O estadista que o povo perdeu

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 30/05/2018 às 06:25:00

 

* Luciano Correia
Em 1985 eu fui indicado para exercer o cargo de secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju na gestão de José Carlos Teixeira, indicado pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), o "Partidão". Fiquei intrigado como um dos políticos mais importantes do estado, deputado federal de cinco mandatos, apostava sua política de comunicação a um moleque de 24 anos, recém formado na Bahia e ainda começando no jornalismo, só porque um partido aliado resolvera me indicar. Tomei posse, trabalhei muito, tanto quanto sua operosa e curta gestão de sete meses, que fez um trabalho marcante em nossa capital.
Ao final, Zé Carlos saiu candidato a governador pelo seu PMDB (nunca saiu dele!), contra o candidato da chamada Aliança Democrática, Antônio Carlos Valadares, do PFL. Fui contra meu então partido e, numa espécie de "traição", eu e os também militantes Antônio Samarone e Jorge Carvalho votamos em Zé Carlos, mesmo tendo se aliado, como diziam os defensores da tal Aliança, às grandes oligarquias sergipanas. Isso é discurso e narrativa, evidentemente, para justificar as opções da esquerda a um projeto liberal encabeçado pelo PFL, dissidência da velha e igualmente oligárquica Arena. Nunca me arrependi de minha posição e, mais que isso, o voto no candidato do PFL resultou depois num governo medíocre, autoritário e truculento.
Vivi só o começo da campanha, na verdade um ensaio de campanha, pois foi enquanto ele ainda era prefeito de Aracaju. Nada se compara com o volume da política atual e a complexidade incorporada às campanhas eleitorais, mas fiquei impactado com a quantidade de realizações em tão pouco tempo e a fantástica acolhida pela população da periferia. Como jornalista, tive o lampejo de querer contar aquela experiência, que começava com a gestão profícua de sete meses e terminava pela campanha desafiadora, onde o melhor dos candidatos, disparadamente, em todos os aspectos, fora demonizado pela máquina de propaganda que se incorporara ao projeto conservador da Aliança Democrática. José Carlos Teixeira era infinitamente melhor do que seu concorrente, em todos os quesitos, até mesmo se apelassemos para as os velhos maniqueísmos entre o bem e o mal. Até por esse prisma, Teixeira era o lado do bem.
Meu insight consistia em escrever um livro contando isso, indo contra a corrente dos que até hoje insistem em justificar sua adesão a um bloco ainda mais conservador. Cheguei até em pensar num título: "José Carlos Teixeira, o estadista que o povo perdeu". Mas minha preguiça jamais o permitiu. Carreguei comigo essa conta mal resolvida, uma grande reportagem que jogaria mais luzes no debate e uma iniciativa que repararia, pelo menos no papel, uma tremenda injustiça. Contei isso a JCT uma vez, mas ele, na sua grandiosidade, acolheu como um gesto de simpatia, sem maiores comentários. A mesma simpatia com que me brindava absolutamente todas as vezes em que nos encontrávamos: "Meu secretááárioooo", trovejava ele, naquele seu jeito de político tradicional, mas de espírito inquieto, moderno, um admirador da revolução francesa, apaixonado por música clássica, pai amoroso de cinco filhas e marido companheiro de sua querida Eugênia.
O trovão de sua voz, entretanto, nunca foi só um impulso vocal de seu estilo, mas a expressão de um homem valente, combativo e, sobretudo, de extraordinária coragem. Zé Carlos saiu do berço de uma das famílias mais tradicionais de Sergipe, uma das mais ricas do estado durante anos, que, não obstante o conforto de uma carreira parlamentar com seus pares em Brasília, optou pela então arriscada empreitada de fundar a oposição em Sergipe a partir do golpe de 64. Foi ele o fundador, como dizia Benedito Figueiredo, do querido e sofrido MDB, legenda que cumpriu missões extremamente desafiadoras e, mais ainda, abrigou dezenas de comunistas e gente da esquerda que não tinha espaços institucionais de militância. Como também foi um abrigo humanitário de presos políticos e perseguidos pela dita dura. Conhecendo, como conhecemos, o perfil conservador e arrogante das elites locais, é difícil supor a existência de um político bem nascido cumprindo a saga progressista e desafiadora de Teixeira.
A despedida de José Carlos Teixeira nessa terça, 29 de maio, num momento tão difícil da esfera pública nacional, só aumenta seu valor e importância na galeria dos grandes brasileiros. Aos familiares, amigos e aos que, como eu, tiveram o privilégio de trabalhar e conviver com esse gigante moral, cabe-nos registrar a maravilha de sua missão em vida, na certeza de que trajetórias como a sua valem para sempre como referência do bom combate.
* Luciano Correia é jornalista

* Luciano Correia


Em 1985 eu fui indicado para exercer o cargo de secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju na gestão de José Carlos Teixeira, indicado pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), o "Partidão". Fiquei intrigado como um dos políticos mais importantes do estado, deputado federal de cinco mandatos, apostava sua política de comunicação a um moleque de 24 anos, recém formado na Bahia e ainda começando no jornalismo, só porque um partido aliado resolvera me indicar. Tomei posse, trabalhei muito, tanto quanto sua operosa e curta gestão de sete meses, que fez um trabalho marcante em nossa capital.
Ao final, Zé Carlos saiu candidato a governador pelo seu PMDB (nunca saiu dele!), contra o candidato da chamada Aliança Democrática, Antônio Carlos Valadares, do PFL. Fui contra meu então partido e, numa espécie de "traição", eu e os também militantes Antônio Samarone e Jorge Carvalho votamos em Zé Carlos, mesmo tendo se aliado, como diziam os defensores da tal Aliança, às grandes oligarquias sergipanas. Isso é discurso e narrativa, evidentemente, para justificar as opções da esquerda a um projeto liberal encabeçado pelo PFL, dissidência da velha e igualmente oligárquica Arena. Nunca me arrependi de minha posição e, mais que isso, o voto no candidato do PFL resultou depois num governo medíocre, autoritário e truculento.
Vivi só o começo da campanha, na verdade um ensaio de campanha, pois foi enquanto ele ainda era prefeito de Aracaju. Nada se compara com o volume da política atual e a complexidade incorporada às campanhas eleitorais, mas fiquei impactado com a quantidade de realizações em tão pouco tempo e a fantástica acolhida pela população da periferia. Como jornalista, tive o lampejo de querer contar aquela experiência, que começava com a gestão profícua de sete meses e terminava pela campanha desafiadora, onde o melhor dos candidatos, disparadamente, em todos os aspectos, fora demonizado pela máquina de propaganda que se incorporara ao projeto conservador da Aliança Democrática. José Carlos Teixeira era infinitamente melhor do que seu concorrente, em todos os quesitos, até mesmo se apelassemos para as os velhos maniqueísmos entre o bem e o mal. Até por esse prisma, Teixeira era o lado do bem.
Meu insight consistia em escrever um livro contando isso, indo contra a corrente dos que até hoje insistem em justificar sua adesão a um bloco ainda mais conservador. Cheguei até em pensar num título: "José Carlos Teixeira, o estadista que o povo perdeu". Mas minha preguiça jamais o permitiu. Carreguei comigo essa conta mal resolvida, uma grande reportagem que jogaria mais luzes no debate e uma iniciativa que repararia, pelo menos no papel, uma tremenda injustiça. Contei isso a JCT uma vez, mas ele, na sua grandiosidade, acolheu como um gesto de simpatia, sem maiores comentários. A mesma simpatia com que me brindava absolutamente todas as vezes em que nos encontrávamos: "Meu secretááárioooo", trovejava ele, naquele seu jeito de político tradicional, mas de espírito inquieto, moderno, um admirador da revolução francesa, apaixonado por música clássica, pai amoroso de cinco filhas e marido companheiro de sua querida Eugênia.
O trovão de sua voz, entretanto, nunca foi só um impulso vocal de seu estilo, mas a expressão de um homem valente, combativo e, sobretudo, de extraordinária coragem. Zé Carlos saiu do berço de uma das famílias mais tradicionais de Sergipe, uma das mais ricas do estado durante anos, que, não obstante o conforto de uma carreira parlamentar com seus pares em Brasília, optou pela então arriscada empreitada de fundar a oposição em Sergipe a partir do golpe de 64. Foi ele o fundador, como dizia Benedito Figueiredo, do querido e sofrido MDB, legenda que cumpriu missões extremamente desafiadoras e, mais ainda, abrigou dezenas de comunistas e gente da esquerda que não tinha espaços institucionais de militância. Como também foi um abrigo humanitário de presos políticos e perseguidos pela dita dura. Conhecendo, como conhecemos, o perfil conservador e arrogante das elites locais, é difícil supor a existência de um político bem nascido cumprindo a saga progressista e desafiadora de Teixeira.
A despedida de José Carlos Teixeira nessa terça, 29 de maio, num momento tão difícil da esfera pública nacional, só aumenta seu valor e importância na galeria dos grandes brasileiros. Aos familiares, amigos e aos que, como eu, tiveram o privilégio de trabalhar e conviver com esse gigante moral, cabe-nos registrar a maravilha de sua missão em vida, na certeza de que trajetórias como a sua valem para sempre como referência do bom combate.
* Luciano Correia é jornalista