DA FORMA DE FAZER MENINO À FORMA DA NOVA POLÍTICA

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Publicada em 15/07/2018 às 00:34:00

Preocupado com o filho, um rapaz que já passara dos trinta e não namorava nem queria casar, os pais arrumaram para ele um casamento a contragosto com uma jovem extra virgem como o melhor azeite português, e por isso sem nenhuma experiência na cama, como se costuma dizer.
Passava o tempo e, mais ansiosos ainda, os país passaram da preocupação a um quase desespero, quando descobriram que o rapaz não encontrara um jeito de consumar o ato, como costumeiramente se diz, com muito recato.
Pessoas simples e precariamente instruídas, muito menos ainda sobre questões de sexo, recorreram a um curandeiro barato que se diferenciava dos outros por fazer as suas rezas rimando, em improvisados versos.
O benzedor começou seu ofício colocando os dois jovens nús numa cama e, passando um galho de aroeira sobre seus corpos, foi recitando: "A fôrma de fazer menino não é coisa de muito segredo fica embaixo do umbigo meio palmo e acima do ... três dedos".
Depois, foi explicitando mais didaticamente como o jovem casal deveria proceder.
Mas não houve jeito, o rapaz rejeitava aquela fôrma, que absolutamente não lhe despertava os frêmitos naturais que percorrem o corpo. Assim, por mais que o induzissem, não encontrava naquilo o objeto dos seus desejos.
Fazendo-se uma analogia com a política, facilmente se constata porque tanto se fala e nunca se faz a esperada reforma, que retiraria boa parte dos atuais vícios e começaria a transformar a vida pública numa atividade menos mal vista, como está sendo agora.
Qualquer pessoa dotada de um mínimo de bom senso logo imaginaria que os principais interessados nessa salutar reforma seriam, evidentemente, os próprios políticos.
Mas, decepcionantemente, o que ocorre é o contrário. O que pareceria recomendável, e até vantajoso para todos, se transforma numa coisa assim como aquela rejeitada "fôrma de fazer menino", que causava náuseas no rapaz, que por ela não se sentia atraído. No caso da política, o que assusta é a forma como se pretende fazer a mudança. São os políticos que seriam encarregados de fazer esse pretendido projeto que a sociedade tanto acalenta, como instrumento, até, de regeneração ética. Ele jamais será aprovado no atual parlamento brasileiro, simplesmente porque, do mesmo jeito que o rapaz virgem e assexuado rejeitava a fôrma, para os políticos a forma como deveria ser feita a transformação da política não lhes interessa.
De certa maneira, os políticos, por mais estranho ou revoltante que pareça, não estão errados. É que eles lidam com o mundo real da política. E há, entre eles, os que são decentes, honrados e têm de tapar o nariz para fazerem a travessia no lamaçal sem sujarem muito as solas dos sapatos.
O que existe de desvirtuado na política é consequência direta da nossa sociedade, que está muito longe de poder ser apresentada como um cenário de virtudes.
A corrupção é um vício já tolerantemente institucionalizado, está presente em todos os poderes. Pode um ministro da mais alta corte de justiça ser dono de um Instituto jurídico que recebe generosos aportes de verbas federais?
Pode um ministro da mais alta corte "assessorar" o Presidente da República, ser recebido altas horas, sem constar na agenda, e indicar nomes para os altos escalões do governo?
E o que dizer de um ministro do Supremo que concede liberdade a um perigoso e conhecido traficante de drogas e assassino, fazendo no alvará a singela observação: "caso não existam outros processos". A ingenuidade do ministro juntou-se ao equívoco do diretor do presídio, que não leu a "advertência" e liberou o bandido.
O que dizer, então, de um Supremo, onde se sabe que existem alguns conspícuos membros que nada mais são do que vigaristas togados?
Perguntas como essas, incômodas, podem ser produzidas às centenas, abrangendo questões igualmente atípicas e dirigidas a incontáveis setores da República, e se aplicariam, também, a uma outra infinidade de setores privados.
A verdade é que um povo tem os políticos que merece e o nosso povo é formado, ainda, por milhões de analfabetos e analfabetos funcionais, aqueles, às vezes até portadores de diplomas, mas que não sabem escrever ou interpretar um texto.
É no meio desse povo carente de tudo, de educação, de saúde, de segurança, de civilização, de dignidade também, que os políticos se movimentam e batalham pelo voto. Sem fazerem assistencialismo, sem gastarem dinheiro com líderes políticos ou cabos eleitorais que conduzem a manada, dificilmente terão êxito.
Não adianta ocultar nem tentar esconder, com leizinhas bonitinhas e de meia tigela, a realidade de uma sociedade desigual, tantas vezes cruel.
É difícil encontrar políticos rigorosamente éticos num país onde ainda não se aprendeu a soletrar essa palavra e, muito menos, a entendê-la.
Mas não aprenderemos com ditaduras, nem elegendo "salvadores" demagogos, que conseguem algum sucesso exatamente porque se beneficiam da nossa incivilidade.
O que precisamos mesmo é de um banho civilizatório, que poderá durar dez, vinte, trinta anos, até que as próximas gerações possam viver num país que, agora, ainda conseguimos sonhar com ele. Ou seja, faltam-nos, como ao rapaz tímido, inexperiente e misógino, assexuado, a tesão que é necessária, tanto para o sexo, como para tocar as grandes transformações sociais, econômicas, políticas e morais que nos fazem falta.