O cru e o cozido

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Publicada em 12/06/2018 às 06:50:00

 

* Lelê Teles
A depressão não mata, mas faz o cabra se matar. 
O depressivo deve, sempre, procurar ajuda.
O amigo e o familiar têm o dever moral de lhe dar suporte.
A depressão pegou Bourdain, aos 61 anos, em seguida veio o suicídio.
Ele tinha um histórico de complicações com o abuso de drogas.
Dito isso, digo mais.
Bourdain diferia completamente de seus colegas de métier enfeitiçados pela televisão: pouco cultos, deslumbrados e exibicionistas.
À maneira do estruturalista Lévi-Straus, autor do seminal O Cru e o Cozido, Bourdain usou a gastronomia como um hipermediador.
Era de cultura que ele falava quando falava de culinária.
Você bem o sabe, nenhuma troca foi mais significativa para estabelecer contato entre culturas do que a troca de alimentos.
E é aí que ocorrem as trocas simbólicas, lembremos aqui de Bourdieu.
Você sabe muito bem o que quer dizer "aqueles ianques comedores de hambúrguer".
E conhece o valor simbólico de uma comida colorida à mesa, regada a um bom vinho e a uma boa companhia.
O cara que diz ter nojo de comer um gafanhoto assado na Tailândia é o mesmo que come com prazer uma lesma (escargot) na França.
A brasilidade é, sobretudo, a junção de pratos de três continentes e nada africaniza mais a Bahia que o acarajé.
O mineiro é o cara do pão de queijo e do cafezinho, o gaúcho é o chimarrão e o churrasco.
Foi em busca de especiarias que se "descobriu" o novo mundo. a culinária é uma produção cultural simbólica e um canal aberto de comunicação.
Você é o que você come porque o alimento produzido na sua cultura está carregado de sentido identitário. Sociedades que conviveram com a escassez por longos períodos formataram um padrão alimentar único, aproveitando-se, de forma criativa, do que dispunha.
Por isso tem gente espetando insetos na brasa ou comendo comida crua.
Antes de se entregar a seus verdugos, Jesus comeu com seus discípulos, foi à mesa que ele revelou a grande trama.
Foi com alimento que ele produziu milagres e com alimento fez parábolas.
Ele era à beira do fogão à lenha que a vovó transmitia valores culturais, no bate papo temperado e defumado.
A cozinha preserva a memória de um povo, seu ethos, sua trajetória histórica, sincrônica e diacrônica.
Anthony sabia de tudo isso, como um excelente storyteller ele permitiu com que todos viajassem em suas viagens. 
Ao contrário do viajante sélfico que viaja para tirar fotos de edifícios e pontes, Bourdain sentava-se à mesa e sentia o sabor e o saber da gente que visitava.
Bourdain, ao se permitir sentar em cantinas e biroscas, tendas e salões, chairs e tamboretes, vivenciava uma experiência quase etnográfica.
Ele estava em busca da alteridade.
Os chefetes de hoje só estão interessados em exibir autoridade.
Fará falta!
* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista

* Lelê Teles

A depressão não mata, mas faz o cabra se matar. 
O depressivo deve, sempre, procurar ajuda.
O amigo e o familiar têm o dever moral de lhe dar suporte.
A depressão pegou Bourdain, aos 61 anos, em seguida veio o suicídio.
Ele tinha um histórico de complicações com o abuso de drogas.
Dito isso, digo mais.
Bourdain diferia completamente de seus colegas de métier enfeitiçados pela televisão: pouco cultos, deslumbrados e exibicionistas.
À maneira do estruturalista Lévi-Straus, autor do seminal O Cru e o Cozido, Bourdain usou a gastronomia como um hipermediador.
Era de cultura que ele falava quando falava de culinária.
Você bem o sabe, nenhuma troca foi mais significativa para estabelecer contato entre culturas do que a troca de alimentos.
E é aí que ocorrem as trocas simbólicas, lembremos aqui de Bourdieu.
Você sabe muito bem o que quer dizer "aqueles ianques comedores de hambúrguer".
E conhece o valor simbólico de uma comida colorida à mesa, regada a um bom vinho e a uma boa companhia.
O cara que diz ter nojo de comer um gafanhoto assado na Tailândia é o mesmo que come com prazer uma lesma (escargot) na França.
A brasilidade é, sobretudo, a junção de pratos de três continentes e nada africaniza mais a Bahia que o acarajé.
O mineiro é o cara do pão de queijo e do cafezinho, o gaúcho é o chimarrão e o churrasco.
Foi em busca de especiarias que se "descobriu" o novo mundo. a culinária é uma produção cultural simbólica e um canal aberto de comunicação.
Você é o que você come porque o alimento produzido na sua cultura está carregado de sentido identitário. Sociedades que conviveram com a escassez por longos períodos formataram um padrão alimentar único, aproveitando-se, de forma criativa, do que dispunha.
Por isso tem gente espetando insetos na brasa ou comendo comida crua.
Antes de se entregar a seus verdugos, Jesus comeu com seus discípulos, foi à mesa que ele revelou a grande trama.
Foi com alimento que ele produziu milagres e com alimento fez parábolas.
Ele era à beira do fogão à lenha que a vovó transmitia valores culturais, no bate papo temperado e defumado.
A cozinha preserva a memória de um povo, seu ethos, sua trajetória histórica, sincrônica e diacrônica.
Anthony sabia de tudo isso, como um excelente storyteller ele permitiu com que todos viajassem em suas viagens. 
Ao contrário do viajante sélfico que viaja para tirar fotos de edifícios e pontes, Bourdain sentava-se à mesa e sentia o sabor e o saber da gente que visitava.
Bourdain, ao se permitir sentar em cantinas e biroscas, tendas e salões, chairs e tamboretes, vivenciava uma experiência quase etnográfica.
Ele estava em busca da alteridade.
Os chefetes de hoje só estão interessados em exibir autoridade.
Fará falta!
* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista