Oração a São Pedro

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Publicada em 29/06/2018 às 07:02:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Chegará o dia quan-
do as crônicas de ju-
nho serão redigidas com palavras de pura alegria, sem lamentos por chuva e protestos de palco para os sanfoneiros. Até lá, as nuvens magras no céu do sertão, o horizonte seco do Brasil profundo, vão estremecer a cada gota de suor e de lágrima, como se diante de uma anunciação. 
A voz forte da cantora Amorosa, por exemplo, é chuva fina em solo esturricado, prenhe de esperanças. Ela canta "Amor eu tô sofrendo...", emprestando os abismos no peito para os versos de Ismar Barreto, e o espírito da aldeia se arrepia inteiro, dos pés à cabeça, impressionado com a beleza de raízes enterradas no próprio quintal.
Como Amorosa, ave rara, no entanto, existem muitos outros. Gente que faz rir e chorar e conhece os mistérios da poesia como a palma de sua mão. Mestrinho é um; Cobra Verde é outro. E quando falam a sua gente, em floreios de sanfona, cumprem uma promessa de grandeza que só não vinga de uma vez por todas em razão de podres poderes e vil metal.
A indústria da seca, alimentada para o proveito econômico e eleitoreiro dos capitalistas da fome, almas sebosas, sem coração, explora também a sensibilidade nativa, mantida a pão e água. O talento genuíno não floresce do dia para a noite, não cresce feito mato,  tem um tempo de maturação incompatível com a pressa gananciosa dos empresários do entretenimento. Forró de plástico, por outro lado, é produto descartável, sucesso fácil de fabricar.
Hoje, nenhuma palavra a mais sobre a Calcinha Preta e Devinho Novaes, ocupando um palco que, em verdade, eles sabem que não lhes pertence. Neste dia de São Pedro, louvemos a quem bem o merece, em forma de oração.

Chegará o dia quan- do as crônicas de ju- nho serão redigidas com palavras de pura alegria, sem lamentos por chuva e protestos de palco para os sanfoneiros. Até lá, as nuvens magras no céu do sertão, o horizonte seco do Brasil profundo, vão estremecer a cada gota de suor e de lágrima, como se diante de uma anunciação. 
A voz forte da cantora Amorosa, por exemplo, é chuva fina em solo esturricado, prenhe de esperanças. Ela canta "Amor eu tô sofrendo...", emprestando os abismos no peito para os versos de Ismar Barreto, e o espírito da aldeia se arrepia inteiro, dos pés à cabeça, impressionado com a beleza de raízes enterradas no próprio quintal.
Como Amorosa, ave rara, no entanto, existem muitos outros. Gente que faz rir e chorar e conhece os mistérios da poesia como a palma de sua mão. Mestrinho é um; Cobra Verde é outro. E quando falam a sua gente, em floreios de sanfona, cumprem uma promessa de grandeza que só não vinga de uma vez por todas em razão de podres poderes e vil metal.
A indústria da seca, alimentada para o proveito econômico e eleitoreiro dos capitalistas da fome, almas sebosas, sem coração, explora também a sensibilidade nativa, mantida a pão e água. O talento genuíno não floresce do dia para a noite, não cresce feito mato,  tem um tempo de maturação incompatível com a pressa gananciosa dos empresários do entretenimento. Forró de plástico, por outro lado, é produto descartável, sucesso fácil de fabricar.
Hoje, nenhuma palavra a mais sobre a Calcinha Preta e Devinho Novaes, ocupando um palco que, em verdade, eles sabem que não lhes pertence. Neste dia de São Pedro, louvemos a quem bem o merece, em forma de oração.