A reconquista da hegemonia pela esquerda

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Publicada em 10/08/2018 às 08:51:00

 

* Emir Sader
A esquerda foi derrotada porque a direita conseguiu isola-la, desmoraliza-la, impor seus consensos à opinião pública e assim derruba-la do governo. A esquerda perdeu a hegemonia que tinha conseguido impor ao país, perdeu bases de apoio e aliados, perdeu iniciativa, ficou prisioneira dos temas impostos pela direita, e assim foi derrotada.
A esquerda foi derrotada e o Brasil e o povo brasileiro passaram a pagar um preço caro por essa derrota, porque a esquerda representa os interesses do povo e do país. A esquerda conquistou uma nova oportunidade para governar o Brasil. Da sua capacidade de voltar a triunfar e a governar o Brasil, depende o futuro do povo e do país.
A direita havia triunfado, nos anos 1990, quando convenceu à maioria da sociedade que o problema central do Brasil eram os gastos excessivos do Estado, que provocavam a inflação, além da falta de dinamismo da economia, a alta tributação, entre outros aspectos negativos. Seus governos - os de Collor e de FHC - se dedicaram a cortar os gastos do Estado, a privatizar empresas, a tirar direitos do povo, a tirar a proteção do mercado interno, abrindo a economia para o mundo e retirando as formas de regulação da economia. Conseguiu um relativo controle da economia, mas às custas de impor sua estagnação e o aumento das desigualdades e da exclusão social.
A esquerda conseguiu triunfar politicamente quando que pôde convencer a maioria da sociedade que o equilíbrio das contas públicas e da inflação são necessários, mas não como um fim em si mesmo, e sim como condição para desenvolver políticas sociais - que deveria ser o objetivo central do governo.
Com essa visão a esquerda conseguiu se tornar hegemônica na sociedade e triunfar eleitoralmente quatro vezes de forma sucessiva. A expressão maior disso foi Lula ter saído do seu segundo mandato com mais de 80% de referências negativas na mídia, mas com 87% de apoio. Significava que as políticas do governo respondiam ao que a grande maioria da sociedade desejava, que as prioridades do governo se correspondiam com as maiores preocupações da população. O otimismo com o Brasil, a autoestima dos brasileiros, o orgulho de ser brasileiro eram expressão desse fenômeno.
Essa hegemonia foi sendo debilitada conforme as condicões internacionais favoráveis foram sendo revertidas, mas principalmente porque as condições internas mudaram e o governo não conseguiu se adequar a essa transformações. Porém, o problema maior apareceu nas eleições de 2014: o governo da Dilma fez uma excelente política social, estendendo o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida, criando o Mais Médicos, entre outras políticas. Mesmo assim, ela triunfou por pequena margem sobre Aécio Neves, que obteve 52 milhões de votos, dos quais provavelmente, uns 30 milhões de beneficiários das políticas sociais do governo. Faltou a este o discurso, a argumentação, o convencimento, para fazer entender a esses beneficiários que suas vidas tinham melhorado pela ação política do governo.
A perda de hegemonia foi o prenuncio da derrota política sofrida pela esquerda com o golpe de 2016, quando a direita recuperou capacidade de ação, conseguiu convencer a opinião pública - contando também com o monopólio dos meios de comunicação - que o pais estava no caminho errado, vítima da corrupção do PT e do descontrole da economia. Estes foram os eixos da nova hegemonia da direita, insuficiente para triunfar eleitoralmente - onde a massa pobre da população tem peso determinante -, mas para manipular a opinião pública - onde a classe média tem um papel importante.
A recuperação da esquerda se deu sob a direção do Lula, do seu discurso, das suas Caravanas, da sua proposta de retomada do modelo de crescimento econômico com distribuição de renda. Ao mesmo tempo que o fracasso do governo originário do golpe favoreceu a consciência dos setores que ainda não tinham se dado conta que suas vidas tinham melhorado como efeito das políticas do governo do PT e que elas tinham piorado significativamente pela ação das políticas do governo Temer.
Sob a liderança do Lula, a esquerda conquistou uma nova oportunidade de disputar o governo e retomar o modelo antineoliberal. Por isso Lula paga um preço caro, com processos fajutos e uma condenação arbitraria e sem fundamento. Mas a possibilidade de novo triunfo eleitoral é real porque a esquerda recuperar seu poder hegemônico sobre a sociedade brasileira. A direita está moralmente derrotada, resta impor-lhe uma derrota política.
* *Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

* Emir Sader

A esquerda foi derrotada porque a direita conseguiu isola-la, desmoraliza-la, impor seus consensos à opinião pública e assim derruba-la do governo. A esquerda perdeu a hegemonia que tinha conseguido impor ao país, perdeu bases de apoio e aliados, perdeu iniciativa, ficou prisioneira dos temas impostos pela direita, e assim foi derrotada.
A esquerda foi derrotada e o Brasil e o povo brasileiro passaram a pagar um preço caro por essa derrota, porque a esquerda representa os interesses do povo e do país. A esquerda conquistou uma nova oportunidade para governar o Brasil. Da sua capacidade de voltar a triunfar e a governar o Brasil, depende o futuro do povo e do país.
A direita havia triunfado, nos anos 1990, quando convenceu à maioria da sociedade que o problema central do Brasil eram os gastos excessivos do Estado, que provocavam a inflação, além da falta de dinamismo da economia, a alta tributação, entre outros aspectos negativos. Seus governos - os de Collor e de FHC - se dedicaram a cortar os gastos do Estado, a privatizar empresas, a tirar direitos do povo, a tirar a proteção do mercado interno, abrindo a economia para o mundo e retirando as formas de regulação da economia. Conseguiu um relativo controle da economia, mas às custas de impor sua estagnação e o aumento das desigualdades e da exclusão social.
A esquerda conseguiu triunfar politicamente quando que pôde convencer a maioria da sociedade que o equilíbrio das contas públicas e da inflação são necessários, mas não como um fim em si mesmo, e sim como condição para desenvolver políticas sociais - que deveria ser o objetivo central do governo.
Com essa visão a esquerda conseguiu se tornar hegemônica na sociedade e triunfar eleitoralmente quatro vezes de forma sucessiva. A expressão maior disso foi Lula ter saído do seu segundo mandato com mais de 80% de referências negativas na mídia, mas com 87% de apoio. Significava que as políticas do governo respondiam ao que a grande maioria da sociedade desejava, que as prioridades do governo se correspondiam com as maiores preocupações da população. O otimismo com o Brasil, a autoestima dos brasileiros, o orgulho de ser brasileiro eram expressão desse fenômeno.
Essa hegemonia foi sendo debilitada conforme as condicões internacionais favoráveis foram sendo revertidas, mas principalmente porque as condições internas mudaram e o governo não conseguiu se adequar a essa transformações. Porém, o problema maior apareceu nas eleições de 2014: o governo da Dilma fez uma excelente política social, estendendo o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida, criando o Mais Médicos, entre outras políticas. Mesmo assim, ela triunfou por pequena margem sobre Aécio Neves, que obteve 52 milhões de votos, dos quais provavelmente, uns 30 milhões de beneficiários das políticas sociais do governo. Faltou a este o discurso, a argumentação, o convencimento, para fazer entender a esses beneficiários que suas vidas tinham melhorado pela ação política do governo.
A perda de hegemonia foi o prenuncio da derrota política sofrida pela esquerda com o golpe de 2016, quando a direita recuperou capacidade de ação, conseguiu convencer a opinião pública - contando também com o monopólio dos meios de comunicação - que o pais estava no caminho errado, vítima da corrupção do PT e do descontrole da economia. Estes foram os eixos da nova hegemonia da direita, insuficiente para triunfar eleitoralmente - onde a massa pobre da população tem peso determinante -, mas para manipular a opinião pública - onde a classe média tem um papel importante.
A recuperação da esquerda se deu sob a direção do Lula, do seu discurso, das suas Caravanas, da sua proposta de retomada do modelo de crescimento econômico com distribuição de renda. Ao mesmo tempo que o fracasso do governo originário do golpe favoreceu a consciência dos setores que ainda não tinham se dado conta que suas vidas tinham melhorado como efeito das políticas do governo do PT e que elas tinham piorado significativamente pela ação das políticas do governo Temer.
Sob a liderança do Lula, a esquerda conquistou uma nova oportunidade de disputar o governo e retomar o modelo antineoliberal. Por isso Lula paga um preço caro, com processos fajutos e uma condenação arbitraria e sem fundamento. Mas a possibilidade de novo triunfo eleitoral é real porque a esquerda recuperar seu poder hegemônico sobre a sociedade brasileira. A direita está moralmente derrotada, resta impor-lhe uma derrota política.
* *Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros