O ESTATUTO DO MAU POLÍTICO (VI)

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Publicada em 11/08/2018 às 08:00:00

 

* Manoel Moacir Costa Macêdo
Estamos em cegueira e imobilidade social. Não se escutam as indignações populares. Elas estão raptadas pela violência, desigualdade e apatia. Salve-se quem puder. Não tenho nada a ver com isso. O problema não é meu. Reproduzem sem vergonha, os acontecimentos puídos de dignidade na política nacional. Não são feridas de hoje, veem de longe, estão nos anais da nossa história. Da prefeitura municipal mais remota na planície, à presidência da república no planalto central, escândalos se sucedem, um esconde o outro. O anterior é arquivado pelo seguinte, sempre mais grave e avassalador. Políticos destacados antes exemplares, hoje expostos à corrupção da pior espécie. Partidos aclamados como a esperança do povo, ungidos de sobriedade, e portadores das transformações de um Estado concentrador e arcaico, se derretem nas práticas patrimoniais da politicagem dos "maus políticos". Tristeza e decepção, que exigirão tempo, para sumir do sentimento popular e dos cidadãos e cidadãs idealistas.
Aqui e acolá, protestos e manifestações bem comportadas, distantes da força para promover a mudança social. Incapazes de influenciarem na essência da política, ainda que seja, em tempo de eleições. Parece, que nada está acontecendo. Não incomoda o bem-estar individual dos extratos médios e formadores de opinião. Não é de hoje, que o eleitor não decide o seu voto pela razão, a partir de uma análise substantiva dos fatos. O faz a cada eleição, por interesses individuais e pessoalidades. Para alguns, não são votos de consciência, mas atrações por variadas trocas.
Por que aceitamos tanta falsidade, tanto cinismo e manipulação com serenidade? Por que situações acintosas à ética e a moral são passivamente recebidas pela população? Por que nos deixamos dominar pelo autoengano e pelo fingimento? Os intelectuais Cristovam Buarque, Francisco Almeida e Zande Navarro, exploraram o modo-de-ser dos brasileiros, na obra "Brasil, Brasileiros. Por que somos assim?". Motivados por uma profunda inquietação buscaram respostas para essas questões. Propõem explicar o comportamento do brasileiro, pelos condicionantes da cidadania, história, gênero, identidade, pobreza, desigualdade, entre outros. Responderam, que somos assim, porque somos "deseducados, desiguais, corruptos, violentos, pobres, racistas, conservadores, e elitistas". Disseram ainda, que somos assim pela "aceitação envergonhada da impunidade generalizada da sociedade", entre outras mazelas registradas na nossa história desde os horrores da escravidão, até a vergonhosa, e persistente desigualdade. [Abstraímos, que para eles, o Brasil e os brasileiros, merecem o "Estatuto do Mau Político"].
Artigo Vigésimo Oitavo: Fora do poder não há salvação
§10 - Disfarce com máscaras os seus atos, no mandato não existe pecado;
§20 - Moa impiedosamente os companheiros, eles são dinossauros políticos;
§30 - Na prática do poder, não basta ser esperto, tem que ser mau e impiedoso;
§40 - Não é possível viver com os ganhos do mandato, multiplique as vantagens; 
§50 - Defenda os concursos, os cursinhos, e os concurseiros, eles são eleitores.
Artigo Vigésimo Nono: Bem-aventurados os ricos e poderosos
I - Mantenha o retrato do poderoso da república à vista do público;
II - Não elogie os adversários e opositores, critique e destrua;
III - Defenda a pessoa física do parlamentar, nunca o partido;
IV - Nunca seja manso e humilde, mas temido e arrogante;
V - O pau que nasce torto, morrerá torto, rico, poderoso, e mau político.
Artigo Trigésimo: Na teoria seja democrático, na prática reacionário
Parágrafo Único: Eleições livres, reforma política, voto distrital, acesso à justiça, reforma agrária, meio ambiente, fiscalização dos poderes, justiça social, saúde, educação, habitação, emprego, desigualdade, política carcerária, financiamento público de campanhas, transparência e controle, não estão na agenda do mandato do mau político.
A formação cultural brasileira, advinda da península Ibérica trazidos pelo colonizador português e consolidada pela demorada escravidão, cunhou a hipocrisia na forma de "jeitinho brasileiro" como valor da sociabilidade. Descartamos a sinceridade, e acolhemos a mentira, por isso, na prática da política adoramos os "salvadores da pátria", e rejeitamos os sinceros e honestos, normalmente rotulados de temperamentais, despreparados para a vida pública e pífios negociadores.  Na visão do poeta Gilberto Gil, isto pode significar o sentido de "um certo povo que habita em algum lugar, onde todos somos iguais em nossas imensas diferenças". 
* Manoel Moacir Costa Macêdo, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra

* Manoel Moacir Costa Macêdo

Estamos em cegueira e imobilidade social. Não se escutam as indignações populares. Elas estão raptadas pela violência, desigualdade e apatia. Salve-se quem puder. Não tenho nada a ver com isso. O problema não é meu. Reproduzem sem vergonha, os acontecimentos puídos de dignidade na política nacional. Não são feridas de hoje, veem de longe, estão nos anais da nossa história. Da prefeitura municipal mais remota na planície, à presidência da república no planalto central, escândalos se sucedem, um esconde o outro. O anterior é arquivado pelo seguinte, sempre mais grave e avassalador. Políticos destacados antes exemplares, hoje expostos à corrupção da pior espécie. Partidos aclamados como a esperança do povo, ungidos de sobriedade, e portadores das transformações de um Estado concentrador e arcaico, se derretem nas práticas patrimoniais da politicagem dos "maus políticos". Tristeza e decepção, que exigirão tempo, para sumir do sentimento popular e dos cidadãos e cidadãs idealistas.
Aqui e acolá, protestos e manifestações bem comportadas, distantes da força para promover a mudança social. Incapazes de influenciarem na essência da política, ainda que seja, em tempo de eleições. Parece, que nada está acontecendo. Não incomoda o bem-estar individual dos extratos médios e formadores de opinião. Não é de hoje, que o eleitor não decide o seu voto pela razão, a partir de uma análise substantiva dos fatos. O faz a cada eleição, por interesses individuais e pessoalidades. Para alguns, não são votos de consciência, mas atrações por variadas trocas.
Por que aceitamos tanta falsidade, tanto cinismo e manipulação com serenidade? Por que situações acintosas à ética e a moral são passivamente recebidas pela população? Por que nos deixamos dominar pelo autoengano e pelo fingimento? Os intelectuais Cristovam Buarque, Francisco Almeida e Zande Navarro, exploraram o modo-de-ser dos brasileiros, na obra "Brasil, Brasileiros. Por que somos assim?". Motivados por uma profunda inquietação buscaram respostas para essas questões. Propõem explicar o comportamento do brasileiro, pelos condicionantes da cidadania, história, gênero, identidade, pobreza, desigualdade, entre outros. Responderam, que somos assim, porque somos "deseducados, desiguais, corruptos, violentos, pobres, racistas, conservadores, e elitistas". Disseram ainda, que somos assim pela "aceitação envergonhada da impunidade generalizada da sociedade", entre outras mazelas registradas na nossa história desde os horrores da escravidão, até a vergonhosa, e persistente desigualdade. [Abstraímos, que para eles, o Brasil e os brasileiros, merecem o "Estatuto do Mau Político"].
Artigo Vigésimo Oitavo: Fora do poder não há salvação
§10 - Disfarce com máscaras os seus atos, no mandato não existe pecado;
§20 - Moa impiedosamente os companheiros, eles são dinossauros políticos;
§30 - Na prática do poder, não basta ser esperto, tem que ser mau e impiedoso;
§40 - Não é possível viver com os ganhos do mandato, multiplique as vantagens; 
§50 - Defenda os concursos, os cursinhos, e os concurseiros, eles são eleitores.
Artigo Vigésimo Nono: Bem-aventurados os ricos e poderosos
I - Mantenha o retrato do poderoso da república à vista do público;
II - Não elogie os adversários e opositores, critique e destrua;
III - Defenda a pessoa física do parlamentar, nunca o partido;
IV - Nunca seja manso e humilde, mas temido e arrogante;
V - O pau que nasce torto, morrerá torto, rico, poderoso, e mau político.
Artigo Trigésimo: Na teoria seja democrático, na prática reacionário
Parágrafo Único: Eleições livres, reforma política, voto distrital, acesso à justiça, reforma agrária, meio ambiente, fiscalização dos poderes, justiça social, saúde, educação, habitação, emprego, desigualdade, política carcerária, financiamento público de campanhas, transparência e controle, não estão na agenda do mandato do mau político.
A formação cultural brasileira, advinda da península Ibérica trazidos pelo colonizador português e consolidada pela demorada escravidão, cunhou a hipocrisia na forma de "jeitinho brasileiro" como valor da sociabilidade. Descartamos a sinceridade, e acolhemos a mentira, por isso, na prática da política adoramos os "salvadores da pátria", e rejeitamos os sinceros e honestos, normalmente rotulados de temperamentais, despreparados para a vida pública e pífios negociadores.  Na visão do poeta Gilberto Gil, isto pode significar o sentido de "um certo povo que habita em algum lugar, onde todos somos iguais em nossas imensas diferenças". 
* Manoel Moacir Costa Macêdo, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra