Homenagem a Hilda Hilst mergulha Flip em questões do corpo e da alma

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Publicada em 25/07/2018 às 05:10:00

 

"Uma coisa acontece dentro de mim para eu me colocar em determinada posição para escrever. Junto com essa coisa vem o que você sentiu, o que você amou, leu, e vem também um lastro de escolaridade, de cultura. Porque não existe 'não, escrever tem que ser espontâneo'. Qualquer cretino pode ser espontâneo. Então, eu acho que a literatura vem desse conflito entre a ordem que você quer e a desordem que você tem".
Mediadora desse conflito em poesia e prosa, Hilda Hilst é a autora homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty de 2018, em uma edição que promete debater aspectos mais introspectivos, conectando-se a questões do corpo, da alma e do erotismo, sem abandonar debates de escopo social como o racismo e a igualdade de gênero.
Em trechos como o citado acima, presentes na coletânea de entrevistas "Fico besta quando me entendem", a autora paulista mostra o bom humor, a intensidade e a profundidade que fazem de sua obra um desafio para os leitores interessados em investigá-la e em investigar-se.
"Quantas vezes, pessoas que eu tinha tanta vontade que entendessem o meu trabalho dizem: 'Hilda, eu não consegui saber do que se trata'. Então, eu imagino que exista também gradações de emoções e eu seja uma pessoa com uma intensidade meio desesperada, uma lucidez também desesperada", traz o compilado, organizado por Cristiano Diniz.
A curadora da Flip, Joselia Aguiar, acredita que a escolha da homenageada trará discussões mais existenciais e filosóficas ao evento, sem abrir mão da diversidade que marcou a edição anterior, que homenageou Lima Barreto, um autor negro cujo projeto literário tocou diretamente em questões sociais de um país marcado pelos séculos de escravidão.
"Essa Flip de 2018 está mais voltada para o mundo de dentro. A gente tem um programa plural com autores e autoras homens e mulheres, brancos e negros, conversando sobre questões como o amor, a morte, o desejo, a transgressão na arte, a escrita de si, e, ao mesmo tempo, mesas com debates mais candentes".
Os temas existenciais são também universais e partem da obra da própria autora para encontrar pontos de contato entre os convidados deste ano, que chegam das mais variadas partes do mundo como Rússia, Congo, Egito, Portugal e Argentina.
Essa literatura que dialoga com o mundo, no entanto, demorou a ter seu espaço reconhecido no Brasil. Morta em 2004, a escritora paulista não chegou a ver a grande notoriedade que seu nome adquiriu nos últimos anos, quando ganhou destaque na crítica, entre os leitores e na academia.
"A Hilda tem uma literatura um pouco mais complexa, escrita de um jeito que naquele momento não encontrou seus leitores, mas que hoje parece encontrar mais. Os leitores estão mais abertos a uma literatura que tem uma certa estranheza, que seja mais exigente", diz Joselia, que acredita que o isolamento da autora e o machismo também foram fatores importantes para que sua contribuição para a literatura brasileira demorasse a ser resgatada. (Agência Brasi)

"Uma coisa acontece dentro de mim para eu me colocar em determinada posição para escrever. Junto com essa coisa vem o que você sentiu, o que você amou, leu, e vem também um lastro de escolaridade, de cultura. Porque não existe 'não, escrever tem que ser espontâneo'. Qualquer cretino pode ser espontâneo. Então, eu acho que a literatura vem desse conflito entre a ordem que você quer e a desordem que você tem".
Mediadora desse conflito em poesia e prosa, Hilda Hilst é a autora homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty de 2018, em uma edição que promete debater aspectos mais introspectivos, conectando-se a questões do corpo, da alma e do erotismo, sem abandonar debates de escopo social como o racismo e a igualdade de gênero.
Em trechos como o citado acima, presentes na coletânea de entrevistas "Fico besta quando me entendem", a autora paulista mostra o bom humor, a intensidade e a profundidade que fazem de sua obra um desafio para os leitores interessados em investigá-la e em investigar-se.
"Quantas vezes, pessoas que eu tinha tanta vontade que entendessem o meu trabalho dizem: 'Hilda, eu não consegui saber do que se trata'. Então, eu imagino que exista também gradações de emoções e eu seja uma pessoa com uma intensidade meio desesperada, uma lucidez também desesperada", traz o compilado, organizado por Cristiano Diniz.
A curadora da Flip, Joselia Aguiar, acredita que a escolha da homenageada trará discussões mais existenciais e filosóficas ao evento, sem abrir mão da diversidade que marcou a edição anterior, que homenageou Lima Barreto, um autor negro cujo projeto literário tocou diretamente em questões sociais de um país marcado pelos séculos de escravidão.
"Essa Flip de 2018 está mais voltada para o mundo de dentro. A gente tem um programa plural com autores e autoras homens e mulheres, brancos e negros, conversando sobre questões como o amor, a morte, o desejo, a transgressão na arte, a escrita de si, e, ao mesmo tempo, mesas com debates mais candentes".
Os temas existenciais são também universais e partem da obra da própria autora para encontrar pontos de contato entre os convidados deste ano, que chegam das mais variadas partes do mundo como Rússia, Congo, Egito, Portugal e Argentina.
Essa literatura que dialoga com o mundo, no entanto, demorou a ter seu espaço reconhecido no Brasil. Morta em 2004, a escritora paulista não chegou a ver a grande notoriedade que seu nome adquiriu nos últimos anos, quando ganhou destaque na crítica, entre os leitores e na academia.
"A Hilda tem uma literatura um pouco mais complexa, escrita de um jeito que naquele momento não encontrou seus leitores, mas que hoje parece encontrar mais. Os leitores estão mais abertos a uma literatura que tem uma certa estranheza, que seja mais exigente", diz Joselia, que acredita que o isolamento da autora e o machismo também foram fatores importantes para que sua contribuição para a literatura brasileira demorasse a ser resgatada. (Agência Brasi)