Teatro para mudar o mundo

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É preciso amar o longe e a miragem
É preciso amar o longe e a miragem

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Publicada em 17/08/2018 às 08:26:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Os atores do grupo 
Boca de Cena têm 
os pés enterrados no Bugio, periferia de Aracaju. Mas jamais deixaram de amar o longe e a miragem. 'Os cavaleiros da triste figura', o espetáculo mais recente da turma, por exemplo, foi concebido em chão impossível, entre um lugar e outro, como um andarilho íntimo de todos os caminhos que no próprio passo inventasse a estrada.
Tudo começou com uma ligação interurbana. Após ser intimado por telefone, o diretor Fernando Yamamoto (Clows de Shakespeare/RN), de quem Rogério Alves se aproximou durante participação anterior no Festival de Guaramiranga (CE), convidou a trupe para uma conversa olho no olho, em Salvador. E lá, no Corredor da Vitória, lhes impôs a leitura do Dom Quixote.
Curiosamente, o clássico de Cervantes respondeu a todas as angústias do grupo. Naquela altura, meados de 2015, o Boca de Cena já tinha conquistado uma sede, projeção local, realizava trabalhos sociais, era considerado um esforço dos mais bem sucedidos do teatro sergipano. Os seus integrantes, no entanto, sentiam falta de uma assinatura cênica. E, virados em um bando de loucos, perderam o juízo de uma vez por todas, empenhados na criação de uma linguagem.
Eloquente como ele só, senhor de todos os gestos, Rogério explica o busílis. "Apesar de muito aplaudido, com diversos projetos contemplados em editais, o Boca de Cena vivia uma crise. Crise nas relações, de propósitos, artística, financeira... Por isso eu digo que tudo surge de um big bang. A gente queria dar um salto em relação ao que já tinha produzido e precisava abraçar a novidade".
Dito e feito. O método sugerido por Yamamoto consistia na leitura completa do livro. Cada capítulo deveria ser vivido em ato. Nesse processo, personagens acabaram ganhando vida. Situações foram transportadas para a realidade do palco. Isso durou pouco mais de um ano, um dia depois do outro, até quando a experiência entre quatro paredes exigiu a organização de uma dramaturgia propriamente dita. Antes mesmo de deitar a primeira palavra no papel, entretanto, o escritor César Ferrário tratou de mergulhar no frenesi coletivo. E o fez de peito aberto, disposto a acompanhar a viagem.
O ator Gustavo Floriano acredita que, de outro modo, os diálogos não dariam a mesma liga. "Isso foi muito importante. Ele escreveu o texto especialmente para o grupo, a partir da convivência com os atores. As palavras dos personagens cabiam na boca da gente". 
A montagem reuniu profissionais do País inteiro, uma equipe da maior competência e muitos sotaques. Ator e produtor do grupo, com a responsabilidade de fazer as contas e viabilizar o impulso criativo da turma, Rogério explica que o cartão de crédito resolveu as questões mais práticas, financiando hospedagem e passagens. Sem a solidariedade dos artistas envolvidos, contudo, o espetáculo não teria pernas, não chegaria nem à praia de Atalaia.
Assim, amparado na confiança dos outros, o espetáculo foi posto de pé. Música, maquiagem, figurino, adereços, cenário, o pulso e a postura dos atores em cena, cada aspecto contou com a colaboração de um especialista (seria exaustivo nomear a equipe inteira, embora todos tenham sido citados durante a conversa com o Jornal do Dia, nome por nome, na primeira oportunidade). Alheio a qualquer estranhamento, o convite para embarcar na aventura era realizado do modo mais direto possível: "Acredite no sonho da gente". Felizmente, ante a potência anunciada, ninguém se fez de rogado.
Palco Giratório - Não por acaso, 'Os cavaleiros da triste figura' ganhou o País inteiro. Contemplado pelo projeto Palco Giratório, do Departamento Nacional do Sesc, dedicado ao mapeamento e a circulação teatral, o grupo Boca de Cena já se apresentou em dezenas de cidades brasileiras. Até o fim do ano, terá corrido o País de cabo a rabo. 
O ponto alto na trajetória do grupo é prenúncio de novos horizontes. Trabalho não falta. O fidalgo de La Mancha abriu portas além-mar, como demonstra a seleção do espetáculo em um festival lusitano. Convidado a abrir o Festival de Guaramiranga, o Boca de Cena retorna ao Ceará no dia 01 de setembro. Aprovado no Aldeia Sesc, também cumprirá agenda nos quatro cantos de Sergipe. E por aí vai.
Segundo Felipe Mascarello, as trocas realizadas nesse período, com o patrocínio do Sesc, a riqueza de um processo desenvolvido ao longo de tanto tempo, coroado pelo sucesso, impõem novas metas a partir de agora e uma disciplina muito rigorosa ao grupo. Ambição sem limites. A ideia é mudar o mundo. Se o sonho é uma empresa de doidos, como foi aqui afirmado, em oportunidade anterior, quando o espetáculo começava a ganhar forma, não há por que conformar as possibilidades da criação às circunstâncias sempre tacanhas da realidade.

Os atores do grupo  Boca de Cena têm  os pés enterrados no Bugio, periferia de Aracaju. Mas jamais deixaram de amar o longe e a miragem. 'Os cavaleiros da triste figura', o espetáculo mais recente da turma, por exemplo, foi concebido em chão impossível, entre um lugar e outro, como um andarilho íntimo de todos os caminhos que no próprio passo inventasse a estrada.
Tudo começou com uma ligação interurbana. Após ser intimado por telefone, o diretor Fernando Yamamoto (Clows de Shakespeare/RN), de quem Rogério Alves se aproximou durante participação anterior no Festival de Guaramiranga (CE), convidou a trupe para uma conversa olho no olho, em Salvador. E lá, no Corredor da Vitória, lhes impôs a leitura do Dom Quixote.
Curiosamente, o clássico de Cervantes respondeu a todas as angústias do grupo. Naquela altura, meados de 2015, o Boca de Cena já tinha conquistado uma sede, projeção local, realizava trabalhos sociais, era considerado um esforço dos mais bem sucedidos do teatro sergipano. Os seus integrantes, no entanto, sentiam falta de uma assinatura cênica. E, virados em um bando de loucos, perderam o juízo de uma vez por todas, empenhados na criação de uma linguagem.
Eloquente como ele só, senhor de todos os gestos, Rogério explica o busílis. "Apesar de muito aplaudido, com diversos projetos contemplados em editais, o Boca de Cena vivia uma crise. Crise nas relações, de propósitos, artística, financeira... Por isso eu digo que tudo surge de um big bang. A gente queria dar um salto em relação ao que já tinha produzido e precisava abraçar a novidade".
Dito e feito. O método sugerido por Yamamoto consistia na leitura completa do livro. Cada capítulo deveria ser vivido em ato. Nesse processo, personagens acabaram ganhando vida. Situações foram transportadas para a realidade do palco. Isso durou pouco mais de um ano, um dia depois do outro, até quando a experiência entre quatro paredes exigiu a organização de uma dramaturgia propriamente dita. Antes mesmo de deitar a primeira palavra no papel, entretanto, o escritor César Ferrário tratou de mergulhar no frenesi coletivo. E o fez de peito aberto, disposto a acompanhar a viagem.O ator Gustavo Floriano acredita que, de outro modo, os diálogos não dariam a mesma liga. "Isso foi muito importante. Ele escreveu o texto especialmente para o grupo, a partir da convivência com os atores. As palavras dos personagens cabiam na boca da gente". 
A montagem reuniu profissionais do País inteiro, uma equipe da maior competência e muitos sotaques. Ator e produtor do grupo, com a responsabilidade de fazer as contas e viabilizar o impulso criativo da turma, Rogério explica que o cartão de crédito resolveu as questões mais práticas, financiando hospedagem e passagens. Sem a solidariedade dos artistas envolvidos, contudo, o espetáculo não teria pernas, não chegaria nem à praia de Atalaia.
Assim, amparado na confiança dos outros, o espetáculo foi posto de pé. Música, maquiagem, figurino, adereços, cenário, o pulso e a postura dos atores em cena, cada aspecto contou com a colaboração de um especialista (seria exaustivo nomear a equipe inteira, embora todos tenham sido citados durante a conversa com o Jornal do Dia, nome por nome, na primeira oportunidade). Alheio a qualquer estranhamento, o convite para embarcar na aventura era realizado do modo mais direto possível: "Acredite no sonho da gente". Felizmente, ante a potência anunciada, ninguém se fez de rogado.

Palco Giratório - Não por acaso, 'Os cavaleiros da triste figura' ganhou o País inteiro. Contemplado pelo projeto Palco Giratório, do Departamento Nacional do Sesc, dedicado ao mapeamento e a circulação teatral, o grupo Boca de Cena já se apresentou em dezenas de cidades brasileiras. Até o fim do ano, terá corrido o País de cabo a rabo. O ponto alto na trajetória do grupo é prenúncio de novos horizontes. Trabalho não falta. O fidalgo de La Mancha abriu portas além-mar, como demonstra a seleção do espetáculo em um festival lusitano. Convidado a abrir o Festival de Guaramiranga, o Boca de Cena retorna ao Ceará no dia 01 de setembro. Aprovado no Aldeia Sesc, também cumprirá agenda nos quatro cantos de Sergipe. E por aí vai.
Segundo Felipe Mascarello, as trocas realizadas nesse período, com o patrocínio do Sesc, a riqueza de um processo desenvolvido ao longo de tanto tempo, coroado pelo sucesso, impõem novas metas a partir de agora e uma disciplina muito rigorosa ao grupo. Ambição sem limites. A ideia é mudar o mundo. Se o sonho é uma empresa de doidos, como foi aqui afirmado, em oportunidade anterior, quando o espetáculo começava a ganhar forma, não há por que conformar as possibilidades da criação às circunstâncias sempre tacanhas da realidade.