Millôr Fernandes: um tipo de (bom) humor

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 13/08/2018 às 08:07:00

 

Millôr Fernandes odiaria ouvir isso, mas desde a morte dele, há seis anos, o humor ficou mais pobre. Num mundo de celebridades instantâneas e de famosos que acham que fazer piada de mau gosto é fazer graça, é de se lamentar a ausência de mente tão brilhante, suas frases cáusticas, seus pensamentos elucidativos. 
Como forma sublime de pensamento, o humor é livre, mas o limite da piada é o escrúpulo. Millôr era genial inclusive e, talvez, principalmente, por isso, porque sabia ir até onde a corda podia esticar sem cair na vala comum do riso fácil, da baixaria. Era um cético com bom humor.
Intelectualizado, Millôr fazia um humor rebuscado e ferino, à George Bernard Shaw. Como disse Zuenir Ventura, "era, sobretudo, um pensador, que usava o humor para expressar suas ideias".
Apesar de acumular habilidades de um Da Vinci - era chargista, ilustrador, jornalista, poeta, escritor, dramaturgo, tradutor (dizem que falava 11 línguas), roteirista e até inventor do frescobol, entre outras artes -, o autodidata Millôr impressionava mais pelo senso crítico e pela boca suja. Também dizem que adorava um palavrão.
Filho de espanhóis nascido no bairro carioca do Méier há 95 anos, em 16 de agosto de 1923, Millôr Viola Fernandes teve a sorte de não se tornar Milton graças à caligrafia duvidosa do escrivão que lavrou a certidão de nascimento, transformando o "t" num segundo "l", o traço virando um circunflexo e o "n" incompleto resultando num "r".
Começou a desenhar lendo histórias em quadrinhos, especialmente Flash Gordon, e aos 14 anos já estava empregado na revista "O Cruzeiro". Desenhou, escreveu poesias, contos, peças de teatro, passou por diversos veículos impressos até chegar, em 1969, a ser um dos fundadores d'O Pasquim, certamente o jornal alternativo mais importante e influente que este país já teve.
Estava lá, na trincheira da oposição ao regime militar e rompendo tabus comportamentais, ao lado de outros "heróis da resistência": os fundadores Jaguar, Tarso de Castro e Sérgio Cabral, além de Ziraldo, Henfil, Paulo Francis, Ivan Lessa, Sérgio Augusto, Ruy Castro e Fausto Wolff.
Para ele, a maior contribuição que foi dada à imprensa brasileira, naquele período, foi o jornal opcional nos moldes do Pasquim. Mas a própria abertura desvirtuou o jornalismo dito alternativo.
Millôr traduziu, do inglês e do francês, várias obras, principalmente peças de teatro, clássicos de Sófocles, Shakespeare, Molière, Brecht e Tennessee Williams. Depois de colaborar com os principais jornais brasileiros, retornou à revista "Veja" em 2004, deixando-a em 2009 porque seus antigos textos estavam sendo publicados sem sua autorização no acervo on-line da revista.
O escritor Luiz Fernando Veríssimo recorda do amigo morto no dia 29 de março de 2012, aos 88 anos, como grande intelectual e livre pensador. Para ele, Millôr soube pensar o Brasil, tinha posições sempre claras e corajosas.
O cartunista Ziraldo afirma que, mais que um prolífico e incansável criador de anedotas curiosas e precisas, Millôr foi também um grande pensador popular, um atento observador e comentarista do cotidiano. A pessoa mais inteligente que conheceu, dizia o velho amigo.

Marcos Cardoso

Millôr Fernandes odiaria ouvir isso, mas desde a morte dele, há seis anos, o humor ficou mais pobre. Num mundo de celebridades instantâneas e de famosos que acham que fazer piada de mau gosto é fazer graça, é de se lamentar a ausência de mente tão brilhante, suas frases cáusticas, seus pensamentos elucidativos. 
Como forma sublime de pensamento, o humor é livre, mas o limite da piada é o escrúpulo. Millôr era genial inclusive e, talvez, principalmente, por isso, porque sabia ir até onde a corda podia esticar sem cair na vala comum do riso fácil, da baixaria. Era um cético com bom humor.
Intelectualizado, Millôr fazia um humor rebuscado e ferino, à George Bernard Shaw. Como disse Zuenir Ventura, "era, sobretudo, um pensador, que usava o humor para expressar suas ideias".
Apesar de acumular habilidades de um Da Vinci - era chargista, ilustrador, jornalista, poeta, escritor, dramaturgo, tradutor (dizem que falava 11 línguas), roteirista e até inventor do frescobol, entre outras artes -, o autodidata Millôr impressionava mais pelo senso crítico e pela boca suja. Também dizem que adorava um palavrão.
Filho de espanhóis nascido no bairro carioca do Méier há 95 anos, em 16 de agosto de 1923, Millôr Viola Fernandes teve a sorte de não se tornar Milton graças à caligrafia duvidosa do escrivão que lavrou a certidão de nascimento, transformando o "t" num segundo "l", o traço virando um circunflexo e o "n" incompleto resultando num "r".
Começou a desenhar lendo histórias em quadrinhos, especialmente Flash Gordon, e aos 14 anos já estava empregado na revista "O Cruzeiro". Desenhou, escreveu poesias, contos, peças de teatro, passou por diversos veículos impressos até chegar, em 1969, a ser um dos fundadores d'O Pasquim, certamente o jornal alternativo mais importante e influente que este país já teve.
Estava lá, na trincheira da oposição ao regime militar e rompendo tabus comportamentais, ao lado de outros "heróis da resistência": os fundadores Jaguar, Tarso de Castro e Sérgio Cabral, além de Ziraldo, Henfil, Paulo Francis, Ivan Lessa, Sérgio Augusto, Ruy Castro e Fausto Wolff.
Para ele, a maior contribuição que foi dada à imprensa brasileira, naquele período, foi o jornal opcional nos moldes do Pasquim. Mas a própria abertura desvirtuou o jornalismo dito alternativo.
Millôr traduziu, do inglês e do francês, várias obras, principalmente peças de teatro, clássicos de Sófocles, Shakespeare, Molière, Brecht e Tennessee Williams. Depois de colaborar com os principais jornais brasileiros, retornou à revista "Veja" em 2004, deixando-a em 2009 porque seus antigos textos estavam sendo publicados sem sua autorização no acervo on-line da revista.
O escritor Luiz Fernando Veríssimo recorda do amigo morto no dia 29 de março de 2012, aos 88 anos, como grande intelectual e livre pensador. Para ele, Millôr soube pensar o Brasil, tinha posições sempre claras e corajosas.
O cartunista Ziraldo afirma que, mais que um prolífico e incansável criador de anedotas curiosas e precisas, Millôr foi também um grande pensador popular, um atento observador e comentarista do cotidiano. A pessoa mais inteligente que conheceu, dizia o velho amigo.