Sergipe, futebol e política: A ligação umbilical

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 04/10/2012 às 15:35:00

* Alceu Monteiro

A Federação Sergipana de Desportos foi criada em 10 de novembro de 1926, com a denominação de Liga Sergipana de Esportes Atléticos, filiando-se, em 25 de fevereiro de 1927, à CBD - Confederação Brasileira de Desportos. Muitas décadas depois, teve seu nome mudado para Federação Sergipana de Futebol, nos anos 70 do século XX.

A entidade, filiada à Confederação Brasileira de Futebol, foi presidida, ao longo do tempo, por figuras ilustres de Sergipe. Exemplos marcantes: O intelectual Clodomir Silva, o desembargador Edson Ribeiro, o educador Alcebíades Vilas-Boas, o funcionário público federal Newton Porto, todos esses na época do futebol amador (FSD).

Durante muito tempo, o futebol sergipano foi dominado pela chamada "oligarquia", grupo liderado pelo general Djenal Tavares de Queiroz, que era integrado por desportistas que se revezaram na presidência da federação de futebol. Foram eles Manoel Cardoso Barreto, Américo Alves, Curt Vieira, respectivamente odontólogo e professor, empresário  e advogado. O general Djenal Tavares Queiroz, o líder máximo do grupo, foi deputado estadual e depois vice-governador do Estado. Américo Alves também chegou a ser deputado estadual. Curt Vieira foi assessor jurídico da antiga Energipe e secretário da Educação, que, inclusive, teve o mérito indiscutível de implantar os Jogos da Primavera, em 1963, no governo Celso de Carvalho, vice que virou governador com a cassação de Seixas Dória pelo regime militar.

O maior expoente em termos diretivos do futebol sergipano foi, sem dúvida, Robério Garcia, ativo militante do PCB, irmão do ex-governador de Sergipe, Luiz Garcia, e de Joé Garcia Neto, que governou o Mato Grosso, e tio de Gilton Garcia, que foi deputado estadual em Sergipe e governador do Estado do Amapá. Como se sabe, a família Garcia teve uma forte presença na vida política de Sergipe nas últimas décadas. Por sinal, ótimas notícias sobre o estado de saúde de Gilton Garcia: está curado da meningite, depois de um período internado em São Paulo.

Robério Garcia, que implantou o regime profissional no futebol sergipano, revolucionou o outrora chamado "esporte bretão". Sua administração à frente da ainda FSD foi o divisor de águas na história do futebol sergipano. Presidente da mentora (FSD), em 1964, foi preso e consequentemente afastado do cargo, sendo substituído pelo dentista e professor Manoel Cardoso Barreto, o Manuca.

Daí em diante, o campo foi literalmente ocupado por representantes da famosa oligarquia, cujo maior crítico era, sem dúvida, o comentarista esportivo Wellington Elias, ainda em ação na crônica esportiva de Sergipe.

Com a transformação da FSD em FSF, assumiu a presidência o jornalista e atual membro do Ministério Público José Carlos Oliveira. Em 1989, José Carivaldo de Souza derrota Alceuá Gonçalves, para muitos, o último representante da oligarquia (há controvérsias). Carivaldo, ex-jogador do time aspirante do Confiança e ex-presidente do Vasco que levou a agremiação cruzmaltina ao título estadual em 1987, assume a FSF e, nos seus dois primeiros mandatos realiza um ótimo trabalho, dentro das naturais limitações.

O tempo, que é implacável, acabou desgastando sua imagem. Enveredou pela política partidária. Foi eleito e reeleito prefeito de Macambira. Foi presidente da Fundação Estadual de Esportes, no governo Albano Franco. Extremamente atrelado ao governo do Estado, desde João Alves, passando por Albano Franco, novamente João Alves e chegando a Marcelo Déda. Visceralmente ligado à CBF e dela dependente, Carivaldo de Souza viu, recentemente, cair o seu "capo", Ricardo Teixeira. Mas ainda permanecerá no comando do futebol sergipano até 2015, portanto após a Copa do Mundo de 2014.

A Federação Sergipana de Futebol completará 86 anos em novembro próximo. Já Carivaldo comanda o futebol de Sergipe há 23 anos e tem mais 3 anos de mandato a cumprir. Em 2015, poderá, quem sabe, ser novamente reeleito, se as alterações na legislação das entidades desportivas não forem aprovadas pelo Congresso, até lá. Conclusão: o presidente mais longevo da história de nosso futebol terá, ao fim de seu atual mandato, dirigido a FSF por mais de um quarto de toda a sua existência. O que o leitor pensa sobre isso?

* Alceu Monteiro é bancário aposentado, radialista e membro da ASI

(REPUBLICADO POR INCORREÇÃO)