O ESTATUTO DO MAU POLÍTICO (IV)

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Publicada em 28/07/2018 às 05:52:00

 

* Manoel Moacir Costa Macêdo
O filósofo e ex-ministro da Educação da França, Luc Ferry, defende que "a ideia revolucionária morreu, desqualificada para sempre pelo fracasso da União Soviética e regimes totalitários. Isso dito, é verdade que a globalização liberal suscita grunhidos de ódio, agrupados em torno da ideia multiforme do altermundialismo. Nos anos trinta, na Europa, o mundo liberal provocava dois tipos de críticas: as que evocavam a restauração de um passado perdido e as que imaginavam um 'futuro radiante'. Umas desembocaram no fascismo; as outras, no sovietismo. Esses modelos de referência foram desacreditados pela história. Porém, não sobrou muito mais que o gesto da crítica, depois que os modelos positivos, que podiam lhe conferir um sentido 'construtivo', desapareceram".  
A queda do muro de Berlim, simbologia da Guerra Fria, polarizada entre os sistemas capitalista e comunista, significou o fim do leninismo-stalinismo e em consequência caiu também o sonho comunista, o projeto de nacionalização dos meios de produção e da supressão da propriedade privada. Isso significou a vitória e a legitimação do capitalismo, por sua vez, da economia de mercado. No mundo globalizado e capitalista, cabe ao Estado intermediar os interesses entre capital e trabalho, e os conflitos entre classes sociais. Nas sociedades democráticas, esse poder estatal, estar subordinado à escolha popular, pelo processo de votar e ser votado. 
Diz ainda Ferry, que "teremos de aprender a fazer uma 'crítica interna' ao mundo democrático-liberal. Por exemplo, exigir que esse modelo cumpra as promessas de liberdade e igualdade, bastante negligenciadas. Daqui por diante, a crítica interna será a única realmente subversiva". Verdade e política em sociedades em crises, não andam de mãos dadas. Evidências recentes mostram que os partidos políticos estão longe dos eleitores. Uma expressiva abstenção, e indisposição de comparecer às urnas, demonstram uma descrença anunciada na democracia representativa. Em eleições recentes, ocorreram abstenções, e uma porção significativa dos votos foram brancos e nulos. Uma suposta reação aos "maus políticos".  Para o Estatuto do Mau Político, isso quer dizer:
Artigo Décimo Oitavo: O povo não sabe votar
§10 - Tudo que é de interesse social é complicado, debatido, e descartado;
§20 - O povo gosta de pão e circo, não apresente projetos estruturantes;
§30 - Patrocine festas; elas dão votos e são custeadas por verbas do mandato;
§40 - Não discurse sobre monopólio, igualdade, e fraude, mesmo no plenário vazio;
§50 - As emendas individuais para os redutos eleitorais, são prioridades do mandato.
Artigo Décimo Nono: O apressado come cozido e rápido
I - O futuro e o passado, não constam no mapa mental do eleitor, mas o presente;
 II - Não deixe rastros, eles podem comprometer o decoro parlamentar; 
III - Jamais assine requerimentos sindicais e da esquerda, esteja sempre apressado; 
 IV - Telefone somente o necessário e poucas palavras, para evitar os grampos;
V - Ocupe o plenário para discursos nas segundas e sextas-feiras, ele estará vazio.
Artigo Vigésimo: O que os olhos veem o coração sente
§ 10 - Nunca tenha arrependimentos e remorsos, a consciência nunca dói;
§ 20 - Não valorize as avaliações do mandato, concentre na eleição e no poder; 
§ 30 - Você não irá consertar o mundo, outros fazem como você;
§ 40 - Transparência, e justiça, são palavras dos poetas, e não dos maus políticos;
§ 50 - Lembre que és um mau parlamentar no Congresso mais caro do mundo.
Artigo Vigésimo Primeiro: Amigo não tem defeito, inimigo se não tiver coloque
I - Discurse pouco, não aparteie, nem apresente projetos sobre educação e saúde;
II - Não denuncie os privilégios da Justiça, Polícia Federal, e Ministério Público;
III - Não poupe os discursos sobre homenagens, títulos honoríficos, e aniversários;
IV - Apartes em plenários para elogios, nunca para críticas, ou denúncias;
V - Siga nas votações os líderes do governo, não questione os projetos dos aliados.
Artigo Vigésimo Segundo: Quem é visto é lembrado
§10 - Nunca esteja ao redor da mesa diretora, para não ser visto e fotografado;
§20 - Nas comissões, chegue cedo, assine a presença, e retorne ao gabinete;
§30 - Não falte aos batizados, enterros, festas, e conspirações nas bases;
§40 - As trocas de partidos e de alianças não exigem fidelidade;
§50 - O mandato é uma conquista difícil, não seja parlamentar de "um mandato só". 
Numa sociedade desigual e discriminatória como a brasileira, urge a adoção de políticas que promovam a inclusão social. Não é aceitável manter na invisibilidade a maioria pobre que vive em favelas ou apodrece em masmorras carcerárias, sem acesso a justiça, nem as elementares conquistas da vida social. A democracia representativa, na expressão do povo, como o agente político de votar e ser votado, é protagonista de seu destino, e não vítima dele. Para o Professor Daniele Giglioli da Universidade de Bergamo na Itália, "uma sociedade com vítimas, significa que tem destino e identidade decididos por outros".
* Manoel Moacir Costa Macêdo, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra

* Manoel Moacir Costa Macêdo

O filósofo e ex-ministro da Educação da França, Luc Ferry, defende que "a ideia revolucionária morreu, desqualificada para sempre pelo fracasso da União Soviética e regimes totalitários. Isso dito, é verdade que a globalização liberal suscita grunhidos de ódio, agrupados em torno da ideia multiforme do altermundialismo. Nos anos trinta, na Europa, o mundo liberal provocava dois tipos de críticas: as que evocavam a restauração de um passado perdido e as que imaginavam um 'futuro radiante'. Umas desembocaram no fascismo; as outras, no sovietismo. Esses modelos de referência foram desacreditados pela história. Porém, não sobrou muito mais que o gesto da crítica, depois que os modelos positivos, que podiam lhe conferir um sentido 'construtivo', desapareceram".  
A queda do muro de Berlim, simbologia da Guerra Fria, polarizada entre os sistemas capitalista e comunista, significou o fim do leninismo-stalinismo e em consequência caiu também o sonho comunista, o projeto de nacionalização dos meios de produção e da supressão da propriedade privada. Isso significou a vitória e a legitimação do capitalismo, por sua vez, da economia de mercado. No mundo globalizado e capitalista, cabe ao Estado intermediar os interesses entre capital e trabalho, e os conflitos entre classes sociais. Nas sociedades democráticas, esse poder estatal, estar subordinado à escolha popular, pelo processo de votar e ser votado. 
Diz ainda Ferry, que "teremos de aprender a fazer uma 'crítica interna' ao mundo democrático-liberal. Por exemplo, exigir que esse modelo cumpra as promessas de liberdade e igualdade, bastante negligenciadas. Daqui por diante, a crítica interna será a única realmente subversiva". Verdade e política em sociedades em crises, não andam de mãos dadas. Evidências recentes mostram que os partidos políticos estão longe dos eleitores. Uma expressiva abstenção, e indisposição de comparecer às urnas, demonstram uma descrença anunciada na democracia representativa. Em eleições recentes, ocorreram abstenções, e uma porção significativa dos votos foram brancos e nulos. Uma suposta reação aos "maus políticos".  Para o Estatuto do Mau Político, isso quer dizer:
Artigo Décimo Oitavo: O povo não sabe votar
§10 - Tudo que é de interesse social é complicado, debatido, e descartado;
§20 - O povo gosta de pão e circo, não apresente projetos estruturantes;
§30 - Patrocine festas; elas dão votos e são custeadas por verbas do mandato;
§40 - Não discurse sobre monopólio, igualdade, e fraude, mesmo no plenário vazio;
§50 - As emendas individuais para os redutos eleitorais, são prioridades do mandato.
Artigo Décimo Nono: O apressado come cozido e rápido
I - O futuro e o passado, não constam no mapa mental do eleitor, mas o presente;
 II - Não deixe rastros, eles podem comprometer o decoro parlamentar; 
III - Jamais assine requerimentos sindicais e da esquerda, esteja sempre apressado; 
 IV - Telefone somente o necessário e poucas palavras, para evitar os grampos;
V - Ocupe o plenário para discursos nas segundas e sextas-feiras, ele estará vazio.
Artigo Vigésimo: O que os olhos veem o coração sente
§ 10 - Nunca tenha arrependimentos e remorsos, a consciência nunca dói;
§ 20 - Não valorize as avaliações do mandato, concentre na eleição e no poder; 
§ 30 - Você não irá consertar o mundo, outros fazem como você;
§ 40 - Transparência, e justiça, são palavras dos poetas, e não dos maus políticos;
§ 50 - Lembre que és um mau parlamentar no Congresso mais caro do mundo.
Artigo Vigésimo Primeiro: Amigo não tem defeito, inimigo se não tiver coloque
I - Discurse pouco, não aparteie, nem apresente projetos sobre educação e saúde;
II - Não denuncie os privilégios da Justiça, Polícia Federal, e Ministério Público;
III - Não poupe os discursos sobre homenagens, títulos honoríficos, e aniversários;
IV - Apartes em plenários para elogios, nunca para críticas, ou denúncias;
V - Siga nas votações os líderes do governo, não questione os projetos dos aliados.
Artigo Vigésimo Segundo: Quem é visto é lembrado
§10 - Nunca esteja ao redor da mesa diretora, para não ser visto e fotografado;
§20 - Nas comissões, chegue cedo, assine a presença, e retorne ao gabinete;
§30 - Não falte aos batizados, enterros, festas, e conspirações nas bases;
§40 - As trocas de partidos e de alianças não exigem fidelidade;
§50 - O mandato é uma conquista difícil, não seja parlamentar de "um mandato só". 
Numa sociedade desigual e discriminatória como a brasileira, urge a adoção de políticas que promovam a inclusão social. Não é aceitável manter na invisibilidade a maioria pobre que vive em favelas ou apodrece em masmorras carcerárias, sem acesso a justiça, nem as elementares conquistas da vida social. A democracia representativa, na expressão do povo, como o agente político de votar e ser votado, é protagonista de seu destino, e não vítima dele. Para o Professor Daniele Giglioli da Universidade de Bergamo na Itália, "uma sociedade com vítimas, significa que tem destino e identidade decididos por outros".
* Manoel Moacir Costa Macêdo, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra