O amor no tempo do streaming

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Um gesto revolucionário
Um gesto revolucionário

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Publicada em 12/06/2018 às 06:13:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Puxo pela memória e 
não lembro a última 
vez quando vi um casal de mãos dadas. Procuro no pôr do sol, no meio da rua, no bar, na praia... E nada. Aparentemente, o amor é hoje um assunto de foro íntimo, tratado entre quatro paredes, exclusivo de ambientes privados.
Nada mais estranho. Justamente quando o mercado de idéias se esvai em simplificações as mais rasas, quando o meme ganha status de argumento e prevalece sobre o discurso elaborado, o maior de todos os clichês, o coração das hipérboles bate acanhado.
Fui ontem ao comércio. Na multidão de consumidores não havia um só vivente tomado de paixão. O Dia dos Namorados brilhava nas vitrines. As pessoas trombavam umas nas outras, transbordando em sacolas. Ninguém se desculpava. Se gentileza fosse moeda, os lojistas no Centro de Aracaju estariam arruinados. 
Um amigo gay jamais se sentiu confortável para demonstrar carinho pelo companheiro em público. A relação é estável, dura já muitos anos. Todos os sabem casados. E, no entanto, eu mesmo nunca os vi trocando nem o mais breve dos beijos. A desconfiança dos dois tem razão objetiva. Ano passado, ao menos 445 gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTs) foram mortos em crimes motivados por ódio no Brasil, segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia. Em plena era do streaming, o amor ainda é risco de vida para muita gente, um gesto revolucionário. 
Nenhum sentimento será aqui celebrado nesta terça-feira, 12 de junho, Dia dos Namorados. A data, de apelo comercial duvidoso, é lembrada por insistência exclusiva e falta de imaginação dos publicitários. Nem hoje, nem amanhã, nem depois. Não enquanto o meu amigo não puder beijar o marido e o mundo for um lugar hostil para os apaixonados.

Puxo pela memória e  não lembro a última  vez quando vi um casal de mãos dadas. Procuro no pôr do sol, no meio da rua, no bar, na praia... E nada. Aparentemente, o amor é hoje um assunto de foro íntimo, tratado entre quatro paredes, exclusivo de ambientes privados.
Nada mais estranho. Justamente quando o mercado de idéias se esvai em simplificações as mais rasas, quando o meme ganha status de argumento e prevalece sobre o discurso elaborado, o maior de todos os clichês, o coração das hipérboles bate acanhado.
Fui ontem ao comércio. Na multidão de consumidores não havia um só vivente tomado de paixão. O Dia dos Namorados brilhava nas vitrines. As pessoas trombavam umas nas outras, transbordando em sacolas. Ninguém se desculpava. Se gentileza fosse moeda, os lojistas no Centro de Aracaju estariam arruinados. 
Um amigo gay jamais se sentiu confortável para demonstrar carinho pelo companheiro em público. A relação é estável, dura já muitos anos. Todos os sabem casados. E, no entanto, eu mesmo nunca os vi trocando nem o mais breve dos beijos. A desconfiança dos dois tem razão objetiva. Ano passado, ao menos 445 gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTs) foram mortos em crimes motivados por ódio no Brasil, segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia. Em plena era do streaming, o amor ainda é risco de vida para muita gente, um gesto revolucionário. 
Nenhum sentimento será aqui celebrado nesta terça-feira, 12 de junho, Dia dos Namorados. A data, de apelo comercial duvidoso, é lembrada por insistência exclusiva e falta de imaginação dos publicitários. Nem hoje, nem amanhã, nem depois. Não enquanto o meu amigo não puder beijar o marido e o mundo for um lugar hostil para os apaixonados.