INACREDITÁVEL

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Publicada em 22/06/2018 às 07:39:00

 

* Manoel Moacir Costa Macêdo
Os fatos e ações sociais são eventos da vida social. As apreciações analíticas, acontecem após acontecidos. Caracterizações da metodologia nas ciências sociais. Abstrações advém no tempo post facto. O caso da "greve sem fim dos caminhoneiros", carrega lições relevantes aos governantes e governados. Como é possível um grupo estimado de trinta mil caminhoneiros, no universo de quase dois milhões, conseguir imobilizar um País continental de duzentos e catorze milhões de habitantes, a décima economia do mundo, onde mais que sessenta por cento da sua riqueza é transportada numa extensa e precária malha rodoviária? 
Não cabe aos cidadãos e cidadãs as soluções da paralisação de serviços estratégicos. Eles não possuem informações, poder e meios de interferir nessa complexidade. As providências cabe inexoravelmente ao Estado, na figura dos seus governantes. Organização superior da sociedade. Portador dos meios legais e legítimos de mediar os conflitos, evitar a barbárie e manter os "freios e contrapesos", uma referência ao pretérito controle do "homem como o seu próprio lobo". O conflito é próprio da convivência social. "Ele é o nervo da política". Governar uma nação ultrapassa a vaidade advinda da vitória partidária e eleitoral. Alcança o bem comum, a gestão de interesses, o respeito ao passado, o cuidado no presente e a prospecção do futuro. Não é uma aventura entre amigos e correligionários, nem uma tarefa para principiantes.
Um evento de tal grandeza e amplitude, exige competências e habilidades no acompanhamento, gestão e decisão. Não se questiona o direito democrático da greve de trabalhadores e os interesses corporativos. Conquista da nossa nascente democracia. O limite é o interesse social. A primazia é a coletividade. Não se descartam as restrições à normalidade, pois ao contrário, não haveria o efeito grevista. O Estado detém a legitimidade de regular as relações sociais. Os instrumentos são os conhecidos do Estado Democrático de Direito: legislações advindas do poder legislativo, consentidas pelo poder judicial e aplicadas pelo poder executivo. O mantra "Montesquiano".
O movimento grevista dos caminhoneiros ainda em curso, externa inacreditáveis contingências. O Estado com a sua soberania, minimizou as consequências no tempo, espaço e princípios que sublimam a científica "solidariedade social", o oposto da "anomia". O País ficou imobilizado. O caos penetrou na saúde, na agropecuária, no comércio, no ir e vir, na legitimidade política, enfim na vida das pessoas. A sociedade ficou refém e desprotegida por inteiro. Os berros ouvidos foram dos ruralistas inseridos em cadeias agroindustriais sofisticadas para a exportação. Ecoaram em menor tom os gritos dos hospitais públicos, dos pequenos agricultores, do transporte coletivo, dos logradouros periféricos, dos cárceres medievais, e dos pobres sem poder de compra de alimentos encarecidos pela usura e aproveitadores de ocasião. A população simbolizada na amorfa classe média, aceitou resignada e até apoiou a greve, sem avaliar o "perde-ganha". Revolta emocional e intempestiva ao status quo vigente. Pesquisas apuraram que oitenta e sete por cento da população apoiou à greve. Curiosamente, a mesma proporção recusou os custos para si próprio. Para o geógrafo e humanista Milton Santos, "a classe média não quer direitos, ela quer privilégios, custe os direitos de quem custar". Uma contradição a ser explicada.
Nessa inacreditável trapalhada estatal, acalmaram provisoriamente os caminhoneiros, mas não a sociedade. Não foram identificados os atores ocultos da paralisação, os ganhadores de sempre. Realçou a carência de lideranças e mediadores, um traço dos vícios da nossa história autoritária. O Brasil, detém o maior número de linchamentos no mundo, em média um por dia. Os fenômenos sociais são próprios de um novo tempo. Existe uma pauta estratégica diferente do tempo da Guerra Fria. Governar na atualidade, é renunciar o modelo vigente por meio século no interior do Estado brasileiro. Predominam promessas de crédito e consumo como base de inserção social no Estado pré-globalizado, em moldes populista, capturado por grupos de interesses, adverso aos significados atuais. 
Para o professor e sociólogo Zander Navarro, observador atento da atual sociabilidade, a greve dos caminhoneiros, a exemplo da "crise atual é simples de ser diagnosticada. Vivemos uma conjuntura sob a qual a minúscula elite do andar de cima não tem conseguido oferecer as migalhas usuais ao imenso povão do andar de baixo, particularmente a manutenção da oferta de empregos de baixos salários. E a pequena classe média intermediária, confusa, ora atira para um lado, ora para o outro. A partir desse quase simplório diagnóstico é que adentram os outros fatores do período recente". 
* Manoel Moacir Costa Macêdo, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra

* Manoel Moacir Costa Macêdo


Os fatos e ações sociais são eventos da vida social. As apreciações analíticas, acontecem após acontecidos. Caracterizações da metodologia nas ciências sociais. Abstrações advém no tempo post facto. O caso da "greve sem fim dos caminhoneiros", carrega lições relevantes aos governantes e governados. Como é possível um grupo estimado de trinta mil caminhoneiros, no universo de quase dois milhões, conseguir imobilizar um País continental de duzentos e catorze milhões de habitantes, a décima economia do mundo, onde mais que sessenta por cento da sua riqueza é transportada numa extensa e precária malha rodoviária? 
Não cabe aos cidadãos e cidadãs as soluções da paralisação de serviços estratégicos. Eles não possuem informações, poder e meios de interferir nessa complexidade. As providências cabe inexoravelmente ao Estado, na figura dos seus governantes. Organização superior da sociedade. Portador dos meios legais e legítimos de mediar os conflitos, evitar a barbárie e manter os "freios e contrapesos", uma referência ao pretérito controle do "homem como o seu próprio lobo". O conflito é próprio da convivência social. "Ele é o nervo da política". Governar uma nação ultrapassa a vaidade advinda da vitória partidária e eleitoral. Alcança o bem comum, a gestão de interesses, o respeito ao passado, o cuidado no presente e a prospecção do futuro. Não é uma aventura entre amigos e correligionários, nem uma tarefa para principiantes.
Um evento de tal grandeza e amplitude, exige competências e habilidades no acompanhamento, gestão e decisão. Não se questiona o direito democrático da greve de trabalhadores e os interesses corporativos. Conquista da nossa nascente democracia. O limite é o interesse social. A primazia é a coletividade. Não se descartam as restrições à normalidade, pois ao contrário, não haveria o efeito grevista. O Estado detém a legitimidade de regular as relações sociais. Os instrumentos são os conhecidos do Estado Democrático de Direito: legislações advindas do poder legislativo, consentidas pelo poder judicial e aplicadas pelo poder executivo. O mantra "Montesquiano".
O movimento grevista dos caminhoneiros ainda em curso, externa inacreditáveis contingências. O Estado com a sua soberania, minimizou as consequências no tempo, espaço e princípios que sublimam a científica "solidariedade social", o oposto da "anomia". O País ficou imobilizado. O caos penetrou na saúde, na agropecuária, no comércio, no ir e vir, na legitimidade política, enfim na vida das pessoas. A sociedade ficou refém e desprotegida por inteiro. Os berros ouvidos foram dos ruralistas inseridos em cadeias agroindustriais sofisticadas para a exportação. Ecoaram em menor tom os gritos dos hospitais públicos, dos pequenos agricultores, do transporte coletivo, dos logradouros periféricos, dos cárceres medievais, e dos pobres sem poder de compra de alimentos encarecidos pela usura e aproveitadores de ocasião. A população simbolizada na amorfa classe média, aceitou resignada e até apoiou a greve, sem avaliar o "perde-ganha". Revolta emocional e intempestiva ao status quo vigente. Pesquisas apuraram que oitenta e sete por cento da população apoiou à greve. Curiosamente, a mesma proporção recusou os custos para si próprio. Para o geógrafo e humanista Milton Santos, "a classe média não quer direitos, ela quer privilégios, custe os direitos de quem custar". Uma contradição a ser explicada.
Nessa inacreditável trapalhada estatal, acalmaram provisoriamente os caminhoneiros, mas não a sociedade. Não foram identificados os atores ocultos da paralisação, os ganhadores de sempre. Realçou a carência de lideranças e mediadores, um traço dos vícios da nossa história autoritária. O Brasil, detém o maior número de linchamentos no mundo, em média um por dia. Os fenômenos sociais são próprios de um novo tempo. Existe uma pauta estratégica diferente do tempo da Guerra Fria. Governar na atualidade, é renunciar o modelo vigente por meio século no interior do Estado brasileiro. Predominam promessas de crédito e consumo como base de inserção social no Estado pré-globalizado, em moldes populista, capturado por grupos de interesses, adverso aos significados atuais. 
Para o professor e sociólogo Zander Navarro, observador atento da atual sociabilidade, a greve dos caminhoneiros, a exemplo da "crise atual é simples de ser diagnosticada. Vivemos uma conjuntura sob a qual a minúscula elite do andar de cima não tem conseguido oferecer as migalhas usuais ao imenso povão do andar de baixo, particularmente a manutenção da oferta de empregos de baixos salários. E a pequena classe média intermediária, confusa, ora atira para um lado, ora para o outro. A partir desse quase simplório diagnóstico é que adentram os outros fatores do período recente". 
* Manoel Moacir Costa Macêdo, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra