Senhora dos supermercados

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Publicada em 12/06/2018 às 06:47:00

 

* Antonio Passos
Com um pouco de paciência ou sorte não será difícil encontrá-la. Eu mesmo já a vi três vezes, circulando nos corredores de um antigo supermercado localizado na Avenida Francisco Porto. Dizem que aquele é o que ela mais frequenta, por ser próximo ao condomínio onde mora.
Porém, a compulsão dessa senhora a leva à diversos estabelecimentos comerciais do gênero. Assim como um cachorro criado em apartamento, fazendo xixi para marcar território em todos os postes durante um passeio, ela vai a qualquer novo supermercado inaugurado.
Nos supermercados dos shoppings e mesmo naqueles menores espalhados pelos bairros, lá está ela. Também com a chegada da nova moda dos atacadões, em cada um deles, essa senhora já foi vista circulando e empurrando carrinhos abarrotados de mercadorias, até não caber mais.
Aliás, esse é um modo de a identificar, para quem ainda não a conhece. Desde a entrada na loja, quando pega o maior dos carrinhos, até encaminhar-se para o caixa que tiver a maior das filas, a senhora dos supermercados empilha mercadorias até que se forme um monte delas.
Ao contrário do que possa parecer, para quem a vê fazendo as compras, ela mora sozinha. Filha única, sempre era vista na companhia do pai e da mãe. Não casou, não teve filhos. Com a morte dos pais continuou no mesmo apartamento amplo onde sempre morou, desde a infância.
Quando criança, habituou-se a ver e ouvir o pai desdenhar das pessoas que faziam pequenas compras nos supermercados. Aquele é um Zé ninguém, um pé rapado, vejam só, não consegue encher nem metade do carrinho - dizia o soberbo senhor enquanto exibia o carrinho cheio.
A necessidade do pai de demonstrar superioridade e riqueza por meio do grande volume de mercadorias empilhadas nos carrinhos de supermercado e dos comentários decorrentes, impregnou a filha. Mais que isso, tornou-se nela uma obsessão desvinculada de necessidade real.
Durante um bom tempo, o hábito irreal da senhora dos supermercados fez a festa dos funcionários do condomínio onde ela mora. A empregada doméstica fazia distribuição do excesso de alimentos comprados, entre serventes e porteiros, até ter sido flagrada e proibida pela patroa.
Um amigo advogado, vizinho de prédio da misteriosa senhora, contou-me que ao se aproximar do condomínio em uma madrugada, por uma rua lateral e pouco movimentada, a avistou retirando sacos de supermercado cheios, do porta-malas do carro e jogando-os em um terreno baldio.
A senhora dos supermercados tem hoje uns setenta anos de idade e demonstra boa disposição física. Com o passar do tempo tornar-se-á uma lenda urbana. Porém, aqueles que tenham curiosidade, com um pouco de paciência ou sorte ainda poderão vê-la nos supermercados de Aracaju.
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos


Com um pouco de paciência ou sorte não será difícil encontrá-la. Eu mesmo já a vi três vezes, circulando nos corredores de um antigo supermercado localizado na Avenida Francisco Porto. Dizem que aquele é o que ela mais frequenta, por ser próximo ao condomínio onde mora.
Porém, a compulsão dessa senhora a leva à diversos estabelecimentos comerciais do gênero. Assim como um cachorro criado em apartamento, fazendo xixi para marcar território em todos os postes durante um passeio, ela vai a qualquer novo supermercado inaugurado.
Nos supermercados dos shoppings e mesmo naqueles menores espalhados pelos bairros, lá está ela. Também com a chegada da nova moda dos atacadões, em cada um deles, essa senhora já foi vista circulando e empurrando carrinhos abarrotados de mercadorias, até não caber mais.
Aliás, esse é um modo de a identificar, para quem ainda não a conhece. Desde a entrada na loja, quando pega o maior dos carrinhos, até encaminhar-se para o caixa que tiver a maior das filas, a senhora dos supermercados empilha mercadorias até que se forme um monte delas.
Ao contrário do que possa parecer, para quem a vê fazendo as compras, ela mora sozinha. Filha única, sempre era vista na companhia do pai e da mãe. Não casou, não teve filhos. Com a morte dos pais continuou no mesmo apartamento amplo onde sempre morou, desde a infância.
Quando criança, habituou-se a ver e ouvir o pai desdenhar das pessoas que faziam pequenas compras nos supermercados. Aquele é um Zé ninguém, um pé rapado, vejam só, não consegue encher nem metade do carrinho - dizia o soberbo senhor enquanto exibia o carrinho cheio.
A necessidade do pai de demonstrar superioridade e riqueza por meio do grande volume de mercadorias empilhadas nos carrinhos de supermercado e dos comentários decorrentes, impregnou a filha. Mais que isso, tornou-se nela uma obsessão desvinculada de necessidade real.
Durante um bom tempo, o hábito irreal da senhora dos supermercados fez a festa dos funcionários do condomínio onde ela mora. A empregada doméstica fazia distribuição do excesso de alimentos comprados, entre serventes e porteiros, até ter sido flagrada e proibida pela patroa.
Um amigo advogado, vizinho de prédio da misteriosa senhora, contou-me que ao se aproximar do condomínio em uma madrugada, por uma rua lateral e pouco movimentada, a avistou retirando sacos de supermercado cheios, do porta-malas do carro e jogando-os em um terreno baldio.
A senhora dos supermercados tem hoje uns setenta anos de idade e demonstra boa disposição física. Com o passar do tempo tornar-se-á uma lenda urbana. Porém, aqueles que tenham curiosidade, com um pouco de paciência ou sorte ainda poderão vê-la nos supermercados de Aracaju.
* Antonio Passos é jornalista