O político, o economista e o plano

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Publicada em 09/08/2018 às 08:22:00

 

* João Sicsú 
Em algum lugar do tempo e do planeta, o político como protagonista e o economista como figurante trocam argumentos e revelam vontades e iniciativas para revigorar a economia por meio de um plano. O país enfrenta a pior situação econômica de sua história. O governo, desacreditado, adotou políticas que agravaram os problemas sociais.
O governo cortou gastos públicos e paralisou seus investimentos em nome do equilíbrio fiscal. A economia paralisou no fundo do poço. Estamos em uma economia com milhões de desempregados. Brotam pelas ruas de todos os lugares moradias precárias e moradores sem moradias. A fome voltou. A fraqueza alimentar e as condições de higiene deixam o ambiente propício a adquirir doenças.
A miséria alcançou os pobres e a pobreza atingiu a classe média. Houve sinais que indicam o aumento do número de suicídios, dos distúrbios mentais e do alcoolismo. Os vulneráveis foram os mais atingidos: idosos, mães e pais solteiros, crianças, indivíduos com deficiência e os negros pobres.
O ódio predominou. O motivo do ódio é que cidadãos ou grupos sociais são vistos, uns pelos outros, como concorrentes pelas vagas de emprego e pelos espaços públicos. Cresceu a impaciência com a democracia e com as leis. A intolerância emergiu. Quando a economia gera escassez, em paralelo, cria um ambiente favorável ao individualismo e de tensão e insatisfação entre cidadãos e grupos contra tudo e todos.
O político fez um diagnóstico preciso da situação:
 "As riquezas encolheram para níveis fantásticos, os impostos aumentaram, nossa capacidade de pagar qualquer coisa caiu, governos de todos os tipos têm enfrentado séria redução da arrecadação, o dinheiro está parado nas correntes de comércio...
E continua: as fazendas improdutivas estão por todos os lados, as poupanças de muitos anos de milhares de famílias se foram. Mais importante, uma multidão de cidadãos desempregados enfrenta o problema assustador da existência e um número igualmente grande trabalha por pouco dinheiro. Apenas um otimista tolo pode negar a realidade sombria do momento."
O político propôs o que fazer:
 "Esta nação pede ação e ação agora. Nossa principal e maior tarefa é colocar os cidadãos para trabalhar. Este não é um problema insolúvel se o enfrentarmos com sabedoria e coragem. Isso pode ser conseguido em parte pela contratação direta pelo próprio governo, tratando a tarefa como trataríamos a emergência de uma guerra, mas, ao mesmo tempo, por meio deste emprego, realizando projetos extremamente necessários para estimular e reorganizar o uso de nossos recursos naturais."
O político propôs como deve fazer a recuperação do emprego:
 "... Pela insistência de que os governos federal, estadual e local ajam urgentemente ... Pela unificação das atividades de socorro (à economia), que hoje são frequentemente dispersas, antieconômicas e desiguais. Isso pode ser apoiado pelo planejamento nacional e supervisão de todas as formas de transporte e de comunicações e outros serviços que tenham um caráter eminentemente público. ... Nós devemos agir e agir rapidamente."
O economista respondeu à pergunta frequente: É possível fazer isso tudo com o governo tendo déficit orçamentário?
Em uma situação econômica de tal gravidade, o economista sentenciou: "...Todos os governos têm grandes déficits." O ponto focal para ele não era a existência de déficits, mas onde deveriam ser utilizados os recursos tomados emprestados pelo governo para cobrir os déficits. Disse o economista: "É muito melhor, de qualquer forma, que os empréstimos sejam tomados para financiar obras, se essas obras forem de alguma utilidade, que para o propósito de pagar seguro-desemprego..."
Embasando a proposta do político, o economista revelou a sua confiança na inciativa e afirmou:
 "Eu enfatizo muito a política das autoridades públicas. São elas que devem começar o movimento de partida da atividade (econômica). Você não pode esperar que os indivíduos gastem muito mais quando já estão, alguns deles, se endividando. Você não pode esperar que empresários se lancem em ampliações dos negócios enquanto eles estão tendo perdas. São as autoridades públicas que devem encontrar maneiras sábias de gastar para dar início ao movimento de partida (da economia)."
O político tem um programa de obras públicas e de reformas. As obras públicas objetivam acabar com o desemprego o mais rápido possível. As reformas são para estabelecer uma nova institucionalidade para que a economia possa funcionar em completa normalidade social e com pleno emprego.
Ao saber do plano do político, o economista lhe escreveu uma carta com os seguintes dizeres: "Você está empenhado em dupla tarefa, recuperação e reforma: a recuperação do emprego e a aprovação das reformas empresariais e sociais - que estão muito atrasadas. Para a primeira, velocidade e resultados rápidos são essenciais. A segunda pode ser urgente também, mas a pressa será prejudicial, e a sabedoria de propósito de longo prazo é mais necessária que a realização imediata. Será por meio do aumento do prestígio de sua administração pelo sucesso na recuperação (do emprego) em tempo curto que você terá a força capaz de realizar uma reforma de longo alcance".
A situação econômica e social descrita é real. Embora muito semelhante, não é um retrato da economia brasileira atual. O plano também seria adequado ao Brasil dos dias de hoje.
É uma descrição da economia norte-americana durante a depressão dos anos 1930. O político é o presidente Franklin Delano Roosevelt e o economista é John Maynard Keynes. O Plano de Roosevelt era o New Deal, abrangente e ousado, aplicado com sucesso. Um plano, tal como foi o New Deal, somente foi bem-sucedido por ter sido aplicado por uma verdadeira liderança política, que uniu o país em torno das suas ideias.
O Brasil precisa dessa combinação: uma liderança política e um plano de recuperação de tudo, de todos e em todos os lugares.
* João Sicsú, professor do Instituto de Economia da UFRJ, foi diretor de Políticas e Estudos Macroeconômicos do IPEA entre 2007 e 2011. (Publicado originalmente na Carta Capital)

* João Sicsú

 
Em algum lugar do tempo e do planeta, o político como protagonista e o economista como figurante trocam argumentos e revelam vontades e iniciativas para revigorar a economia por meio de um plano. O país enfrenta a pior situação econômica de sua história. O governo, desacreditado, adotou políticas que agravaram os problemas sociais.
O governo cortou gastos públicos e paralisou seus investimentos em nome do equilíbrio fiscal. A economia paralisou no fundo do poço. Estamos em uma economia com milhões de desempregados. Brotam pelas ruas de todos os lugares moradias precárias e moradores sem moradias. A fome voltou. A fraqueza alimentar e as condições de higiene deixam o ambiente propício a adquirir doenças.
A miséria alcançou os pobres e a pobreza atingiu a classe média. Houve sinais que indicam o aumento do número de suicídios, dos distúrbios mentais e do alcoolismo. Os vulneráveis foram os mais atingidos: idosos, mães e pais solteiros, crianças, indivíduos com deficiência e os negros pobres.
O ódio predominou. O motivo do ódio é que cidadãos ou grupos sociais são vistos, uns pelos outros, como concorrentes pelas vagas de emprego e pelos espaços públicos. Cresceu a impaciência com a democracia e com as leis. A intolerância emergiu. Quando a economia gera escassez, em paralelo, cria um ambiente favorável ao individualismo e de tensão e insatisfação entre cidadãos e grupos contra tudo e todos.
O político fez um diagnóstico preciso da situação:
 "As riquezas encolheram para níveis fantásticos, os impostos aumentaram, nossa capacidade de pagar qualquer coisa caiu, governos de todos os tipos têm enfrentado séria redução da arrecadação, o dinheiro está parado nas correntes de comércio...
E continua: as fazendas improdutivas estão por todos os lados, as poupanças de muitos anos de milhares de famílias se foram. Mais importante, uma multidão de cidadãos desempregados enfrenta o problema assustador da existência e um número igualmente grande trabalha por pouco dinheiro. Apenas um otimista tolo pode negar a realidade sombria do momento."
O político propôs o que fazer:
 "Esta nação pede ação e ação agora. Nossa principal e maior tarefa é colocar os cidadãos para trabalhar. Este não é um problema insolúvel se o enfrentarmos com sabedoria e coragem. Isso pode ser conseguido em parte pela contratação direta pelo próprio governo, tratando a tarefa como trataríamos a emergência de uma guerra, mas, ao mesmo tempo, por meio deste emprego, realizando projetos extremamente necessários para estimular e reorganizar o uso de nossos recursos naturais."
O político propôs como deve fazer a recuperação do emprego:
 "... Pela insistência de que os governos federal, estadual e local ajam urgentemente ... Pela unificação das atividades de socorro (à economia), que hoje são frequentemente dispersas, antieconômicas e desiguais. Isso pode ser apoiado pelo planejamento nacional e supervisão de todas as formas de transporte e de comunicações e outros serviços que tenham um caráter eminentemente público. ... Nós devemos agir e agir rapidamente."
O economista respondeu à pergunta frequente: É possível fazer isso tudo com o governo tendo déficit orçamentário?Em uma situação econômica de tal gravidade, o economista sentenciou: "...Todos os governos têm grandes déficits." O ponto focal para ele não era a existência de déficits, mas onde deveriam ser utilizados os recursos tomados emprestados pelo governo para cobrir os déficits. Disse o economista: "É muito melhor, de qualquer forma, que os empréstimos sejam tomados para financiar obras, se essas obras forem de alguma utilidade, que para o propósito de pagar seguro-desemprego..."
Embasando a proposta do político, o economista revelou a sua confiança na inciativa e afirmou:
 "Eu enfatizo muito a política das autoridades públicas. São elas que devem começar o movimento de partida da atividade (econômica). Você não pode esperar que os indivíduos gastem muito mais quando já estão, alguns deles, se endividando. Você não pode esperar que empresários se lancem em ampliações dos negócios enquanto eles estão tendo perdas. São as autoridades públicas que devem encontrar maneiras sábias de gastar para dar início ao movimento de partida (da economia)."
O político tem um programa de obras públicas e de reformas. As obras públicas objetivam acabar com o desemprego o mais rápido possível. As reformas são para estabelecer uma nova institucionalidade para que a economia possa funcionar em completa normalidade social e com pleno emprego.
Ao saber do plano do político, o economista lhe escreveu uma carta com os seguintes dizeres: "Você está empenhado em dupla tarefa, recuperação e reforma: a recuperação do emprego e a aprovação das reformas empresariais e sociais - que estão muito atrasadas. Para a primeira, velocidade e resultados rápidos são essenciais. A segunda pode ser urgente também, mas a pressa será prejudicial, e a sabedoria de propósito de longo prazo é mais necessária que a realização imediata. Será por meio do aumento do prestígio de sua administração pelo sucesso na recuperação (do emprego) em tempo curto que você terá a força capaz de realizar uma reforma de longo alcance".
A situação econômica e social descrita é real. Embora muito semelhante, não é um retrato da economia brasileira atual. O plano também seria adequado ao Brasil dos dias de hoje.
É uma descrição da economia norte-americana durante a depressão dos anos 1930. O político é o presidente Franklin Delano Roosevelt e o economista é John Maynard Keynes. O Plano de Roosevelt era o New Deal, abrangente e ousado, aplicado com sucesso. Um plano, tal como foi o New Deal, somente foi bem-sucedido por ter sido aplicado por uma verdadeira liderança política, que uniu o país em torno das suas ideias.
O Brasil precisa dessa combinação: uma liderança política e um plano de recuperação de tudo, de todos e em todos os lugares.
* João Sicsú, professor do Instituto de Economia da UFRJ, foi diretor de Políticas e Estudos Macroeconômicos do IPEA entre 2007 e 2011. (Publicado originalmente na Carta Capital)