Decifra-me ou te devoro

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Diga-me o que lês e eu te direi quem és
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Publicada em 21/08/2018 às 07:03:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Jair Bolsonaro, candi-
dato à presidência da 
República, tem um livro de cabeceira: 'Verdade sufocada', do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe da repressão nos anos sinistros da ditadura militar. Embora não manifeste a menor preocupação com as frescuras das belas artes, o "mito" fez questão de declarar os próprios hábitos de leitura em diversas oportunidades. Um tiro certeiro. Ele reforça assim os laços com os conservadores linha dura e ainda se apresenta como uma alternativa de carne e osso às cirandas da esquerda progressista - tão esnobe quanto letrada.
Sejamos francos, o personalismo é moeda corrente no presidencialismo à brasileira. Os planos de governo não passam de uma carta de intenções, jamais tiveram peso na composição das alianças partidárias e nas escolhas do eleitorado. Portanto, se é assim mesmo, se um nome próprio vale mais do que as siglas antipáticas dos partidos políticos, todos os candidatos deveriam fazer como Bolsonaro e comunicar, junto à declaração de bens, uma exigência da legislação eleitoral, as páginas pelas quais passam a vista nas horas vagas.
A tese é muito simples: Diga-me o que lês e eu te direi quem és. Ou, por outra, a biblioteca de um homem reflete sempre a sua personalidade. Haddad, por exemplo, não é candidato ainda, mas Manuela D'Ávila já aceitou o lugar de vice na sua chapa. E é certo que tanto um como outro valoriza a experiência pouca da juventude, o impulso de rebeldia que eclode junto com as espinhas, a proclamação do indivíduo e o desacerto íntimo com os valores da sociedade de consumo burguesa. Prefeito da maior cidade da América Latina, ele abriu ciclovias na Avenida Paulista. Não seria nenhuma surpresa, convenhamos, encontrar os poetas e romancistas beats espalhados pelos cômodos de sua casa.
Nordestino, Ciro Gomes não sentiu a miséria na própria pele, mas sabe que o sertanejo é antes de tudo um forte. Há quem o diga interessado em astrofísica. Mas o big bang deve ser para ele, no máximo, uma insólita curiosidade. Culto, apegado à prosódia dos conterrâneos, capaz de cometer "arrepares" em todas as entrevistas concedidas durante a campanha, ele certamente já leu e releu tudo de Graciliano Ramos, ama João Cabral de Melo Neto. Se brincar, herdeiro legítimo de uma verdadeira oligarquia local, já ganhou até dedicatórias de Ariano Suassuna. Eu o presentearia com a obra maior de Chico Dantas, 'Coivara da memória'.
Guilherme Boullos, por sua vez, é um radical. Leitura para ele é de Marx e Engels pra cima. Dá pra o imaginar folheando, talvez, um Dostoiévski, trancado no banheiro, com algum sentimento de culpa. Clarice Lispector, Oscar Wilde, James Joyce, Proust, Lya Luft, Pedro Juan Gutiérrez, Elena Ferrante ou Virginia Woolf, jamais!
Longe de mim, julgar um livro pela capa. Mas Marina Silva certamente conhece a bíblia de trás pra frente, de cor e salteado. E eu não vou perder tempo imaginando as leituras insalubres de homens caquéticos, caindo de velhos, com um pé na cova, como Henrique Meirelles e Geraldo Alckmin. 'A riqueza das nações' está lá, sobre um pedestal, sem nenhuma dúvida. O resto é mistério.

Jair Bolsonaro, candi- dato à presidência da  República, tem um livro de cabeceira: 'Verdade sufocada', do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe da repressão nos anos sinistros da ditadura militar. Embora não manifeste a menor preocupação com as frescuras das belas artes, o "mito" fez questão de declarar os próprios hábitos de leitura em diversas oportunidades. Um tiro certeiro. Ele reforça assim os laços com os conservadores linha dura e ainda se apresenta como uma alternativa de carne e osso às cirandas da esquerda progressista - tão esnobe quanto letrada.
Sejamos francos, o personalismo é moeda corrente no presidencialismo à brasileira. Os planos de governo não passam de uma carta de intenções, jamais tiveram peso na composição das alianças partidárias e nas escolhas do eleitorado. Portanto, se é assim mesmo, se um nome próprio vale mais do que as siglas antipáticas dos partidos políticos, todos os candidatos deveriam fazer como Bolsonaro e comunicar, junto à declaração de bens, uma exigência da legislação eleitoral, as páginas pelas quais passam a vista nas horas vagas.
A tese é muito simples: Diga-me o que lês e eu te direi quem és. Ou, por outra, a biblioteca de um homem reflete sempre a sua personalidade. Haddad, por exemplo, não é candidato ainda, mas Manuela D'Ávila já aceitou o lugar de vice na sua chapa. E é certo que tanto um como outro valoriza a experiência pouca da juventude, o impulso de rebeldia que eclode junto com as espinhas, a proclamação do indivíduo e o desacerto íntimo com os valores da sociedade de consumo burguesa. Prefeito da maior cidade da América Latina, ele abriu ciclovias na Avenida Paulista. Não seria nenhuma surpresa, convenhamos, encontrar os poetas e romancistas beats espalhados pelos cômodos de sua casa.
Nordestino, Ciro Gomes não sentiu a miséria na própria pele, mas sabe que o sertanejo é antes de tudo um forte. Há quem o diga interessado em astrofísica. Mas o big bang deve ser para ele, no máximo, uma insólita curiosidade. Culto, apegado à prosódia dos conterrâneos, capaz de cometer "arrepares" em todas as entrevistas concedidas durante a campanha, ele certamente já leu e releu tudo de Graciliano Ramos, ama João Cabral de Melo Neto. Se brincar, herdeiro legítimo de uma verdadeira oligarquia local, já ganhou até dedicatórias de Ariano Suassuna. Eu o presentearia com a obra maior de Chico Dantas, 'Coivara da memória'.
Guilherme Boullos, por sua vez, é um radical. Leitura para ele é de Marx e Engels pra cima. Dá pra o imaginar folheando, talvez, um Dostoiévski, trancado no banheiro, com algum sentimento de culpa. Clarice Lispector, Oscar Wilde, James Joyce, Proust, Lya Luft, Pedro Juan Gutiérrez, Elena Ferrante ou Virginia Woolf, jamais!
Longe de mim, julgar um livro pela capa. Mas Marina Silva certamente conhece a bíblia de trás pra frente, de cor e salteado. E eu não vou perder tempo imaginando as leituras insalubres de homens caquéticos, caindo de velhos, com um pé na cova, como Henrique Meirelles e Geraldo Alckmin. 'A riqueza das nações' está lá, sobre um pedestal, sem nenhuma dúvida. O resto é mistério.