Grandes promessas, "pequenos" trabalhos

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 18/05/2018 às 06:26:00

 

* Antonio Passos
Numa manhã de sábado, no amplo estacionamento de um centro comercial, um carro de propaganda anuncia em alto e bom som: "Compre agora mesmo a sua cartela, hoje pode ser o seu dia de sorte. São vários prêmios para você. Ganhando o primeiro prêmio você vai até poder tirar férias e viajar".
Dizem os saudosistas dos governos de inspiração popular que o desemprego nunca esteve tão alto no Brasil como hoje em dia e que há uma precarização nas relações de trabalho que tende a sacrificar o trabalhador. Contudo, vê-se que algumas atividades que haviam arrefecido estão voltando.
As loterias e outros negócios que distribuem prêmios para poucos sorteados, por exemplo, estão visivelmente em alta. As filas nas casas lotéricas estão imensas. Mocinhas oferecendo cartelas para sorteios, em diversos lugares, inclusive à noite, pelos bares, voltaram com força total a compor a paisagem urbana.
E quem não quer - como anuncia o carro de som - tirar férias e viajar? Para isso, entretanto, são necessários, ao menos, dois requisitos: ter direito a férias e ter dinheiro para pagar a viagem. De uma só vez, o jogo de sorte ou de azar, promete resolver tudo. Basta apenas ganhar o primeiro prêmio. Só isso.
Outro setor no qual se nota uma explícita multiplicação de trabalhadores são os sinais de trânsito. Houve um tempo no qual, praticamente, só víamos malabaristas nas sinaleiras. Agora, não. Em qualquer parada diante de um sinal vermelho temos à disposição um abundante comércio ambulante.
Conheço um jovem que se entusiasmou e incorporou os discursos neoliberais que levaram ao impeachment da presidenta Dilma. Ele passou a falar muito em empreendedorismo e a defender a necessidade de libertar o Brasil de velhas amarras da legislação trabalhistas que impediam o desenvolvimento do país.
Hoje, do ponto de vista social e econômico, as coisas não andam muito boas para o lado daquele jovem amigo. Como uma pessoa de muita fibra que ele é não dá o braço a torcer e continua sonhando com as grandes oportunidades que se abrirão para as pessoas realmente determinadas para o trabalho, diz.
Pois bem, capacidade de adaptação é uma virtude bastante ressaltada no discurso empresarial. São novos tempos, é necessário adaptar-se. E nesse novo cenário ao menos duas atividades estão em alta e oferecem trabalho: a venda ambulante de produtos nos sinais de trânsito e a venda de bilhetes de loterias.
Talvez meu jovem amigo considere que esses são pequenos trabalhos, sobretudo se comparados com as grandes promessas que encheram os ouvidos dele. Lamento ver que tantos jovens se deixaram levar e muitos ainda persistem hipnotizados pela propaganda escravista que a TV veicula como se fora jornalismo.
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos


Numa manhã de sábado, no amplo estacionamento de um centro comercial, um carro de propaganda anuncia em alto e bom som: "Compre agora mesmo a sua cartela, hoje pode ser o seu dia de sorte. São vários prêmios para você. Ganhando o primeiro prêmio você vai até poder tirar férias e viajar".
Dizem os saudosistas dos governos de inspiração popular que o desemprego nunca esteve tão alto no Brasil como hoje em dia e que há uma precarização nas relações de trabalho que tende a sacrificar o trabalhador. Contudo, vê-se que algumas atividades que haviam arrefecido estão voltando.
As loterias e outros negócios que distribuem prêmios para poucos sorteados, por exemplo, estão visivelmente em alta. As filas nas casas lotéricas estão imensas. Mocinhas oferecendo cartelas para sorteios, em diversos lugares, inclusive à noite, pelos bares, voltaram com força total a compor a paisagem urbana.
E quem não quer - como anuncia o carro de som - tirar férias e viajar? Para isso, entretanto, são necessários, ao menos, dois requisitos: ter direito a férias e ter dinheiro para pagar a viagem. De uma só vez, o jogo de sorte ou de azar, promete resolver tudo. Basta apenas ganhar o primeiro prêmio. Só isso.
Outro setor no qual se nota uma explícita multiplicação de trabalhadores são os sinais de trânsito. Houve um tempo no qual, praticamente, só víamos malabaristas nas sinaleiras. Agora, não. Em qualquer parada diante de um sinal vermelho temos à disposição um abundante comércio ambulante.
Conheço um jovem que se entusiasmou e incorporou os discursos neoliberais que levaram ao impeachment da presidenta Dilma. Ele passou a falar muito em empreendedorismo e a defender a necessidade de libertar o Brasil de velhas amarras da legislação trabalhistas que impediam o desenvolvimento do país.
Hoje, do ponto de vista social e econômico, as coisas não andam muito boas para o lado daquele jovem amigo. Como uma pessoa de muita fibra que ele é não dá o braço a torcer e continua sonhando com as grandes oportunidades que se abrirão para as pessoas realmente determinadas para o trabalho, diz.
Pois bem, capacidade de adaptação é uma virtude bastante ressaltada no discurso empresarial. São novos tempos, é necessário adaptar-se. E nesse novo cenário ao menos duas atividades estão em alta e oferecem trabalho: a venda ambulante de produtos nos sinais de trânsito e a venda de bilhetes de loterias.
Talvez meu jovem amigo considere que esses são pequenos trabalhos, sobretudo se comparados com as grandes promessas que encheram os ouvidos dele. Lamento ver que tantos jovens se deixaram levar e muitos ainda persistem hipnotizados pela propaganda escravista que a TV veicula como se fora jornalismo.
* Antonio Passos é jornalista