Senhor governador, o que é cultura, o que é história?

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Publicada em 20/05/2018 às 14:00:00

 

*Rangel Alves da Costa
O indeferimento pelo governo de Sergipe, no último dia 16, de uma solicitação feita através de ofício, e este encaminhado pela Associação Cultural Memorial Alcino Alves Costa, objetivando apoio/colaboração/patrocínio para o evento Cariri Cangaço Poço Redondo 2018, já demonstra bem como o poder trata a cultura e a história. Lamentável que assim tenha acontecido, mas aconteceu.
Contudo, mais lamentável ainda a justifica de falta de recursos e contenção de despesas, quando se conhece muito bem a verdade do outro lado, principalmente em ano eleitoral e quando o pleito se avizinha. Noutro dia mesmo, na mesma cidade de Poço Redondo, o governador e farta comitiva se banqueteavam em cavalgada e guloseimas eleitoreiras. Ou será que a comitiva governamental tira do próprio bolso essa gastança toda?
Não há dinheiro para cultura, não há dinheiro para evento histórico-cultural, não há dinheiro para nada que não seja para fins eleitoreiros, esta a verdade e tem de ser dita. O ofício encaminhado e indeferido não foi solicitando colaboração para festa de sofrência, arrocha ou micareta. O que o governo negou foi a colaboração a um evento de amplitude regional, pois atraindo a Poço Redondo pesquisadores, escritores, turistas e uma gama de pessoas que sabem da riqueza cultural, geográfica e histórica do sertão sergipano.
Certamente que a cultura não dá voto, a história não dá voto, o que realmente interessa, engrandece e valoriza o sertão não dá voto. E quando o poder gostou do conhecimento, da sabedoria, da educação? E quando a política gostou daquilo que não seja o clientelismo, o favorecimento, a compra de votos, a manipulação de consciências em nome do poder? A negativa ao apoio, colaboração ou qualquer outro nome que se queira dar, não partiu da iniciativa privada ou grupo empresarial, mas de um governo estadual.
E por que esse mesmo governo estadual mantém secretarias de cultura e turismo se não investe nem apoia nem a cultura nem no turismo? Apenas como cabides de emprego? Quando um governo nega a sua riqueza interior, espalhada em cada canto e recanto do litoral e além, está desvalorizando o próprio estado que governa e suas potencialidades. Investir em cultura e turismo não é apenas criar secretarias, mas principalmente dar condições para que alcancem os seus objetivos.
Saiba, senhor governador, que Poço Redondo possui muito mais que cavalgada e falsas lideranças que chegam apertando sua mão. Saiba, senhor governador, que Poço Redondo é muito mais que um cavalo selado e colocado à sua disposição para o tropel demagógico, é muito mais que a cervejama que desce e os segredos trocados ao pé do ouvido. Poço Redondo, senhor governador, vai muito além do que vossa senhoria chega lá com intenção de fazer.
Poço Redondo possui potencialidades históricas, culturais e geográficas, que certamente o senhor não conhece e nem tem a mínima preocupação de conhecer. Ora, interessa a cavalgada, o microfone, o discurso politiqueiro e a promessa. Não interessa saber de sua história, de suas riquezas naturais, de sua pujante cultura. Talvez lhe falte um bajulador para dizer que toda vez que pisa naquela terra está pisando o chão sagrado de Alcino, está na Gruta do Angico, no Quilombo da Guia, na Serra da Guia, no Morro da Letra, na Cachoeira do Bom Jardim, na Fazenda Maranduba e a vindita entre cangaceiros e volantes, no Casarão de Bonsucesso, na terra de Zé de Julião, do Mestre Tonho, de Dona Zefa da Guia. Está pisando na Capital da Cultura do Cangaço e de onde saíram nada menos que 34 filhos para o mundo cangaço.
Quando o Cariri Cangaço escolheu Poço Redondo para sediar um de seus encontros anuais, o fez pela riqueza histórica e cultural existente no município. O que se denomina Cariri Cangaço não se volta apenas para o estudo, a pesquisa e a discussão de temas envolvendo o cangaço, mas de uma imensa gama de aspectos relacionados ao Nordeste brasileiro: messianismo, coronelismo, religiosidade, misticismo, cultura local e regional, etc. Trata-se de um seminário permanente, formado por estudiosos, pesquisadores e escritores, sempre buscando novos conhecimentos e novas vertentes históricas.
O Cariri Cangaço é um evento de cunho turístico-cultural e histórico-científico, configurando-se como o maior e mais respeitado evento do gênero no país. Reúne, a partir de uma programação plural, dinâmica e universal, personalidades locais, regionais e nacionais, do universo da pesquisa e do estudo das temáticas propostas. E se materializa através de palestras, debates, visitas técnicas, apresentação de documentários, exposições de arte, lançamentos e feiras literárias. E em Poço Redondo, com o tema "Celebrando o Chão Sagrado de Alcino", o que haverá é uma celebração, uma grande festa da cultura, da história e das riquezas desse recanto sertanejo agora negado pelo senhor governador.
Saiba, pois, senhor governador, que ao negar apoio ou qualquer tipo de colaboração ao evento, vossa senhoria incorreu no gravíssimo erro de tratar o conhecimento como coisa sem nenhuma importância. Sob uma justificativa pra boi dormir, a atitude tomada não foi só desrespeitosa como aviltante à cultura e à história sergipana, principalmente de Poço Redondo. Mas vossa senhoria está convidada a participar. Será entre os dias 14 e 17 de junho próximo. Cavalo pra montar e politicar não tem não, mas um povo que ama sua terra o senhor vai encontrar.
*Rangel Alves da Costa é advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa
O indeferimento pelo governo de Sergipe, no último dia 16, de uma solicitação feita através de ofício, e este encaminhado pela Associação Cultural Memorial Alcino Alves Costa, objetivando apoio/colaboração/patrocínio para o evento Cariri Cangaço Poço Redondo 2018, já demonstra bem como o poder trata a cultura e a história. Lamentável que assim tenha acontecido, mas aconteceu.
Contudo, mais lamentável ainda a justifica de falta de recursos e contenção de despesas, quando se conhece muito bem a verdade do outro lado, principalmente em ano eleitoral e quando o pleito se avizinha. Noutro dia mesmo, na mesma cidade de Poço Redondo, o governador e farta comitiva se banqueteavam em cavalgada e guloseimas eleitoreiras. Ou será que a comitiva governamental tira do próprio bolso essa gastança toda?
Não há dinheiro para cultura, não há dinheiro para evento histórico-cultural, não há dinheiro para nada que não seja para fins eleitoreiros, esta a verdade e tem de ser dita. O ofício encaminhado e indeferido não foi solicitando colaboração para festa de sofrência, arrocha ou micareta. O que o governo negou foi a colaboração a um evento de amplitude regional, pois atraindo a Poço Redondo pesquisadores, escritores, turistas e uma gama de pessoas que sabem da riqueza cultural, geográfica e histórica do sertão sergipano.
Certamente que a cultura não dá voto, a história não dá voto, o que realmente interessa, engrandece e valoriza o sertão não dá voto. E quando o poder gostou do conhecimento, da sabedoria, da educação? E quando a política gostou daquilo que não seja o clientelismo, o favorecimento, a compra de votos, a manipulação de consciências em nome do poder? A negativa ao apoio, colaboração ou qualquer outro nome que se queira dar, não partiu da iniciativa privada ou grupo empresarial, mas de um governo estadual.
E por que esse mesmo governo estadual mantém secretarias de cultura e turismo se não investe nem apoia nem a cultura nem no turismo? Apenas como cabides de emprego? Quando um governo nega a sua riqueza interior, espalhada em cada canto e recanto do litoral e além, está desvalorizando o próprio estado que governa e suas potencialidades. Investir em cultura e turismo não é apenas criar secretarias, mas principalmente dar condições para que alcancem os seus objetivos.
Saiba, senhor governador, que Poço Redondo possui muito mais que cavalgada e falsas lideranças que chegam apertando sua mão. Saiba, senhor governador, que Poço Redondo é muito mais que um cavalo selado e colocado à sua disposição para o tropel demagógico, é muito mais que a cervejama que desce e os segredos trocados ao pé do ouvido. Poço Redondo, senhor governador, vai muito além do que vossa senhoria chega lá com intenção de fazer.
Poço Redondo possui potencialidades históricas, culturais e geográficas, que certamente o senhor não conhece e nem tem a mínima preocupação de conhecer. Ora, interessa a cavalgada, o microfone, o discurso politiqueiro e a promessa. Não interessa saber de sua história, de suas riquezas naturais, de sua pujante cultura. Talvez lhe falte um bajulador para dizer que toda vez que pisa naquela terra está pisando o chão sagrado de Alcino, está na Gruta do Angico, no Quilombo da Guia, na Serra da Guia, no Morro da Letra, na Cachoeira do Bom Jardim, na Fazenda Maranduba e a vindita entre cangaceiros e volantes, no Casarão de Bonsucesso, na terra de Zé de Julião, do Mestre Tonho, de Dona Zefa da Guia. Está pisando na Capital da Cultura do Cangaço e de onde saíram nada menos que 34 filhos para o mundo cangaço.
Quando o Cariri Cangaço escolheu Poço Redondo para sediar um de seus encontros anuais, o fez pela riqueza histórica e cultural existente no município. O que se denomina Cariri Cangaço não se volta apenas para o estudo, a pesquisa e a discussão de temas envolvendo o cangaço, mas de uma imensa gama de aspectos relacionados ao Nordeste brasileiro: messianismo, coronelismo, religiosidade, misticismo, cultura local e regional, etc. Trata-se de um seminário permanente, formado por estudiosos, pesquisadores e escritores, sempre buscando novos conhecimentos e novas vertentes históricas.
O Cariri Cangaço é um evento de cunho turístico-cultural e histórico-científico, configurando-se como o maior e mais respeitado evento do gênero no país. Reúne, a partir de uma programação plural, dinâmica e universal, personalidades locais, regionais e nacionais, do universo da pesquisa e do estudo das temáticas propostas. E se materializa através de palestras, debates, visitas técnicas, apresentação de documentários, exposições de arte, lançamentos e feiras literárias. E em Poço Redondo, com o tema "Celebrando o Chão Sagrado de Alcino", o que haverá é uma celebração, uma grande festa da cultura, da história e das riquezas desse recanto sertanejo agora negado pelo senhor governador.
Saiba, pois, senhor governador, que ao negar apoio ou qualquer tipo de colaboração ao evento, vossa senhoria incorreu no gravíssimo erro de tratar o conhecimento como coisa sem nenhuma importância. Sob uma justificativa pra boi dormir, a atitude tomada não foi só desrespeitosa como aviltante à cultura e à história sergipana, principalmente de Poço Redondo. Mas vossa senhoria está convidada a participar. Será entre os dias 14 e 17 de junho próximo. Cavalo pra montar e politicar não tem não, mas um povo que ama sua terra o senhor vai encontrar.


*Rangel Alves da Costa é advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com