Entre política e espetáculo

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Eleições no Brasil: Um eterno retorno...
Eleições no Brasil: Um eterno retorno...

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Publicada em 24/08/2018 às 05:28:00

 

Jornal do Dia - 'Impávido colosso' (2018) é o seu segundo filme ancorado em propaganda eleitoral de TV. O tema não se esgota? 
Fábio Rogério - A política brasileira é um prato cheio para a criação de obras artísticas. É uma fonte quase inesgotável de material para fazer filme. Não sou filiado a nenhum partido político, mas tenho uma atração imensa por política. Quando criança, morador de Boquim, às vezes, eu ia no mesmo dia tanto no comício do candidato da situação quanto no da oposição. Tudo aquilo era um espetáculo para mim e de alguma forma ainda é, mas claro que hoje tenho uma relação diferente com esse universo. Dos meus 5 curtas, 4 possuem a política como tema/assunto principal.
Marcelo Ikeda - Essas obras refletem sobre a importância da imagem como instrumento de marketing político. Entendo que a TV aberta permanece sendo o canal midiático de maior alcance para a exposição dos discursos dos candidatos. Além disso, o horário político eleitoral exibe as imagens preparadas pelos próprios candidatos. Assim, vemos estampadas as contradições do sistema partidário brasileiro.
Jornal do Dia - Há chance de o uso das redes sociais para fins de propaganda eleitoral dar origem a algum documentário? Como você observa esse fenômeno?
Fábio Rogério - Chance há e talvez saia um filme. Estou pesquisando e salvando as imagens da atual eleição. Vamos ver o que vai acontecer. O uso das redes sociais em um período eleitoral não é novidade, mas acredito que nessa eleição ela terá um peso maior que o horário eleitoral exibido em televisão. Bolsonaro não terá tempo no horário eleitoral, mas nas redes sociais ele tem uma militância muito engajada. Alckmin tem quase metade do tempo de televisão, mas não tem engajamento nas redes sociais. Dificilmente crescerá a ponto de estar presente no segundo turno.
Jornal do Dia - Quem vê 'Impávido colosso' pode ter a impressão de viver uma espécie de eterno retorno. Temas, embates e propostas se repetem. Em sua opinião, essa impressão é legítima? 
Fábio Rogério - É legítima, sim. São pequenas variações, mas no fundo tudo muito parecido. Tenho a impressão que apenas o tema da segurança ganhou destaque. No mais, tudo segue muito superficial e parecido, com uma diferença: Hoje, vemos tudo o que víamos em 1989, mas em alta definição. Ou seja, ironia à parte, não mudou nada. 
Marcelo Ikeda - Na verdade, acompanhamos falsos embates e propostas superficiais. Na maior parte das vezes, a performance dos candidatos convence mais do que o teor das propostas. Daí a importância da imagem como instrumento de marketing político.
Jornal do Dia - E, termos formais, o filme consiste em uma coleção de imagens de arquivo. Como foi realizada essa pesquisa? Vocês partiram de algum pressuposto?
Fábio Rogério - A pesquisa sobre as imagens de 1989 ficou restrita ao horário eleitoral veiculado na televisão e foi feita através do Youtube. O Youtube é hoje um grande acervo audiovisual público e de fácil acesso. Depois que selecionamos as imagens que estariam no filme fizemos um restauro no áudio com uma empresa especializada. Não foi definido um pressuposto, nos deixamos levar pela curiosidade e a intenção de mergulhar nas imagens e descobrir o que elas falam do Brasil, ver o que temos no Brasil hoje, 2018, nas imagens de 1989. 
Marcelo Ikeda - Quando selecionamos e reorganizamos essas imagens, buscamos preservar o distanciamento crítico, com o fim de provocar a reflexão. É como se disséssemos que é preciso prestar mais atenção para essas imagens, para o que elas nos informam, para além dos seus contextos específicos.
Jornal do Dia - Como você avalia o cenário político de polarização observado agora?  Ele difere muito de antagonismos passados?
Fábio Rogério - Eu penso que existe uma falsa polarização entre esquerda e direita na sociedade brasileira, pois a maioria das pessoas não sabe distinguir uma da outra. Há uma grande fragmentação de projetos políticos e isso é positivo, pois podemos pensar a política brasileira para além dessa falsa polarização entre PT e PSDB. 
A eleição presidencial desse ano se aproxima daquela pela imensa quantidade de candidaturas, mas vejo o quadro político atual de modo diferente. Hoje, os grandes partidos estão consolidados, apesar de estarem em crise. Em 1989, tivemos a primeira eleição presidencial desde 1960, depois de 29 anos sem votar para presidente. Hoje, apesar de todos os problemas do nosso sistema político temos eleições diretas a cada 4 anos. 
Basta comparar: Em 1989, o PT, assim como o PSDB, eram partidos recém criados, eram novidades. Hoje, há um desgaste muito grande da imagem desses partidos. Em 1989, tivemos Enéas, uma figura que ninguém levava a sério, hoje temos Bolsonaro com uma candidatura super competitiva. Em 1989, tivemos Gabeira pelo PV levantando a pauta ambiental, hoje temos Marina/Eduardo Jorge (Rede/PV) que também pautam a questão ambiental, mas são mais abrangentes. Em 1989, tínhamos Collor que fazia parte do governo anterior (Sarney) e criou uma imagem bem sucedida, ao transformar Sarney em inimigo político. Hoje temos Alckmin, cujo partido deu sustentação ao governo de Michel Temer, e agora fala como se não tivesse nada a ver com o governo do Temer.
Marcelo Ikeda - A ideia desse projeto é menos apontar para a polaridade entre candidatos e mais para o esgotamento do sistema político brasileiro. As propostas se perdem diante de um regime publicitário de performance sedutora, e, nesse aspecto, as campanhas não se polarizam, mas se assemelham.
Jornal do Dia - O embate político não se dá apenas em âmbito partidário e eleitoral. Vocês têm a intenção/consciência de usar o audiovisual com esse fim?
Marcelo Ikeda - O audiovisual é instrumento ativo de poder na sociedade. O marketing político já há muito utiliza o poder da imagem como instrumento de perpetuação do poder. Cineastas como Harun Farocki e Eduardo Coutinho refletiram sobre isso em outros filmes. O que buscamos é justamente gerar essa reflexão, sobre a relação entre política e imagem.

Selecionado pelo 29º Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, cuja abertura foi realizada ontem, com o tema 'Em busca do tempo de agora', o documentário 'Impávido colosso' (2018) não poderia ser mais oportuno. O filme comunica aquela que talvez a maior preocupação do realizador sergipano Fábio Rogério, aqui em parceria com Marcelo Ikeda: as implicações subjacentes entre política e espetáculo.

A partir de uma montagem da propaganda política obrigatória para a eleição presidencial de 1989, 'Impávido colosso' propõe um debate sobre a política tupiniquim, amparado pelo discurso dos principais candidatos de então, com acenos ao Brasil de hoje. Segundo Fábio Rogério, o fascínio é antigo, remonta à infância. E tem potencial para render muitos outros filmes.

Jornal do Dia - 'Impávido colosso' (2018) é o seu segundo filme ancorado em propaganda eleitoral de TV. O tema não se esgota? 

Fábio Rogério - A política brasileira é um prato cheio para a criação de obras artísticas. É uma fonte quase inesgotável de material para fazer filme. Não sou filiado a nenhum partido político, mas tenho uma atração imensa por política. Quando criança, morador de Boquim, às vezes, eu ia no mesmo dia tanto no comício do candidato da situação quanto no da oposição. Tudo aquilo era um espetáculo para mim e de alguma forma ainda é, mas claro que hoje tenho uma relação diferente com esse universo. Dos meus 5 curtas, 4 possuem a política como tema/assunto principal.

Marcelo Ikeda - Essas obras refletem sobre a importância da imagem como instrumento de marketing político. Entendo que a TV aberta permanece sendo o canal midiático de maior alcance para a exposição dos discursos dos candidatos. Além disso, o horário político eleitoral exibe as imagens preparadas pelos próprios candidatos. Assim, vemos estampadas as contradições do sistema partidário brasileiro.

Jornal do Dia - Há chance de o uso das redes sociais para fins de propaganda eleitoral dar origem a algum documentário? Como você observa esse fenômeno?

Fábio Rogério - Chance há e talvez saia um filme. Estou pesquisando e salvando as imagens da atual eleição. Vamos ver o que vai acontecer. O uso das redes sociais em um período eleitoral não é novidade, mas acredito que nessa eleição ela terá um peso maior que o horário eleitoral exibido em televisão. Bolsonaro não terá tempo no horário eleitoral, mas nas redes sociais ele tem uma militância muito engajada. Alckmin tem quase metade do tempo de televisão, mas não tem engajamento nas redes sociais. Dificilmente crescerá a ponto de estar presente no segundo turno.

Jornal do Dia - Quem vê 'Impávido colosso' pode ter a impressão de viver uma espécie de eterno retorno. Temas, embates e propostas se repetem. Em sua opinião, essa impressão é legítima? 

Fábio Rogério - É legítima, sim. São pequenas variações, mas no fundo tudo muito parecido. Tenho a impressão que apenas o tema da segurança ganhou destaque. No mais, tudo segue muito superficial e parecido, com uma diferença: Hoje, vemos tudo o que víamos em 1989, mas em alta definição. Ou seja, ironia à parte, não mudou nada. 

Marcelo Ikeda - Na verdade, acompanhamos falsos embates e propostas superficiais. Na maior parte das vezes, a performance dos candidatos convence mais do que o teor das propostas. Daí a importância da imagem como instrumento de marketing político.

Jornal do Dia - E, termos formais, o filme consiste em uma coleção de imagens de arquivo. Como foi realizada essa pesquisa? Vocês partiram de algum pressuposto?

Fábio Rogério - A pesquisa sobre as imagens de 1989 ficou restrita ao horário eleitoral veiculado na televisão e foi feita através do Youtube. O Youtube é hoje um grande acervo audiovisual público e de fácil acesso. Depois que selecionamos as imagens que estariam no filme fizemos um restauro no áudio com uma empresa especializada. Não foi definido um pressuposto, nos deixamos levar pela curiosidade e a intenção de mergulhar nas imagens e descobrir o que elas falam do Brasil, ver o que temos no Brasil hoje, 2018, nas imagens de 1989. 

Marcelo Ikeda - Quando selecionamos e reorganizamos essas imagens, buscamos preservar o distanciamento crítico, com o fim de provocar a reflexão. É como se disséssemos que é preciso prestar mais atenção para essas imagens, para o que elas nos informam, para além dos seus contextos específicos.

Jornal do Dia - Como você avalia o cenário político de polarização observado agora?  Ele difere muito de antagonismos passados?

Fábio Rogério - Eu penso que existe uma falsa polarização entre esquerda e direita na sociedade brasileira, pois a maioria das pessoas não sabe distinguir uma da outra. Há uma grande fragmentação de projetos políticos e isso é positivo, pois podemos pensar a política brasileira para além dessa falsa polarização entre PT e PSDB. 
A eleição presidencial desse ano se aproxima daquela pela imensa quantidade de candidaturas, mas vejo o quadro político atual de modo diferente. Hoje, os grandes partidos estão consolidados, apesar de estarem em crise. Em 1989, tivemos a primeira eleição presidencial desde 1960, depois de 29 anos sem votar para presidente. Hoje, apesar de todos os problemas do nosso sistema político temos eleições diretas a cada 4 anos. 
Basta comparar: Em 1989, o PT, assim como o PSDB, eram partidos recém criados, eram novidades. Hoje, há um desgaste muito grande da imagem desses partidos. Em 1989, tivemos Enéas, uma figura que ninguém levava a sério, hoje temos Bolsonaro com uma candidatura super competitiva. Em 1989, tivemos Gabeira pelo PV levantando a pauta ambiental, hoje temos Marina/Eduardo Jorge (Rede/PV) que também pautam a questão ambiental, mas são mais abrangentes. Em 1989, tínhamos Collor que fazia parte do governo anterior (Sarney) e criou uma imagem bem sucedida, ao transformar Sarney em inimigo político. Hoje temos Alckmin, cujo partido deu sustentação ao governo de Michel Temer, e agora fala como se não tivesse nada a ver com o governo do Temer.

Marcelo Ikeda - A ideia desse projeto é menos apontar para a polaridade entre candidatos e mais para o esgotamento do sistema político brasileiro. As propostas se perdem diante de um regime publicitário de performance sedutora, e, nesse aspecto, as campanhas não se polarizam, mas se assemelham.

Jornal do Dia - O embate político não se dá apenas em âmbito partidário e eleitoral. Vocês têm a intenção/consciência de usar o audiovisual com esse fim?

Marcelo Ikeda - O audiovisual é instrumento ativo de poder na sociedade. O marketing político já há muito utiliza o poder da imagem como instrumento de perpetuação do poder. Cineastas como Harun Farocki e Eduardo Coutinho refletiram sobre isso em outros filmes. O que buscamos é justamente gerar essa reflexão, sobre a relação entre política e imagem.