ESQUERDA E DIREITA SIM

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 09/06/2018 às 07:05:00

 

* Manoel Moacir Costa Macêdo
Política e cidadania são intrínsecas. A política como ciência, a exemplo da economia, da sociologia, da história e da antropologia. Expressão do bem de todos, das formas, regimes e sistemas de governo. Negar a sua importância, é desprezar os valores das relações sociais humanizadas. Desprezar o seu exercício, é deixar ao descaso os condicionantes da vida social. Criminalizar os seus atores, é retirar de cena os cidadãos e crucificar a democracia representativa. A política é o farol na direção da paz e do bem-estar. Rejeitar o exercício da política, é apagar a luz para clarear a cegueira, o atraso e o imobilismo. 
O afastamento da política, pode significar uma consentida estratégia de manutenção do status quo, dos privilégios e da desordem. As contradições sociais e políticas, ocorrem num arena de conflitos, e conduzem inexoravelmente a um "ganha-perde", onde se digladiam as classes sociais, sob o manto da acumulação e domínio do capital. Realidade que chama por estruturas de conciliação de classes, para domar o "homem como o lobo do próprio homem".  
Não é acolhedor e nem merece crédito, a neutralidade política e a negativa entre direita e esquerda. Existe sim, diferenças relevantes que aparecem na identidade de candidatos, propostas políticas, modelo de sociedade, ideologias e partidos. Oriunda da Revolução Francesa, significava a localização das bancadas no Parlamento. Os liberais girondinos e extremistas jacobinos sentavam respectivamente à direita e à esquerda no salão da Assembleia Nacional. Em sociedades desiguais, não significa uma simples localização de assentos, mas controle social, atrelado à classe dominante, que tentam obscurecer e mascarar essa dicotomia, como se iguais fossem. As diferenças não são as mesmas do passado francês, mas renovadas em artifícios e armadilhas modernizantes.
No passado, havia um consenso de que a esquerda incluía progressistas, sociais-liberais, ambientalistas, socialistas, social democratas, comunistas e anarquistas, enquanto a direita acolhia capitalistas, neoliberais, conservadores, reacionários, fascistas e nazistas. Na atualidade, não justifica essa histórica e determinista divisão. As diferenças sociais são complexas no que diz respeito, aos valores sociais, políticos, históricos e econômicos. Uma equação com difusas variáveis de difícil generalização. A confusão partidária, o oportunismo eleitoral, e as fragilidades da democracia representativa dificultam o sentido do ser esquerda e direita. Existem diferenças sim. No discurso eleitoral da representatividade democrática, os seus postulantes, eventualmente assumem uma posição mais à esquerda numa matéria, e uma postura de direita noutras. Não existe hegemonia na atualidade política, de uma esquerda pura nos moldes do passado, que incorpore as receitas da mudança social pela luta de classes e estatização dos meios de produção, como libertação dos oprimidos e desiguais. Não existe uma direita nesse mesmo ambiente, que incorpore o nazismo, o fascismo e as discriminações de raça, gênero e etnia, como estratégia de transformação social. As diferenças entre elas existem com sutilezas que incorporam os dúbios sentidos de centro-direita e centro-esquerda. Não está no foco, as correntes reacionárias e extremistas, alheias às lições do Estado Democrático de Direito.   
A dicotomia política de direita e esquerda está em crise. Estão esquecidas as realidades de centro e periferia; desenvolvidos e subdesenvolvidos, imperialistas e subalternos, em troca de emergentes e "submersos". Cultuam receitas por consensos, contenção de rupturas e manutenção do status quo. Impera a imposição de um padrão único, a exemplo da desbotada terceira via do Oriente ao Ocidente. O objetivo globalizante na política, como na economia, é desmerecer os inexoráveis conflitos ideológicos entre direita e esquerda, contradições próprias do capitalismo. Atrocidades e misérias são patrocinadas em nome dessa dicotomia por grupos étnicos, religiosos e econômicos que abominam a democracia como ferramenta política de bem-estar e felicidade. Realidade encoberta por uma cegueira humanitária. Ortega Y Gasset na obra "A Rebelião das Massas" argumenta que "a persistência desses qualificativos contribui muito para falsificar ainda mais a realidade".
Como escreveu José Saramago, no "Ensaio sobre a Cegueira": "Por que foi que cegamos? Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão. Queres que te diga o que penso? Diz. Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que veem. Cegos que, vendo, não veem as cruéis desigualdades. Que os nossos olhos se abram e vejam a esquerda e direita reformuladas, propugnando pela liberdade, fraternidade e igualdade entre povos e nações em bases democráticas e cidadãs, além da retórica de uma dicotomia envelhecida por um tempo que se foi.
* Manoel Moacir Costa Macêdo, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra.

* Manoel Moacir Costa Macêdo


Política e cidadania são intrínsecas. A política como ciência, a exemplo da economia, da sociologia, da história e da antropologia. Expressão do bem de todos, das formas, regimes e sistemas de governo. Negar a sua importância, é desprezar os valores das relações sociais humanizadas. Desprezar o seu exercício, é deixar ao descaso os condicionantes da vida social. Criminalizar os seus atores, é retirar de cena os cidadãos e crucificar a democracia representativa. A política é o farol na direção da paz e do bem-estar. Rejeitar o exercício da política, é apagar a luz para clarear a cegueira, o atraso e o imobilismo. 
O afastamento da política, pode significar uma consentida estratégia de manutenção do status quo, dos privilégios e da desordem. As contradições sociais e políticas, ocorrem num arena de conflitos, e conduzem inexoravelmente a um "ganha-perde", onde se digladiam as classes sociais, sob o manto da acumulação e domínio do capital. Realidade que chama por estruturas de conciliação de classes, para domar o "homem como o lobo do próprio homem".  
Não é acolhedor e nem merece crédito, a neutralidade política e a negativa entre direita e esquerda. Existe sim, diferenças relevantes que aparecem na identidade de candidatos, propostas políticas, modelo de sociedade, ideologias e partidos. Oriunda da Revolução Francesa, significava a localização das bancadas no Parlamento. Os liberais girondinos e extremistas jacobinos sentavam respectivamente à direita e à esquerda no salão da Assembleia Nacional. Em sociedades desiguais, não significa uma simples localização de assentos, mas controle social, atrelado à classe dominante, que tentam obscurecer e mascarar essa dicotomia, como se iguais fossem. As diferenças não são as mesmas do passado francês, mas renovadas em artifícios e armadilhas modernizantes.
No passado, havia um consenso de que a esquerda incluía progressistas, sociais-liberais, ambientalistas, socialistas, social democratas, comunistas e anarquistas, enquanto a direita acolhia capitalistas, neoliberais, conservadores, reacionários, fascistas e nazistas. Na atualidade, não justifica essa histórica e determinista divisão. As diferenças sociais são complexas no que diz respeito, aos valores sociais, políticos, históricos e econômicos. Uma equação com difusas variáveis de difícil generalização. A confusão partidária, o oportunismo eleitoral, e as fragilidades da democracia representativa dificultam o sentido do ser esquerda e direita. Existem diferenças sim. No discurso eleitoral da representatividade democrática, os seus postulantes, eventualmente assumem uma posição mais à esquerda numa matéria, e uma postura de direita noutras. Não existe hegemonia na atualidade política, de uma esquerda pura nos moldes do passado, que incorpore as receitas da mudança social pela luta de classes e estatização dos meios de produção, como libertação dos oprimidos e desiguais. Não existe uma direita nesse mesmo ambiente, que incorpore o nazismo, o fascismo e as discriminações de raça, gênero e etnia, como estratégia de transformação social. As diferenças entre elas existem com sutilezas que incorporam os dúbios sentidos de centro-direita e centro-esquerda. Não está no foco, as correntes reacionárias e extremistas, alheias às lições do Estado Democrático de Direito.   
A dicotomia política de direita e esquerda está em crise. Estão esquecidas as realidades de centro e periferia; desenvolvidos e subdesenvolvidos, imperialistas e subalternos, em troca de emergentes e "submersos". Cultuam receitas por consensos, contenção de rupturas e manutenção do status quo. Impera a imposição de um padrão único, a exemplo da desbotada terceira via do Oriente ao Ocidente. O objetivo globalizante na política, como na economia, é desmerecer os inexoráveis conflitos ideológicos entre direita e esquerda, contradições próprias do capitalismo. Atrocidades e misérias são patrocinadas em nome dessa dicotomia por grupos étnicos, religiosos e econômicos que abominam a democracia como ferramenta política de bem-estar e felicidade. Realidade encoberta por uma cegueira humanitária. Ortega Y Gasset na obra "A Rebelião das Massas" argumenta que "a persistência desses qualificativos contribui muito para falsificar ainda mais a realidade".
Como escreveu José Saramago, no "Ensaio sobre a Cegueira": "Por que foi que cegamos? Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão. Queres que te diga o que penso? Diz. Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que veem. Cegos que, vendo, não veem as cruéis desigualdades. Que os nossos olhos se abram e vejam a esquerda e direita reformuladas, propugnando pela liberdade, fraternidade e igualdade entre povos e nações em bases democráticas e cidadãs, além da retórica de uma dicotomia envelhecida por um tempo que se foi.
* Manoel Moacir Costa Macêdo, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra.