O pretexto da luta contra a corrupção

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Publicada em 21/08/2018 às 07:40:00

 

* Emir Sader
O tema é antigo. Desde que começou a perder eleições, a deixar de ter o governo do Brasil nas suas mãos, a direita passou a apelar para a defesa da moralidade, para a denúncia da corrupção dos líderes políticos que surgiam e lhes ganhavam eleições.
O primeiro foi Getulio. Tomou o poder das mãos da direita, daquela, muito bem representada por Washington Luis, para quem " a questão social é questão de polícia". Getulio era ditador e corrupto. Começou ali o mote que a direita nunca deixou de lado.
Deslocada pelas políticas sociais do Getulio, por garantir, pela primeira vez, direitos dos trabalhadores, inclusive de se sindicalizarem, foram derrotados sistematicamente. Se refugiaram na suposta defesa da "democracia", eles, que quando governavam se impunham através der um sistema político de coronéis, uma democracia de araque. Tentaram, na contrarrevolução de 1932 liderada por São Paulo, derrubar o Getulio e voltar à economia primária exportadora, dominada pelos barões do café.
Em São Paulo, não há praticamente nenhum espaço público com o nome de Getulio, o maior estadista brasileiro do século XX, mas avenidas, rodovias e outros espaços mais com o nome de Washington Luis, seu ídolo.
O mote da luta contra a corrupção e o estatismo - forma que assumiu a luta democrática, quando foi instaurado um sistema político liberal - continuou durante todo o segundo governo do Getulio, o do JK e o do Jango, até que desembocou no golpe e na ditadura militar.
Uma ditadura que, em nome de supostos riscos de uma ditadura de esquerda, impôs a mais brutal ditadura militar no Brasil, que destruiu tudo o que havia sido construído de democrático no pais. Ao mesmo tempo que instaurou um brutal sistema de corrupção, acobertado pela censura à imprensa. (O senador Severo Gomes me disse que a construção do aeroporto de Cumbica em São Paulo e a da ponte Rio-Niterói formam os maiores casos de corrupção durante a ditadura, devidamente acobertados pela censura à imprensa).
No retorno à democracia liberal, o governo de José Sarney deu continuidade à corrupção, com a conivência da direita, aquela mesma que reivindicava ser a campeã da luta contra a corrupção. O mesmo aconteceu com o governo de Collor, que só foi derrubado com o apoio dessa direita, quando as denúncias tornavam a situação dele insustentável.
Igualmente no governo FHC, em que a privatização indiscriminada de patrimônio público tornou-se o maior escândalo da história do Brasil, também acobertado pela mídia, que tinha naquele governo seu amparo fundamental.
Quando Lula triunfou, voltou a agenda da luta contra o estatismo e a corrupção como temas centrais da direita. Uma vez mais as denúncias de corrupção se davam como instrumento da luta contra um governo popular, que desfazia o modelo neoliberal, modelo assumido por toda a velha direita e a nova também - os tucanos.
A luta da direita é, ao mesmo tempo, para deslocar a agenda social, característica da esquerda, responsável pelo seu grande apoio popular. Não podendo questionar seus efeitos, tem que tentar abolir o tema.
A desqualificação do Estado, como fonte de corrupção, serve, ao mesmo tempo, para tentar desacreditar as políticas sociais como populistas, e para caracterizar as forças políticas que as implementam como corruptas.
A situação atual do Brasil é a mais paradoxal, também desse ponto de vista. O governo mais corrupto da história do pais foi instalado em nome da luta contra a corrupção. O Judiciário condena o líder político de mais prestigio na história do Brasil, sem nenhuma prova, apenas baseado em convicções de um juiz inimigo político frontal desse líder.
O uso da luta contra a corrupção volta a causar danos graves à democracia brasileira e a soberania do voto popular. O Judiciário perde credibilidade, os meios de comunicação que promoveram ativamente um impeachment sem justificativa, ficam reduzidos a órgãos partidários da direita.
A direita demonstra assim que não tem nada a propor ao país. Em muito pouco tempo o seu governo ficou reduzido a 3% de apoio e não consegue ter um candidato minimamente em condições de disputar as eleições com possibilidades de vitória. Sua vitória de Pirro levou o país à pior crise da sua história, da qual só poderá sair com uma contundente derrota política desse governo, assim como do Judiciário e dos meios de comunicação responsáveis pelo descalabro que vive o Brasil atualmente. Espero que na contagem regressiva para o seu final.
* Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

* Emir Sader

O tema é antigo. Desde que começou a perder eleições, a deixar de ter o governo do Brasil nas suas mãos, a direita passou a apelar para a defesa da moralidade, para a denúncia da corrupção dos líderes políticos que surgiam e lhes ganhavam eleições.
O primeiro foi Getulio. Tomou o poder das mãos da direita, daquela, muito bem representada por Washington Luis, para quem " a questão social é questão de polícia". Getulio era ditador e corrupto. Começou ali o mote que a direita nunca deixou de lado.
Deslocada pelas políticas sociais do Getulio, por garantir, pela primeira vez, direitos dos trabalhadores, inclusive de se sindicalizarem, foram derrotados sistematicamente. Se refugiaram na suposta defesa da "democracia", eles, que quando governavam se impunham através der um sistema político de coronéis, uma democracia de araque. Tentaram, na contrarrevolução de 1932 liderada por São Paulo, derrubar o Getulio e voltar à economia primária exportadora, dominada pelos barões do café.
Em São Paulo, não há praticamente nenhum espaço público com o nome de Getulio, o maior estadista brasileiro do século XX, mas avenidas, rodovias e outros espaços mais com o nome de Washington Luis, seu ídolo.
O mote da luta contra a corrupção e o estatismo - forma que assumiu a luta democrática, quando foi instaurado um sistema político liberal - continuou durante todo o segundo governo do Getulio, o do JK e o do Jango, até que desembocou no golpe e na ditadura militar.
Uma ditadura que, em nome de supostos riscos de uma ditadura de esquerda, impôs a mais brutal ditadura militar no Brasil, que destruiu tudo o que havia sido construído de democrático no pais. Ao mesmo tempo que instaurou um brutal sistema de corrupção, acobertado pela censura à imprensa. (O senador Severo Gomes me disse que a construção do aeroporto de Cumbica em São Paulo e a da ponte Rio-Niterói formam os maiores casos de corrupção durante a ditadura, devidamente acobertados pela censura à imprensa).
No retorno à democracia liberal, o governo de José Sarney deu continuidade à corrupção, com a conivência da direita, aquela mesma que reivindicava ser a campeã da luta contra a corrupção. O mesmo aconteceu com o governo de Collor, que só foi derrubado com o apoio dessa direita, quando as denúncias tornavam a situação dele insustentável.
Igualmente no governo FHC, em que a privatização indiscriminada de patrimônio público tornou-se o maior escândalo da história do Brasil, também acobertado pela mídia, que tinha naquele governo seu amparo fundamental.
Quando Lula triunfou, voltou a agenda da luta contra o estatismo e a corrupção como temas centrais da direita. Uma vez mais as denúncias de corrupção se davam como instrumento da luta contra um governo popular, que desfazia o modelo neoliberal, modelo assumido por toda a velha direita e a nova também - os tucanos.
A luta da direita é, ao mesmo tempo, para deslocar a agenda social, característica da esquerda, responsável pelo seu grande apoio popular. Não podendo questionar seus efeitos, tem que tentar abolir o tema.
A desqualificação do Estado, como fonte de corrupção, serve, ao mesmo tempo, para tentar desacreditar as políticas sociais como populistas, e para caracterizar as forças políticas que as implementam como corruptas.
A situação atual do Brasil é a mais paradoxal, também desse ponto de vista. O governo mais corrupto da história do pais foi instalado em nome da luta contra a corrupção. O Judiciário condena o líder político de mais prestigio na história do Brasil, sem nenhuma prova, apenas baseado em convicções de um juiz inimigo político frontal desse líder.
O uso da luta contra a corrupção volta a causar danos graves à democracia brasileira e a soberania do voto popular. O Judiciário perde credibilidade, os meios de comunicação que promoveram ativamente um impeachment sem justificativa, ficam reduzidos a órgãos partidários da direita.
A direita demonstra assim que não tem nada a propor ao país. Em muito pouco tempo o seu governo ficou reduzido a 3% de apoio e não consegue ter um candidato minimamente em condições de disputar as eleições com possibilidades de vitória. Sua vitória de Pirro levou o país à pior crise da sua história, da qual só poderá sair com uma contundente derrota política desse governo, assim como do Judiciário e dos meios de comunicação responsáveis pelo descalabro que vive o Brasil atualmente. Espero que na contagem regressiva para o seu final.

* Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros