só para tratar de crimes contra essas pobres criaturas quase humanas.
Aliás, é a única coisa que falta, igreja e delegacia para cães, o resto já esta arranjado.
Tem escolinha, academia, ofurô para cachorro, coleira de brilhante, manicure, terapia holística, casaquinhos, sapatênis e o diabo.
E já tem ser humano se alimentando de ração de animal.
Aliás, já tem cachorro comendo seres humanos. No xvideos você pode encontrar centenas de videos de cães transando com suas donas.
Ps motoboys se autodenominam cachorros-loucos. Algumas popozudas do funk, outrora, chamavam-se a si mesmas de cachorras. Luma de Oliveira desfilou na sapucaí com uma coleira grafada Eike. 
Já vi vizinhos falando com os cães em inglês, seja lá porque diabos fazem isso, parem.
Os cães não entendem as línguas humanas, compreendem o que o linguista Roman Jacbson chamou de funções da linguagem: conativa, emotiva, fática, referencial...
E digo mais, nem a gente entende a língua dos cães, a onomatopeia é um filtro que a nossa língua faz da língua canina.
Veja você que em francês a onomatpeé du chien é oua oua; para um espanhol o cão diz gual gual. O alemão escuta o cão latir wau wau; para o anglófono o cão diz ora woof, ora ruff ruff; o cachorro faz wang wang em chinês e em coreano, mas no Japão escuta-se wan wan...
Último, mas não menos importante: toda vez que você for à China, evite pedir um cachorro-quente, lá eles levam esse negócio a sério.
Palavras sapienciais.
* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista

* Lelê Teles


Jesus, como se sabe, não teve um cão. é  dele a frase aí de cima, colhida em Mateus. Porém, dizem antigos cronistas, sob pressão da indústria dos pet shops, Constantino - no Concílio de 325 em Niceia - mandou trocar o vocábulo.
E o cão virou pão.  
Veja que curioso.
A indústria dos pet shops cresceu a partir de então e, só no Brasil, faturou mais de 18 bilhões de reais no ano passado. 
Em São Paulo há mais de 4 mil lojas para os bichinhos, o mesmo número de padarias.
Nem só de cão, nem só de pão...
Estima-se que o Brasil tenha hoje cerca de 50 milhões de cachorros, de quatro patas; fora os outros.
Nunca se ouviu tanto latido.
Os cães estão à solta, a ladrar nas redes sociais, deixando rastros de fezes nas caixas de comentários dos portais, mordendo a canela de adversários políticos... 
É claro que me refiro, diligente internauta, ao cão bípede; o que trocou a razão pela ração.
Quando Jucá proferiu a frase canina "com supremo com tudo", os fiéis ladradores da midiozona botaram a língua pra fora, rolaram na grama e se fingiram de mortos; cachorramente. 
O cão, todos o sabemos, será sempre fiel àquele que o alimenta, mesmo que este, vez ou outra, lhe dê algumas pancadas. 
Outro dia acharam um bunker - que tinha Geddel como cão de guarda - onde eram guardadas as rações que alimenta a cachorrada da grande mídia.  
Não sei se o amigo tomou conhecimento mas, segundo o IBGE, a República do Paraná é o estado brasileiro onde há o maior número de cachorros.
Diga lá.
Em Curitiba há 50 mil cães vivendo nas ruas. a prefeitura adquiriu um castra-móvel e está a percorrer a periferia capando os bichos pobres para que eles não se reproduzam.
Enquanto os cachorros que recebem auxílio-moradia dormem o sono dos justos, os cães sem-teto correm o risco do extermínio.
Esse país é uma fábula.
Sob marquises, depois de um dia mendigando comida e levando safanões, exaustos, os cães de rua dormem com um olho aberto e outro fechado pois, na calada da noite, alguém pode surgir para lhes dá pauladas, atear fogo em seus corpos ou aplicar-lhes uma injeção letal.
No município de Igaracy, sertão paraibano, o secretário de saúde mandou matar os cães de rua; exatamente como a Rússia está a fazer às vésperas da copa do mundo.
O diabo é que nem haverá copa no sertão paraibano.
Todo mundo gosta de cachorro, desde que ele seja de uma raça europeia e tenha pedigree, coleira e um dono.
Sem focinheira, viraláticos, criados livres como o lobo da fábula do poeta Trilussa, os cães enfeiam as cidades.
Enquanto isso, outros espécimes mais afortunados andam por aí no colo das madames, fazendo selfies e festinhas de aniversário.
Tem casamento de cachorros, senhoras e senhores.
Outro dia soubemos que a primeira dama tem um cãozinho, Picoly. 
Soubemos que o sacaninha, peralta, pulou na lagoa do palácio e, como se não fosse um cão, afogava-se. 
Dona Marcela, então, desceu do salto e saltou na água, resgatando o seu animal de regaço. 
A cena, espetacularmente ridícula, veio a público talvez para humanizar aquela criatura que mora com um morto-vivo; mas a emenda saiu pior que o soneto. 
Assim que emergiu das águas, a primeira-dama mostrou o seu amor pelos animais e o seu desprezo pelos seres humanos.
Deu as contas para a funcionária que achava que cachorro sabia nadar. 
Lembremos que o primeiro ato oficial do seu marido como presidente-usurpador foi demitir um negro que lhe serviria cafezinho.
Atitude cã.
Por falar em Temer, quem não se lembra que os marqueteiros que atiraram Marcela na lagoa são os mesmos que exibiram Temer com seu cão de estimação, o poderoso Thor.
Na gravura que saiu nos jornais, o presidente-usurpador está mal acomodado num trono de couro preto, exibindo não um sorriso, mas um esgar, um horrendo espasmo facial. Ao seu lado, como que a contra-gosto, o cérbero retriever todo arrepiado ao receber um bisonho cafuné do dono.
Mas nada é mais bisonha que a notícia que saiu na coluna de Andreza Matais, no Estadão, ela "informou" que Picoly é irmão do cachorro do encanecido Moreira Franco. 
Ela escreveu assim mesmo, o cachorro do Moreira Franco; estaria ela a xingar o ministro?
Questões enigmáticas.
E tem mais, a mãe destes dois cães é Tieta, a cadela do homo piauiensis Heráclito Fortes, o Boca Mole. 
Muita gente ficou chocada ao saber que o cão do Gatinho Angorá, quase humano, foi para terapia. 
Nos anos noventa, Antônio Rogério Magri, ex-sindicalista e então ministro de Collor, levou sua cadela para parir e cunhou ali uma frase famosa: "o cachorro também é um ser humano". 
Os repórteres fizeram graça com o ineditismo do aforismo magriano.
Mas ele nem foi original.
Quicas Borba foi o primeiro brasileiro a dar esse status quase humano a um cão. Quincas Borba era homônimo do seu dono e parece que também filosofava, o cão tinha tanto prestígio que saiu de um livro e entrou em outro; o segundo, inclusive, leva o seu nome na capa.
lá ficamos sabendo que o Quicnas humano deixou uma rica herança para o Quincas canino, que teve em Rubião o seu humano de estimação.
Os russos chegaram a enviar uma cadela para o espaço!
Há quem defenda que o cachorro domesticou o homem. 
É que, há milhares de anos, os cães perceberam do que o homem era capaz e preferiram se juntar a ele; baixaram a cabeça, encolheram os rabos e deixaram-se encoleirar. Ao passo que os lobos seguiram vivendo em liberdade. 
Percebendo que o homem é um ser que adora ser bajulado, o cão viu ali sua tábua de salvação.
Resultado, hoje há quase 200 milhões de cachorros no mundo e os lobos só existem nas ilustrações.  
Foi assim que o cachorro ganhou status de melhor amigo do homem.
Condição que o poeta Vinícius de Moraes discordava. Para o boêmio, era o Whisky o melhor amigo do homem, dando a este o epíteto de cachorro engarrafado.
O poder, é isso que quero dizer, sempre teve cercado de cachorros, bípedes ou quadrúpedes. 
Nos Estados Unidos todos os presidentes moram com seus cães, que frequentam, estes, o salão oval. 
O último foi Bo, o cão de Barack Obama, conhecido como primeiro-cão.
Trump, cuja imagem pareceu na orelha de um beagle, parece que vai romper com essa tradição, já mandou dizer que a partir de agora na Casa Branca só entra cachorro bípede.
Quando morava no Palácio da Alvorada, Dilma também tinha um cão, um labrador chamado Nego. 
Contam os cronistas meus contemporâneos que Nego tinha uma doença crônica, incurável, sofria fortes dores, já não andava. 
O veterinário achou melhor sacrificá-lo. Dilma deu-se por convencida e Nego partiu para o céu dos cães.
E não é que o nosso diligente Janot, o perdigueiro Procurador Geral da República, mandou os meganhas ao palácio para farejar a morte do animal?
Daqui a pouco teremos a delegacia dos cães, só para tratar de crimes contra essas pobres criaturas quase humanas.
Aliás, é a única coisa que falta, igreja e delegacia para cães, o resto já esta arranjado.
Tem escolinha, academia, ofurô para cachorro, coleira de brilhante, manicure, terapia holística, casaquinhos, sapatênis e o diabo.
E já tem ser humano se alimentando de ração de animal.
Aliás, já tem cachorro comendo seres humanos. No xvideos você pode encontrar centenas de videos de cães transando com suas donas.
Ps motoboys se autodenominam cachorros-loucos. Algumas popozudas do funk, outrora, chamavam-se a si mesmas de cachorras. Luma de Oliveira desfilou na sapucaí com uma coleira grafada Eike. 
Já vi vizinhos falando com os cães em inglês, seja lá porque diabos fazem isso, parem.
Os cães não entendem as línguas humanas, compreendem o que o linguista Roman Jacbson chamou de funções da linguagem: conativa, emotiva, fática, referencial...
E digo mais, nem a gente entende a língua dos cães, a onomatopeia é um filtro que a nossa língua faz da língua canina.
Veja você que em francês a onomatpeé du chien é oua oua; para um espanhol o cão diz gual gual. O alemão escuta o cão latir wau wau; para o anglófono o cão diz ora woof, ora ruff ruff; o cachorro faz wang wang em chinês e em coreano, mas no Japão escuta-se wan wan...
Último, mas não menos importante: toda vez que você for à China, evite pedir um cachorro-quente, lá eles levam esse negócio a sério.
Palavras sapienciais.
* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista