40 anos de 'Refavela'

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Publicada em 05/07/2018 às 07:18:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Um quarentão com 
tudo em cima. 'Re
favela' (1978), o disco mais precioso já gravado pelo baiano Gilberto Gil, completou quatro décadas sem perder o vigor. Hoje, o esforço de aproximação com as periferias globais talvez não impressione o ouvinte menos atento, alheio ao contexto de então. Lá atrás, antes de a fusão virar regra, no entanto, a pegada do terceiro mundo não havia ainda sido assimilada pela indústria fonográfica. Gil foi pioneiro, um desbravador.
Basta dar uma olhada nos principais discos lançados no mesmo ano. Em 1978, as fronteiras musicais estavam perfeitamente delimitadas, numa espécie de geografia política sensível. Punk Rock de um lado, Disco Music do outro. O reggae era um produto tão exótico quanto puro. A ousadia de Gil consistiu justamente em dar de ombros para a rigidez dos gêneros estabelecidos e se dispor ao encontro de sonoridades irmãs. Brasil, África, Jamaica e Caribe foram finalmente compreendidos como territórios afetivos, onde o ritmo manda e só o coração fala alto.
Para além de sua formalidade revolucionária, de um rock soando a baião, 'Refavela' antecipa também um discurso e um lirismo que só floresceria plenamente agora, quando as questões de pele, a negritude orgulhosa e a buscar por raízes ancestrais são exploradas a torto e direito, em militância raivosa, produtos cosméticos e até programas de televisão. Ao contrário das palavras odiosas despejadas sob o pretexto do engajamento hodierno, no entanto, Gil é um poeta sintonizado com as vibrações positivas do universo. Mesmo quando pega pesado, aguerrido, ele jamais perde a ternura.
Com 'Refavela', Gil anunciou uma 'Era nova', para evocar o título de uma faixa presente no próprio disco. A promessa ali realizada em forma de música, contudo, não foi ainda cumprida. O otimismo da própria descoberta, um continente místico de tambores e sonoridades outras, degenerou em desencanto. Em entrevista concedida ao jornal El País, o músico, em turnê pela Europa, confessa certo cansaço. Mas não desiste de cantar a mesma verdade, urgente: O melhor lugar do mundo é sempre aqui e agora.

Um quarentão com  tudo em cima. 'Re favela' (1978), o disco mais precioso já gravado pelo baiano Gilberto Gil, completou quatro décadas sem perder o vigor. Hoje, o esforço de aproximação com as periferias globais talvez não impressione o ouvinte menos atento, alheio ao contexto de então. Lá atrás, antes de a fusão virar regra, no entanto, a pegada do terceiro mundo não havia ainda sido assimilada pela indústria fonográfica. Gil foi pioneiro, um desbravador.
Basta dar uma olhada nos principais discos lançados no mesmo ano. Em 1978, as fronteiras musicais estavam perfeitamente delimitadas, numa espécie de geografia política sensível. Punk Rock de um lado, Disco Music do outro. O reggae era um produto tão exótico quanto puro. A ousadia de Gil consistiu justamente em dar de ombros para a rigidez dos gêneros estabelecidos e se dispor ao encontro de sonoridades irmãs. Brasil, África, Jamaica e Caribe foram finalmente compreendidos como territórios afetivos, onde o ritmo manda e só o coração fala alto.
Para além de sua formalidade revolucionária, de um rock soando a baião, 'Refavela' antecipa também um discurso e um lirismo que só floresceria plenamente agora, quando as questões de pele, a negritude orgulhosa e a buscar por raízes ancestrais são exploradas a torto e direito, em militância raivosa, produtos cosméticos e até programas de televisão. Ao contrário das palavras odiosas despejadas sob o pretexto do engajamento hodierno, no entanto, Gil é um poeta sintonizado com as vibrações positivas do universo. Mesmo quando pega pesado, aguerrido, ele jamais perde a ternura.
Com 'Refavela', Gil anunciou uma 'Era nova', para evocar o título de uma faixa presente no próprio disco. A promessa ali realizada em forma de música, contudo, não foi ainda cumprida. O otimismo da própria descoberta, um continente místico de tambores e sonoridades outras, degenerou em desencanto. Em entrevista concedida ao jornal El País, o músico, em turnê pela Europa, confessa certo cansaço. Mas não desiste de cantar a mesma verdade, urgente: O melhor lugar do mundo é sempre aqui e agora.