Belivaldo defende a saída de Temer para normalizar o Brasil

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Publicada em 03/06/2018 às 00:09:00

Antes de viajar a São Paulo para uma dermatoscopia digital que não é feita em Sergipe, e transmitir o cargo ao desembargador Cezário Siqueira, o governador Belivaldo Chagas respondeu às perguntas que lhe formulamos. Na curta entrevista firmou posições, inclusive sugerindo a renúncia do Presidente Temer, talvez, o primeiro governador do país a se manifestar dessa forma.

A entrevista :
P - Qual a relação hoje existente entre o Governo de Sergipe e o presidente Temer?

Belivaldo - O presidente Temer fez Sergipe sangrar. Aqui, não faço nenhuma alusão à atitudes vampirescas, refiro-me, apenas, à procrastinação proposital do empréstimo que, ainda no governo Jackson Barreto, foi negociado com a Caixa Econômica Federal.
Quando todos os caminhos burocráticos já haviam sido percorridos, as exigências por parte do Governo de Sergipe atendidas, o presidente, numa atitude nada republicana, atrelou a assinatura do empréstimo aos votos que a bancada de Sergipe deveria garantir para a aprovação da reforma previdenciária. Jackson ouviu do próprio presidente essa imposição, que poderemos até classificar como chantagem, coisa que desmerece o conceito de governança equidosa, e voltada ao interesse publico. É bom lembrar que relação entre o Congresso e o Executivo ocorre no plano federal, para isso, o presidente tem os seus lideres, encarregados de assegurar a base de apoio. Se o presidente perdeu essa base de apoio, não seriam os governadores que iriam reconstruí-la. O então presidente da Caixa Econômica Gilberto Occhi, sempre solícito, foi claro ao afirmar que, no âmbito da Caixa a negociação estava concluída, e aprovada, mas, recebera a determinação de transferir ao presidente a decisão final. Jackson e eu fizemos inúmeras viagens à Brasília, e, cada vez, o que se afirmara antes era desconsiderado, e novas exigências inventadas. Jackson, em Brasília, quase repetiu o gesto de humildade por amor a Sergipe que teve o nosso inesquecível Marcelo Déda, já doente terminal, quando, em meio a um emocionado discurso e apelo, sem conter as lágrimas, prometeu ajoelhar-se aos pés de Eduardo Amorim, para que aquele senhor, seu irmão, que controlava, sem ser deputado, a Assembleia Legislativa, finalmente autorizasse a contratação dos recursos do PROINVESTE, para a execução de projetos que ele não mais os veria, mas, beneficiariam os sergipanos. Não fosse o PROINVESTE, mesmo tendo sido diminuído, não teríamos investido em obras fundamentais, algumas, ainda em execução e gerando empregos. Infelizmente, os corações em Brasília são ainda mais duros, ou talvez, sem receio das consequências na opinião pública, porque, afinal, Sergipe é um estado pequeno, com população reduzida, e eles estão longe, nos seu palácios, onde não chegam os nossos gritos. Por tudo isso, temos de gritar sempre mais alto. E uma coisa eu prometo aos sergipanos: Grito agora, e vou continuar gritando, quando nos desprezarem, e nos fizerem injustiças.
Repito, o presidente Temer fez Sergipe sangrar, e prejudicou não somente ao Governo, mas ao estado, aos sergipanos, porque tivemos de engavetar um amplo projeto de recuperação e ampliação da nossa malha rodoviária, que já deveria estar em andamento desde o verão do ano passado. Nessa crise que a cada dia mais se acentua, estaríamos com empresas trabalhando, e gerando empregos. Mas a forma de fazer política em Brasília é de fato algo deprimente.

P - O senhor disse que a Polícia de Sergipe não seria usada para reprimir caminhoneiro e que quem provocou o embrulho que o desembrulhasse?

Belivaldo - Eu não usei exatamente esses termos, mas é inegável que o presidente Temer permitiu que a insatisfação se generalizasse, e o seu governo não teve a sensibilidade necessária para enfrentar o problema, pontualmente, na sua origem. Para isso o governo federal tem um sistema de inteligência. Problema social não é caso de policia, é oportunidade para o exercício do diálogo, principalmente, quando esses problemas são consequências do desleixo, da pouca importância que governos sem sensibilidade ou arrogantes, permitem que se acumulem, e depois, se encolhem por trás da força, quando perdem o controle. Então, a explosão ocorreu, não só em consequência do caos nas estradas, mas, pela insatisfação enorme hoje agravada pelo governo Temer, e pela classe política em geral. A roubalheira e a indiferença em relação aos sentimentos da sociedade, infelizmente geraram esse clima de descrédito e revolta. Estamos precisando com urgência reformular as nossas estruturas politicas.

Além do mais, cabe ao gestor, ou seja, ao político no exercício do mandato, dar bons exemplos, não se deixar envolver em falcatruas, não desmoralizar o cargo que ocupa. Quando um gestor público é acusado de corrupção, responde a inquéritos, a autoridade se perde, se esvazia. Honestidade no exercício do cargo público não é virtude, é apenas uma obrigação fundamental, indispensável.
Um país não pode viver permanentemente com a população duvidando da honestidade dos que o governam, e a exigência de honradez deve ser espalhada pelos estados, as prefeituras, as assembleias, Câmaras, e por todas as instancias dos poderes.

P- Faltou policia em Sergipe para garantir o abastecimento de combustível?

Belivaldo - Eu montei rapidamente um Gabinete de Crise. E as ações foram de pronto iniciadas. A Policia foi acionada para assegurar a manutenção de uma reserva estratégica que tem garantido os serviços essenciais, e assegurando a distribuição, evidentemente racionada, do combustível aos postos por todo o estado, dividido em regiões, numa escala econômica e social de prioridades.
No estado vizinho de Alagoas a crise no abastecimento foi menos sentida, porque lá o transporte se efetua das refinarias por via marítima, até o porto de Maceió. Em Sergipe o nosso porto não permite ainda esse tipo de operação, e tudo nos chega por via rodoviária. Antes, tínhamos uma ferrovia, embora precária, mas ela foi desativada há mais de vinte anos, quando privatizaram a Leste Brasileiro, e o adquirente prometeu reativar a estrada de ferro, e nunca cumpriu a promessa.
São coisas dessa natureza que estamos colocando em pauta para discussão, todavia, projetos dessa importância, como a transformação do nosso modal de transportes, só poderão ser equacionados quando tivermos um governo federal movido por um sentimento republicano, pelo respeito à nossa concertação federativa, e que não esteja tratando, exclusivamente, da sua própria sobrevivência.
Com relação ao bloqueio das estradas, o que acontece fora do nosso território nos afeta mais pesadamente. Agora, a nossa preocupação maior se volta para a garantia dos gêneros alimentícios e da ração animal. Havia um bloqueio em Luiz Eduardo Magalhães (BA) de onde nos vem a soja. Temos aqui um estoque de 500 toneladas de ração animal na CONAB , fizemos um pelo para a liberação e já fomos atendidos.

P - No seu entender qual a solução para a saída dessa crise?

Belivaldo - Acho que a crise teria sido evitada se tivéssemos um governo federal diligente. Mas quando tudo já configurava a tempestade social o presidente Temer estava em São Paulo arrodeado por meia dúzia de personagens, indiferentes ao que se passava pelo país afora, fazendo o lançamento da candidatura a presidente do ex- Ministro Meireles, que abandonou o seu posto para alimentar uma ambição desarrazoada. Depois, o presidente ainda em São Paulo, consumiu o seu tempo reunindo-se com advogados para cuidar da sua periclitante situação em face da justiça. E assim o país caminha, ou melhor, nem caminha, tal o angustiante estado de coisas em que mergulhamos.

Essa política de preços adotada pela Petrobrás poderá render enormes lucros para os seus acionistas, mas isso se processa à custa de uma extorsão contra o povo brasileiro. Em nenhum lugar do mundo se reajusta combustível todo dia, a depender do dólar. O problema é que o senhor Pedro Parente tem a cabeça nas Bolsas, no mercado financeiro, e não leva em conta outros fatores, que, por não terem sido considerados, geraram essa tempestade perfeita. E a ¨solução¨ calamitosamente imperfeita que a ela deram, apenas para que o governo se segurasse na corda bamba em que balança, transferirá para os brasileiros todos, a conta gigantesca; e o PIB, deste ano que já era duvidoso, ficará muito abaixo das projeções do governo. Dentro dessa linha de raciocínio dolarizado é que Pedro Parente quer sucatear a nossa FAFEN, e a FAFEN baiana. O pior disso tudo é que o governo se torna refém dessa política suicida, que até poderá agradar a certos setores, mas afronta a dignidade do povo brasileiro. No meio dessa crise, o senhor Parente, indiferente a tudo, já autorizou aumento da gasolina, que chegou ligeirinho às bombas.
Os estados e municípios foram penalizados por decisões do Governo central que, apenas, mais ainda fragilizam a nossa já fragilizada economia, evidentemente com reflexos negativos sobre a receita. Estamos calculando o impacto em consequência da queda das atividades econômicas, e da garfada que Temer já deu na parte que seria dos estados, e municípios, quando fez as concessões com a faca afiada dos caminhoneiros no seu vulnerável pescoço. Preciso ter segurança, para conseguir pagar sem atrasos a folha, cumprir as obrigações do estado com os fornecedores, manter, saúde, segurança e educação em pleno funcionamento. Logo agora, quando já acabamos as filas e a aglomeração de pacientes na entrada do HUSE. E isso custou mais dinheiro que estamos transferindo ao Cirurgia para ampliar o atendimento.

Sinceramente, eu acredito que hoje a crise se chama Michel Temer. Ele teria um ato de grandeza diante dos brasileiros se renunciasse ao seu mandato, seria a única saída legal possível, porque absolutamente não compactuamos com medidas fora da Constituição que nos rege. Esta é uma crise, mas outras virão, porque um presidente com mais de noventa por cento de rejeição, e hoje sem base parlamentar, sendo investigado pela Policia Federal, torna inviável o seu governo. E qual a resposta que daremos aos milhões de desempregados, às empresas que estão fechando as portas, ao colapso que nos ameaça? Os restos de um mandato valerão mais do que 204 milhões de brasileiros?

Apesar de tudo, é preciso que tenhamos esperanças. Aqui em Sergipe, felizmente, ainda há motivos para mantê-la. Um exemplo apenas: Nesse começo de junho estarão chegando as enormes turbinas que irão gerar energia na Usina Térmica em construção na Barra. No entorno da geradora, o governo do estado elabora o projeto de um parque industrial. Ele será possível com o gás vindo do exterior, (mais barato do que o nosso) para mover a térmica, e poderá abastecer outras indústrias. As turbinas, transportadas em enormes balsas oceânicas, entrarão pelo estuário do rio Sergipe, aqui em frente à nossa capital. Faço um convite aos sergipanos, para que cheguemos à rua da Frente no dia que será divulgado, para assistirmos a complexa operação logística, uma cena que será marcante para o nosso futuro.