AS CIDADES AS RUAS E O PASSAR DO TEMPO

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Publicada em 29/07/2018 às 00:50:00

Pelas ruas das cidades e nos nomes que as identificam, se faz um passeio pelo tempo. Quase sempre, dando nome às ruas estão personalidades que ajudaram na construção da história particular de cada logradouro, da cidade, do país, e em casos raríssimos, que foram personagens importantes para o mundo, ou, até, há alguns que nada fizeram, e mesmo assim receberam o indevido galardão, póstumo, ou ainda em vida.
Mas, no nosso caso sergipano, as homenagens imerecidas não são numerosas.

Há em Sergipe um caso emblemático de adulação explicita.  Juntaram-se, prefeito, "figuras gradas da sociedade" como se dizia naqueles tempos, e pespegaram o nome de Darcilena, no nascente município de Cedro de São João. O inovador topônimo reunia os nomes de dona Darci, esposa do ditador Getúlio, e dona Helena, mulher do poderoso interventor "tenente" Maynard Gomes. Nem é preciso dizer que a redemocratização varreu do mapa Darcilena e ressurgiu Cedro de São João, o município das "lagoas de arroz", hoje, tão ecologicamente tentando ser enquadradas por pessoas como o professor Ailton Rocha.

Nesses surtos de leis moralizadoras ou modernizantes que periodicamente nos acometem, decidiu-se que não mais deveria ser permitido dar nomes de pessoas vivas às instalações publicas.
Aqui, o Ministério Público começou a agir. E os nomes foram sendo mudados.
Agora, a questão ganha uma dimensão maior, com a exigência de que seja retirado o nome de Heráclito Rolemberg da larga e extensa avenida, ladeada por prédios residenciais, muito comércio, indústrias, escolas, consultórios, clinicas.  Não há ninguém satisfeito com a mudança.

O empresário Ibrahim Salim que tem fábrica e comércio naquela movimentada e populosa artéria, é um dos que estão inconformados com a troca de nome, exatamente pelas consequências que serão geradas.  Haverá o custo, a terrível burocracia que as empresas e pessoas físicas terão de enfrentar para atualização dos seus documentos,  das suas licenças. Será um calvário a ser percorrido por milhares de pessoas. Heráclito tem a culpa de estar vivo, e de ter, quando prefeito de Aracaju construído aquela avenida, e prestado bons serviços quando político, a Aracaju e a Sergipe. Isso é o que se depreende dessa estranha pedagogia da lei que tentaria evitar o abuso personalista, alcançando pessoas há muito tempo fora do poder.
 Seria justa a preocupação diante de possíveis abusos cometidos por políticos que poderiam, quando no poder, auferir benefícios eleitorais, espalhando seu nome por tudo quanto fosse público.
Multidões vão ao Batistão, também ao hospital João Alves Filho, passam pela avenida Heráclito Rolemberg, frequentam o Mercado Municipal Albano Franco, vivem nos conjuntos Augusto Franco, Albano Franco, João Alves Filho; passeiam nos parques governador Antônio Carlos Valadares, Augusto Franco, embarcam e desembarcam na rodoviária Jose Rolemberg Leite. São ex-governadores e um ex-prefeito de Aracaju. Albano, João Alves e Heráclito estão vivos, mas já deixaram a vida pública e João está muito doente. Deles, só o senador Valadares permanece ativamente na vida pública.
 Albano já teve seu nome retirado de vários locais, o que é uma inominável injustiça a um homem público idoso, que continua servindo a Sergipe. Agora mesmo fez parte do grupo que analisou modelos, a pedido do governador Belivaldo Chagas, para que se evite o fechamento da FAFEN, um crime que o governo Temer quer perpetrar contra Sergipe, a Bahia e o Brasil.
 Na época das homenagens não havia impedimentos legais, deveria haver, tão somente o bom senso, para que se evitassem os exageros. Não houve bom senso na época, e parece não existir agora, quando se exige a correção de algo que não era ilícito e vem uma lei retroagindo para punir. O próprio Ministério Público também aderiu à fartura de homenagens. O antigo edifício que o MP ocupava, na Praça Fausto Cardoso, tinha, em cada andar, o nome de um ex-governador vivo.
 Retiraram também do prédio da Assembleia a denominação: Palácio João Alves Filho. João o construiu, da mesma forma que construiu 4 perímetros irrigados, cada um com o nome que ele próprio lhes deu: Califórnia, Platô de Neópolis, Jacarecica, Jabeberi. Construiu a Orla da Atalaia, a Ponte Barra-Aracaju, o Hospital João Alves, a Orla Sarney. Onde se chega em Sergipe tem obra, tem realização de João Alves. Algumas, apenas, entre tantas, levam o seu nome. Ele agora está doente, talvez sem condições de acompanhar o que se passa. Façamos a ele, nesse seu silencio, a homenagem de não criar-lhe mais constrangimentos em vida. Este escrevinhador que sempre fez oposição a João Alves e que nele nunca votou, recebeu, sem ter-lhe sequer solicitado, num gesto elegante da parte dele, o voto, quando foi escolhido para a Academia Sergipana de Letras. Isso o revela como um homem sem ódios e sem ressentimentos.
O presidente do Poder Legislativo, Luciano Bispo, teve toda razão quando resistiu o quanto pode, para cumprir a ordem um tanto fora de ordem. Por fim, deu à Assembleia o nome de Palácio Construtor João Alves, o pai, que já morreu.