A voz do morro, sim senhor

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Gracinha de Menotti faz Cartola se revirar no caixão
Gracinha de Menotti faz Cartola se revirar no caixão

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Publicada em 05/06/2018 às 05:48:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Segundo o cantor Cé-
sar Menotti, samba é 
música de bandido. A declaração realizada em um programa de televisão, último fim de semana, arrancou palmas e risos, para a delícia do apresentador Sérgio Groisman - um jornalista dos mais bem pagos, resignado ao papel de bobo da corte. Ofensa tão grande, no entanto, não tardaria sem resposta. Leci Brandão subiu nos tamancos e defendeu a voz do morro. Cartola, Pixinguinha, Ismael Silva e Noel Rosa, gênios falecidos, mais uma vez maltratados pela língua do povo, reviraram-se no caixão.
A associação infeliz entre samba e bandidagem é dado histórico, remonta ao Brasil império, desde quando a realidade social dos negros alforriados ganhou volume na letra da Lei. O "pensamento" formulado em forma de piada por Menotti revela não apenas as limitações do artista, de méritos estritamente comerciais, portanto. A gracinha desmascara, sobretudo, as fraturas expostas na sensibilidade da brava gente.
Verdade seja dita: O samba é filho sem pai, jamais foi registrado em cartório. Embora os historiadores musicais tenham fixado um marco para o seu nascimento, a gravação do samba 'Pelo Telefone' (1916), o principal feito da composição assinada por Donga foi o de dar conhecimento público aos lamentos ecoando à margem da boa sociedade, nas rodas boêmias que perturbavam o sono dos homens de bens.
O jornalista Lira Neto percorreu quilômetros de fichas policiais em busca dos primeiros passos do gênero meliante, em livro lançado ano passado. 'Uma história do samba' relata ocorrências de mil novecentos e antigamente, numa época quando um violão embaixo do braço colocou muita gente de bem com a vida no xilindró. Não à toa, o crime de vadiagem é irmão gêmeo da abolição da escravatura. Segundo Lira Neto, o status ainda recente conquistado pelo povo negro exigia uma resposta legal.
Moral da história: César Menotti não é ingênuo, muito menos inocente. O racismo nosso de cada dia, no entanto, não é privilégio de quem tem a oportunidade de proferir bobagens com um microfone à mão. 

Segundo o cantor Cé- sar Menotti, samba é  música de bandido. A declaração realizada em um programa de televisão, último fim de semana, arrancou palmas e risos, para a delícia do apresentador Sérgio Groisman - um jornalista dos mais bem pagos, resignado ao papel de bobo da corte. Ofensa tão grande, no entanto, não tardaria sem resposta. Leci Brandão subiu nos tamancos e defendeu a voz do morro. Cartola, Pixinguinha, Ismael Silva e Noel Rosa, gênios falecidos, mais uma vez maltratados pela língua do povo, reviraram-se no caixão.
A associação infeliz entre samba e bandidagem é dado histórico, remonta ao Brasil império, desde quando a realidade social dos negros alforriados ganhou volume na letra da Lei. O "pensamento" formulado em forma de piada por Menotti revela não apenas as limitações do artista, de méritos estritamente comerciais, portanto. A gracinha desmascara, sobretudo, as fraturas expostas na sensibilidade da brava gente.
Verdade seja dita: O samba é filho sem pai, jamais foi registrado em cartório. Embora os historiadores musicais tenham fixado um marco para o seu nascimento, a gravação do samba 'Pelo Telefone' (1916), o principal feito da composição assinada por Donga foi o de dar conhecimento público aos lamentos ecoando à margem da boa sociedade, nas rodas boêmias que perturbavam o sono dos homens de bens.
O jornalista Lira Neto percorreu quilômetros de fichas policiais em busca dos primeiros passos do gênero meliante, em livro lançado ano passado. 'Uma história do samba' relata ocorrências de mil novecentos e antigamente, numa época quando um violão embaixo do braço colocou muita gente de bem com a vida no xilindró. Não à toa, o crime de vadiagem é irmão gêmeo da abolição da escravatura. Segundo Lira Neto, o status ainda recente conquistado pelo povo negro exigia uma resposta legal.
Moral da história: César Menotti não é ingênuo, muito menos inocente. O racismo nosso de cada dia, no entanto, não é privilégio de quem tem a oportunidade de proferir bobagens com um microfone à mão.