As Veias Abertas da América Latina

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Publicada em 17/06/2018 às 11:52:00

 

As Veias Abertas da América Latina
Marcos Cardoso
Quem foi universitário nos anos 80 teve esse livro como leitura obrigatória. "As Veias Abertas da América Latina - Cinco Séculos de Pilhagem de um Continente", título emblemático do escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano, mexeu com o imaginário revolucionário de uma juventude ansiosa por liberdade.
O livro é considerado um texto clássico não só para os simpatizantes marxistas, mas recomendado a todos seguidores, ou não, do pensamento anticapitalista e antiamericanista na América Latina.
No livro, de 1971, Galeano analisa a história do continente latino desde o período da colonização até aquela quadra do Século 20, argumentando sobre as causas e consequências da exploração econômica e a dominação política do continente, acompanhada de constante derramamento de sangue índio, primeiramente pelos europeus e seus descendentes e, mais tarde, pelos Estados Unidos.
Na sua tese de mais de 300 páginas, Galeano argumenta sobre como as riquezas que primeiro atraíram os colonizadores europeus, como o ouro e o açúcar, haviam dado origem a um sistema de exploração e que este conduziria inevitavelmente à "estrutura contemporânea de pilhagem", que seria responsável pela pobreza e subdesenvolvimento crônicos da América Latina.
O livro "As Veias Abertas da América Latina" foi banido no Brasil, Argentina, Chile e Uruguai durante as ditaduras militares destes países. Após a euforia do pós-ditadura, o livro passou um período hibernando, até que, em 2009, durante a 5ª Cúpula das Américas, o ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez o deu de presente a Barack Obama, presidente dos Estados Unidos. Na época, o gesto alçou o livro à segunda posição da lista dos mais populares do site Amazon.com em apenas um dia.
Questionado sobre esse episódio, o escritor pilheriou e respondeu que nem Obama e nem Chávez entenderiam o livro. "Ele (Chávez) entregou a Obama com a melhor intenção do mundo, mas deu de presente a Obama um livro em uma língua que ele não conhece. Então, foi um gesto generoso, mas um pouco cruel", pilheriou.
Eduardo Galeano morreu dois anos atrás, no dia 13 de abril de 2015, aos 74 anos. Um ano antes, o livro voltou ao debate, dessa vez até mais acalorado, porque o próprio Eduardo Galeano, passados mais de 40 anos, simplesmente o renegou. "Eu não seria capaz de ler o livro de novo. Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é pesadíssima", ironizou, na 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília.
Galeano explicou que "As Veias Abertas da América Latina" foi o resultado da tentativa de um jovem de escrever um livro sobre economia política sem conhecer devidamente o tema. "Eu não tinha a formação necessária. Não estou arrependido de tê-lo escrito, mas foi uma etapa que, para mim, está superada".
O livro foi publicado pela primeira vez quando o autor tinha 31 anos. Para ele, embora algumas das questões abordadas continuem "se desenvolvendo e se repetindo", a realidade mundial mudou muito desde que a obra chegou às livrarias. E confessou que não teria interesse em reescrevê-lo ou atualizá-lo.
"A realidade mudou muito. Eu mudei muito. Meus espaços de penetração na realidade cresceram tanto fora, quanto dentro de mim. Dentro de mim, eles cresceram na medida em que eu ia escrevendo novos livros, me redescobrindo, vendo que a realidade não é só aquela em que eu acreditava", ressaltou.
Naquele que foi o último evento que participou no Brasil, o escritor disse que, em todo o mundo, experiências de partidos políticos de esquerda no poder "às vezes deram certo, às vezes não, mas muitas vezes foram demolidas como castigo por estarem certas, o que deu margem a golpes de Estado, ditaduras militares e períodos prolongados de terror, com sacrifícios humanos e crimes horrorosos cometidos em nome da paz social e do progresso". E, observou: em alguns períodos "é a esquerda que comete erros gravíssimos".
Mas no prefácio escrito em agosto de 2010, especialmente para a edição da editora L&PM, com nova e elogiada tradução do contista Sérgio Faraco, um enfastiado Eduardo Galeano lamenta que "As Veias Abertas da América Latina" não tenha perdido a atualidade.

Marcos Cardoso

Quem foi universitário nos anos 80 teve esse livro como leitura obrigatória. "As Veias Abertas da América Latina - Cinco Séculos de Pilhagem de um Continente", título emblemático do escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano, mexeu com o imaginário revolucionário de uma juventude ansiosa por liberdade.O livro é considerado um texto clássico não só para os simpatizantes marxistas, mas recomendado a todos seguidores, ou não, do pensamento anticapitalista e antiamericanista na América Latina.
No livro, de 1971, Galeano analisa a história do continente latino desde o período da colonização até aquela quadra do Século 20, argumentando sobre as causas e consequências da exploração econômica e a dominação política do continente, acompanhada de constante derramamento de sangue índio, primeiramente pelos europeus e seus descendentes e, mais tarde, pelos Estados Unidos.
Na sua tese de mais de 300 páginas, Galeano argumenta sobre como as riquezas que primeiro atraíram os colonizadores europeus, como o ouro e o açúcar, haviam dado origem a um sistema de exploração e que este conduziria inevitavelmente à "estrutura contemporânea de pilhagem", que seria responsável pela pobreza e subdesenvolvimento crônicos da América Latina.
O livro "As Veias Abertas da América Latina" foi banido no Brasil, Argentina, Chile e Uruguai durante as ditaduras militares destes países. Após a euforia do pós-ditadura, o livro passou um período hibernando, até que, em 2009, durante a 5ª Cúpula das Américas, o ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez o deu de presente a Barack Obama, presidente dos Estados Unidos. Na época, o gesto alçou o livro à segunda posição da lista dos mais populares do site Amazon.com em apenas um dia.
Questionado sobre esse episódio, o escritor pilheriou e respondeu que nem Obama e nem Chávez entenderiam o livro. "Ele (Chávez) entregou a Obama com a melhor intenção do mundo, mas deu de presente a Obama um livro em uma língua que ele não conhece. Então, foi um gesto generoso, mas um pouco cruel", pilheriou.
Eduardo Galeano morreu dois anos atrás, no dia 13 de abril de 2015, aos 74 anos. Um ano antes, o livro voltou ao debate, dessa vez até mais acalorado, porque o próprio Eduardo Galeano, passados mais de 40 anos, simplesmente o renegou. "Eu não seria capaz de ler o livro de novo. Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é pesadíssima", ironizou, na 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília.
Galeano explicou que "As Veias Abertas da América Latina" foi o resultado da tentativa de um jovem de escrever um livro sobre economia política sem conhecer devidamente o tema. "Eu não tinha a formação necessária. Não estou arrependido de tê-lo escrito, mas foi uma etapa que, para mim, está superada".
O livro foi publicado pela primeira vez quando o autor tinha 31 anos. Para ele, embora algumas das questões abordadas continuem "se desenvolvendo e se repetindo", a realidade mundial mudou muito desde que a obra chegou às livrarias. E confessou que não teria interesse em reescrevê-lo ou atualizá-lo.
"A realidade mudou muito. Eu mudei muito. Meus espaços de penetração na realidade cresceram tanto fora, quanto dentro de mim. Dentro de mim, eles cresceram na medida em que eu ia escrevendo novos livros, me redescobrindo, vendo que a realidade não é só aquela em que eu acreditava", ressaltou.
Naquele que foi o último evento que participou no Brasil, o escritor disse que, em todo o mundo, experiências de partidos políticos de esquerda no poder "às vezes deram certo, às vezes não, mas muitas vezes foram demolidas como castigo por estarem certas, o que deu margem a golpes de Estado, ditaduras militares e períodos prolongados de terror, com sacrifícios humanos e crimes horrorosos cometidos em nome da paz social e do progresso". E, observou: em alguns períodos "é a esquerda que comete erros gravíssimos".
Mas no prefácio escrito em agosto de 2010, especialmente para a edição da editora L&PM, com nova e elogiada tradução do contista Sérgio Faraco, um enfastiado Eduardo Galeano lamenta que "As Veias Abertas da América Latina" não tenha perdido a atualidade.