O inferno dos outros

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No interior da bolha, só gente fina, elegante e sincera
No interior da bolha, só gente fina, elegante e sincera

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Publicada em 08/08/2018 às 07:29:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Quando menos es
pera, o sujeito dá 
de cara com uma parede de vidro, surpreendido pelos limites invisíveis da própria bolha. Ele descobre assim a extensão pouca de suas certezas caducas. E, ante a inesperada variedade do mundo, responde sempre da mesma forma, entre o horror e a maravilha, estupefato.
O homem letrado, leitor de todos os jornais, ciente dos problemas e questões mais urgentes do seu tempo, tem ainda um conhecimento da realidade sob qualquer aspecto muito limitado. Ele guarda sinfonias inteiras no aparelho celular. E, tão logo se acomoda no Uber, solicita ao motorista que desligue o rádio.
Tal caricatura, a de um personagem pedante, o adulto bem informado, talvez peque pela distinção exagerada entre os postulados da alta cultura e o tal do senso comum. Mas, a bem da verdade, além da redoma emborcada sobre uma pequena coleção de verdades individuais, resta a cada um somente o alarido incompreensível do gosto médio. 
Pobre de quem olha a vida pela janela, no entanto. Estes acreditam, como aliás defende esta página, que 'As caravanas' de Chico Buarque é a música do ano. Na vida real, contudo, a tensão social nas praias cariocas, capturada de maneira magistral pelo músico/cronista, não merece nem um dedo de prosa. Segundo levantamento do G1, amparado nos dados fornecidos pelas plataformas de streaming, é de sofrência que o povo gosta.
Zé Neto & Cristiano, de quem eu mesmo nunca ouvi falar, são hoje os artistas brasileiros mais ouvidos no YouTube. No Spotify, os sertanejos ocupam cinco das primeiras 50 posições conquistadas pela brava gente. Para efeito de comparação, basta mencionar que sua santidade Gilberto Gil lançou 'OK, OK, OK' nas mesmas plataformas, depois de longo silêncio - uma canção mais ou menos oportuna, meio piegas, meio engajada. Adiantou nada.
É por essa e por outras que eu amo o conforto da minha bolha, lugar de gente fina, elegante e sincera. Encarno sim aquele garrancho de André Dahmer. Ironia das ironias, apesar da tecnologia acessível, o outro será sempre um selvagem, a falência das sociedades hiper conectadas.

Quando menos es pera, o sujeito dá  de cara com uma parede de vidro, surpreendido pelos limites invisíveis da própria bolha. Ele descobre assim a extensão pouca de suas certezas caducas. E, ante a inesperada variedade do mundo, responde sempre da mesma forma, entre o horror e a maravilha, estupefato.
O homem letrado, leitor de todos os jornais, ciente dos problemas e questões mais urgentes do seu tempo, tem ainda um conhecimento da realidade sob qualquer aspecto muito limitado. Ele guarda sinfonias inteiras no aparelho celular. E, tão logo se acomoda no Uber, solicita ao motorista que desligue o rádio.
Tal caricatura, a de um personagem pedante, o adulto bem informado, talvez peque pela distinção exagerada entre os postulados da alta cultura e o tal do senso comum. Mas, a bem da verdade, além da redoma emborcada sobre uma pequena coleção de verdades individuais, resta a cada um somente o alarido incompreensível do gosto médio. 
Pobre de quem olha a vida pela janela, no entanto. Estes acreditam, como aliás defende esta página, que 'As caravanas' de Chico Buarque é a música do ano. Na vida real, contudo, a tensão social nas praias cariocas, capturada de maneira magistral pelo músico/cronista, não merece nem um dedo de prosa. Segundo levantamento do G1, amparado nos dados fornecidos pelas plataformas de streaming, é de sofrência que o povo gosta.
Zé Neto & Cristiano, de quem eu mesmo nunca ouvi falar, são hoje os artistas brasileiros mais ouvidos no YouTube. No Spotify, os sertanejos ocupam cinco das primeiras 50 posições conquistadas pela brava gente. Para efeito de comparação, basta mencionar que sua santidade Gilberto Gil lançou 'OK, OK, OK' nas mesmas plataformas, depois de longo silêncio - uma canção mais ou menos oportuna, meio piegas, meio engajada. Adiantou nada.
É por essa e por outras que eu amo o conforto da minha bolha, lugar de gente fina, elegante e sincera. Encarno sim aquele garrancho de André Dahmer. Ironia das ironias, apesar da tecnologia acessível, o outro será sempre um selvagem, a falência das sociedades hiper conectadas.