Pergunta à PF: quem vai defender a honra de Cancellier?

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Publicada em 14/08/2018 às 07:43:00

 

* Paulo Moreira Leite 
Passados dez meses desde que o reitor Luiz Carlos Cancellier se atirou para a morte do último andar de um shopping center em Florianópolis, o país inteiro aguarda os esclarecimentos necessários sobre o caso.
Numa reação esperada numa sociedade que preza o respeito pelos direitos humanos e construiu a democracia na mobilização contra a violência policial, em Florianópolis e vários pontos do país os sindicatos de professores e entidades do movimento estudantil tem se mobilizado para pedir o esclarecimento de uma tragédia que provoca indignação em brasileiras e brasileiras. 
No último fim de semana, o comando da Polícia Federal, organização que assinou o pedido da prisão que permitiu que Cancellier fosse retirado de casa em setembro de 2017, para ser conduzido a prisão de onde partiu para o suicídio, deixou claro que possui outra prioridade. Está preocupado em defender a "honra" de delegados e demais autoridades  que tem sido alvo de protestos contra "abuso de poder" em atos públicos.
Num comportamento que reflete a glorificação de juízes, delegados e agentes policiais, que inclui jornais, revistas, telejornais e ainda filmes para cinema e para o Netflix, os protestos deixaram de ter o caráter genérico de denuncia contra o aparelho repressivo  -- e fazem acusações que tem nome e endereço. Apontam para a delegada Erica Macrena e a juíza  Janaína Cassol Machado, responsáveis pela Operação Ouvidos Moucos, que apura de desvios na UFSC, instituição da qual Cancellier era o reitor.  
"É uma acusação seríssima," disse Rogério Galloro, em entrevista a Andreza Matais, do Estado de S. Paulo. Diante da acusação de que a "PF está perseguindo professores da UFSC que fizeram protestos", o diretor-geral esclarece que os manifestantes cometem "crime contra a honra". Numa afirmação fora de lugar para uma autoridade policial, a quem cabe garantir o cumprimento da lei, e não dizer aos cidadãos e cidadãs como devem proceder para defender seus direitos, ele diz ainda: "tem outros meios de protestar que não acusar uma autoridade de abuso". 
"Honra" é uma questão séria na existência de todo mundo e sabemos que toda pessoa tem o direito de tomar as providências cabíveis quando se sente atingido.  
Curiosamente, basta reconstruir as circunstâncias da morte de  Cancellier para compreender a importância central da "honra" no caso. 
Acusado de obstruir investigações  numa denuncia de desvio de verbas ocorrido quando sequer ocupava a reitoria da UFSC, a prisão de Cancellier foi organizada naquele ambiente de estardalhaço midiático sob medida para destruir reputações e romper a credibilidade de cidadãos acusados em tempos de Lava Jato.
Embora tivesse direito a uma cela especial, o reitor acabou recolhido a carceragem comum. Despido, sofreu revista íntima. Foi algemado nas mãos e nos pés.
A denúncia contra ele era tão frágil que dados básicos de uma acusação -- como o volume desviado -- continham erros grosseiros. Tanto que, dois dias depois uma juíza substituta reexaminou o caso e determinou a soltura imediata do reitor e outros acusados.
Ainda assim, Cancellier foi punido de maneira pública: ficou proibido de ingressar na universidade, que dirigia até o momento da prisão, eleito pelo voto da comunidade. A medida não podia ser mais clara. O reitor até podia ficar solto, como decidiu a juíza substituta. Mas seria desonrado, mais uma vez, através de uma punição humilhante.
"A minha morte foi decretada quando fui banido da universidade!!!", escreveu Cancellier, na sua mensagem de suicida, própria de quem não aceitava ser tratado como trapo humano. 
Em maio, na mais completa reportagem sobre o caso, Walter Nunes, na Folha de S. Paulo,  demonstra factualmente que não havia motivo real para prender Cancellier sem lhe dar a chance de prestar esclarecimentos devidos  num depoimento civilizado. Também não havia razão para que, pré-condenado, sem direito a defesa, fosse impedido de voltar à universidade após a soltura. Walter Nunes escreveu: "PF liga reitor a desvio mas não apresenta provas em 817 páginas". Alguma pergunta?
Fica difícil, a partir daí, ignorar que o tratamento dispensado a Luiz Carlos Cancellier nos dias que antecederam o suicídio continua sendo a questão central da Operação Ouvidos Moucos. Precisa ser esclarecido em todos os detalhes, com todos os personagens.  
Se "autoridades se sentiram ofendidas" por serem acusadas sem prova de crime, o que dizer de um reitor preso, algemado e punido sem que nada se demonstrasse contra ele?
Cancellier não teve direito de ficar ofendido. Concluiu que "minha morte foi decretada". Quem permitiu que chegasse a essa conclusão?  
Essa é a pergunta, que envolve uma questão de vida ou morte. 
Alguma dúvida? 
* Paulo Moreira Leite é colunista do 247, ocupou postos executivos na VEJA e na Época, foi correspondente na França e nos EUA

* Paulo Moreira Leite 

Passados dez meses desde que o reitor Luiz Carlos Cancellier se atirou para a morte do último andar de um shopping center em Florianópolis, o país inteiro aguarda os esclarecimentos necessários sobre o caso.
Numa reação esperada numa sociedade que preza o respeito pelos direitos humanos e construiu a democracia na mobilização contra a violência policial, em Florianópolis e vários pontos do país os sindicatos de professores e entidades do movimento estudantil tem se mobilizado para pedir o esclarecimento de uma tragédia que provoca indignação em brasileiras e brasileiras. 
No último fim de semana, o comando da Polícia Federal, organização que assinou o pedido da prisão que permitiu que Cancellier fosse retirado de casa em setembro de 2017, para ser conduzido a prisão de onde partiu para o suicídio, deixou claro que possui outra prioridade. Está preocupado em defender a "honra" de delegados e demais autoridades  que tem sido alvo de protestos contra "abuso de poder" em atos públicos.
Num comportamento que reflete a glorificação de juízes, delegados e agentes policiais, que inclui jornais, revistas, telejornais e ainda filmes para cinema e para o Netflix, os protestos deixaram de ter o caráter genérico de denuncia contra o aparelho repressivo  -- e fazem acusações que tem nome e endereço. Apontam para a delegada Erica Macrena e a juíza  Janaína Cassol Machado, responsáveis pela Operação Ouvidos Moucos, que apura de desvios na UFSC, instituição da qual Cancellier era o reitor.  
"É uma acusação seríssima," disse Rogério Galloro, em entrevista a Andreza Matais, do Estado de S. Paulo. Diante da acusação de que a "PF está perseguindo professores da UFSC que fizeram protestos", o diretor-geral esclarece que os manifestantes cometem "crime contra a honra". Numa afirmação fora de lugar para uma autoridade policial, a quem cabe garantir o cumprimento da lei, e não dizer aos cidadãos e cidadãs como devem proceder para defender seus direitos, ele diz ainda: "tem outros meios de protestar que não acusar uma autoridade de abuso". 
"Honra" é uma questão séria na existência de todo mundo e sabemos que toda pessoa tem o direito de tomar as providências cabíveis quando se sente atingido.  
Curiosamente, basta reconstruir as circunstâncias da morte de  Cancellier para compreender a importância central da "honra" no caso. 
Acusado de obstruir investigações  numa denuncia de desvio de verbas ocorrido quando sequer ocupava a reitoria da UFSC, a prisão de Cancellier foi organizada naquele ambiente de estardalhaço midiático sob medida para destruir reputações e romper a credibilidade de cidadãos acusados em tempos de Lava Jato.
Embora tivesse direito a uma cela especial, o reitor acabou recolhido a carceragem comum. Despido, sofreu revista íntima. Foi algemado nas mãos e nos pés.
A denúncia contra ele era tão frágil que dados básicos de uma acusação -- como o volume desviado -- continham erros grosseiros. Tanto que, dois dias depois uma juíza substituta reexaminou o caso e determinou a soltura imediata do reitor e outros acusados.
Ainda assim, Cancellier foi punido de maneira pública: ficou proibido de ingressar na universidade, que dirigia até o momento da prisão, eleito pelo voto da comunidade. A medida não podia ser mais clara. O reitor até podia ficar solto, como decidiu a juíza substituta. Mas seria desonrado, mais uma vez, através de uma punição humilhante.
"A minha morte foi decretada quando fui banido da universidade!!!", escreveu Cancellier, na sua mensagem de suicida, própria de quem não aceitava ser tratado como trapo humano. 
Em maio, na mais completa reportagem sobre o caso, Walter Nunes, na Folha de S. Paulo,  demonstra factualmente que não havia motivo real para prender Cancellier sem lhe dar a chance de prestar esclarecimentos devidos  num depoimento civilizado. Também não havia razão para que, pré-condenado, sem direito a defesa, fosse impedido de voltar à universidade após a soltura. Walter Nunes escreveu: "PF liga reitor a desvio mas não apresenta provas em 817 páginas". Alguma pergunta?
Fica difícil, a partir daí, ignorar que o tratamento dispensado a Luiz Carlos Cancellier nos dias que antecederam o suicídio continua sendo a questão central da Operação Ouvidos Moucos. Precisa ser esclarecido em todos os detalhes, com todos os personagens.  Se "autoridades se sentiram ofendidas" por serem acusadas sem prova de crime, o que dizer de um reitor preso, algemado e punido sem que nada se demonstrasse contra ele?
Cancellier não teve direito de ficar ofendido. Concluiu que "minha morte foi decretada". Quem permitiu que chegasse a essa conclusão?  
Essa é a pergunta, que envolve uma questão de vida ou morte. Alguma dúvida? 

* Paulo Moreira Leite é colunista do 247, ocupou postos executivos na VEJA e na Época, foi correspondente na França e nos EUA