Se eu quiser falar com Deus

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Os palcos, trios elétricos e fanáticos nas ruas mandam um recado: os cristãos são muitos
Os palcos, trios elétricos e fanáticos nas ruas mandam um recado: os cristãos são muitos

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Publicada em 02/06/2018 às 05:25:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Nos livros de história, 
marchas e paradas 
militares correspondem sempre à ostentação de força, uma demonstração de poderio material orientada para a intimidação de eventuais inimigos. Mas a lógica beligerante das nações imperialistas ainda não é página virada, apesar das lágrimas e do sangue derramado nos campos de batalha fotografados em preto e branco. A Marcha para Jesus, reunindo multidões de crentes, por exemplo, se impõe sobretudo pelo volume. O triunfo da vontade, para lembrar Leni Riefenstahl, se dá exclusivamente por vantagem numérica, com bombas e gritos.
Deus não habita em templos de pedra e cal, mas as igrejas prosperam como nunca. Beneficiadas pelo status de instituição filantrópica, isentas de contribuição fiscal, as organizações religiosas atuam desde sempre como força política e econômica, com a ambição declarada de influência em todas as esferas da vida pública. Os palcos, trios elétricos e fanáticos ocupando as ruas, no feriado de Corpus Christi, mandam um recado mundano, em alto e bom som: os cristãos são muitos.
Não é de se espantar, portanto, a presença de lideranças partidárias em espaços de devoção, essencialmente estranhos à performance política. Quem não lembra do governador Jackson Barreto e o recém eleito prefeito Edvaldo Nogueira, compenetrados servidores públicos, presentes à inauguração da pedra fundamental de um faraônico templo evangélico, no início do ano passado? Pediam bênçãos, em pose contrita, mas receberiam os votos dos crentes de bom grado.
Última segunda-feira, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, fez questão de comparecer ao Encontro Cultural de Economia Criativa Cristã, no Rio de Janeiro. Demonstrava assim a disposição do Governo Federal de subsidiar a propaganda religiosa, alimentada por cifras de muitos milhões, empregadas em diversas frentes - da indústria fonográfica ao cinema.
Curioso é notar que, mesmo na bíblia, considerada um livro sagrado, há diversas passagens recomendando a oração a portas fechadas, longe do olhar público, como na canção de Gilberto Gil que empresta o título a este artigo. Nada de orar em pé nas sinagogas, às esquinas, sob os olhos e a opinião dos homens, recomenda Mateus. A mão esquerda não tem nada com os gestos da mão direita. E, no entanto, marcham os crentes.

Nos livros de história,  marchas e paradas  militares correspondem sempre à ostentação de força, uma demonstração de poderio material orientada para a intimidação de eventuais inimigos. Mas a lógica beligerante das nações imperialistas ainda não é página virada, apesar das lágrimas e do sangue derramado nos campos de batalha fotografados em preto e branco. A Marcha para Jesus, reunindo multidões de crentes, por exemplo, se impõe sobretudo pelo volume. O triunfo da vontade, para lembrar Leni Riefenstahl, se dá exclusivamente por vantagem numérica, com bombas e gritos.
Deus não habita em templos de pedra e cal, mas as igrejas prosperam como nunca. Beneficiadas pelo status de instituição filantrópica, isentas de contribuição fiscal, as organizações religiosas atuam desde sempre como força política e econômica, com a ambição declarada de influência em todas as esferas da vida pública. Os palcos, trios elétricos e fanáticos ocupando as ruas, no feriado de Corpus Christi, mandam um recado mundano, em alto e bom som: os cristãos são muitos.
Não é de se espantar, portanto, a presença de lideranças partidárias em espaços de devoção, essencialmente estranhos à performance política. Quem não lembra do governador Jackson Barreto e o recém eleito prefeito Edvaldo Nogueira, compenetrados servidores públicos, presentes à inauguração da pedra fundamental de um faraônico templo evangélico, no início do ano passado? Pediam bênçãos, em pose contrita, mas receberiam os votos dos crentes de bom grado.
Última segunda-feira, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, fez questão de comparecer ao Encontro Cultural de Economia Criativa Cristã, no Rio de Janeiro. Demonstrava assim a disposição do Governo Federal de subsidiar a propaganda religiosa, alimentada por cifras de muitos milhões, empregadas em diversas frentes - da indústria fonográfica ao cinema.
Curioso é notar que, mesmo na bíblia, considerada um livro sagrado, há diversas passagens recomendando a oração a portas fechadas, longe do olhar público, como na canção de Gilberto Gil que empresta o título a este artigo. Nada de orar em pé nas sinagogas, às esquinas, sob os olhos e a opinião dos homens, recomenda Mateus. A mão esquerda não tem nada com os gestos da mão direita. E, no entanto, marcham os crentes.