A febre do novo

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 24/08/2018 às 06:11:00

 

* Antonio Samarone 
Li os programas e assisti ao debate entre os candidatos ao governo de Sergipe. Estou convencido: todos querem mudar tudo e passar Sergipe a limpo. As perguntas e as respostas são as mesmas, independente da coloração ideológica. Formou-se um grande consenso. As ideologias foram temporariamente sepultadas. Como dizia o Velho: "Tudo o que era sólido se desmanchou no ar".
Jornalistas e plateia puderam perguntar aos candidatos. Quem esperava novidades quebrou a cara, o mesmo senso comum, as mesmas obviedades. A sensação é que os que nos botaram nessa enrascada não estão mais por aqui. Uma pessoa que há pouco era Secretário de Segurança se apresenta detonando a segurança pública, e vai fundo, diz que sabe como resolver.
Tem de tudo. De gente que está na política há 30 anos e que já ocupou todos os cargos, a quem nunca teve a menor experiência. O que eles têm em comum? A crença que são o novo, e que a história vai recomeçar com eles. Os diagnósticos sobre a realidade são peremptórios: estamos diante do caos, nada funciona... Alguns insistem que estão na disputa política, mas que não são políticos. Outros assumem que são políticos, mas tão novos e diferenciados, quem nem parecem políticos.
Tem candidato que acredita possuir saídas técnicas para todos os problemas. Não se intimida. Está convencido que vai resolver. O desemprego, as drogas, o sarampo, a evasão escolar, estão com os dias contados. Chegou a dizer que vai criar 10 mil empregos com a reciclagem do lixo, e parecia acreditar.
O mercado das ideias está desabastecido. Qualquer que seja o problema, saúde, segurança, desemprego, as saídas são parecidas. A profunda diversidade entre os candidatos é unificada nos projetos e nas ideias. Todos enxergam a mesma saída. Nada que um defenda que o outro não possa defender. Claro, com exceção de algumas excentricidades.
Todos são novos, ninguém defende o que existe. Nem o candidato que o seu grupo está no governo há 12 anos defende o governo. O programa de Belivaldo faz duras críticas ao governo Belivaldo. É como se dissesse: me suportem até 31 de janeiro, que a partir de 2019 começa um novo mundo, cheio de mudanças e de soluções. E o mais grave, Belivaldo acredita que ele próprio será outro em janeiro. O réveillon será um rito de passagem.
Mas as eleições estão chegando e precisamos votar. Cada um faça a sua escolha. Eu já decidi: não voto em candidatos envolvidos em ladroagem, nem em quem já teve oportunidades de mudar e não mudou, nem em salvadores da pátria, nem em quem acredita que só ele é puro, nem em quem pensa que tem a solução para tudo. Tenho receio dos "não políticos", me cheira a oportunismo ou ingenuidade.
Estou convencido, pode demorar, mas vamos sair do atoleiro.
* Antonio Samarone  é médico sanitarista 

* Antonio Samarone 

Li os programas e assisti ao debate entre os candidatos ao governo de Sergipe. Estou convencido: todos querem mudar tudo e passar Sergipe a limpo. As perguntas e as respostas são as mesmas, independente da coloração ideológica. Formou-se um grande consenso. As ideologias foram temporariamente sepultadas. Como dizia o Velho: "Tudo o que era sólido se desmanchou no ar".
Jornalistas e plateia puderam perguntar aos candidatos. Quem esperava novidades quebrou a cara, o mesmo senso comum, as mesmas obviedades. A sensação é que os que nos botaram nessa enrascada não estão mais por aqui. Uma pessoa que há pouco era Secretário de Segurança se apresenta detonando a segurança pública, e vai fundo, diz que sabe como resolver.
Tem de tudo. De gente que está na política há 30 anos e que já ocupou todos os cargos, a quem nunca teve a menor experiência. O que eles têm em comum? A crença que são o novo, e que a história vai recomeçar com eles. Os diagnósticos sobre a realidade são peremptórios: estamos diante do caos, nada funciona... Alguns insistem que estão na disputa política, mas que não são políticos. Outros assumem que são políticos, mas tão novos e diferenciados, quem nem parecem políticos.
Tem candidato que acredita possuir saídas técnicas para todos os problemas. Não se intimida. Está convencido que vai resolver. O desemprego, as drogas, o sarampo, a evasão escolar, estão com os dias contados. Chegou a dizer que vai criar 10 mil empregos com a reciclagem do lixo, e parecia acreditar.
O mercado das ideias está desabastecido. Qualquer que seja o problema, saúde, segurança, desemprego, as saídas são parecidas. A profunda diversidade entre os candidatos é unificada nos projetos e nas ideias. Todos enxergam a mesma saída. Nada que um defenda que o outro não possa defender. Claro, com exceção de algumas excentricidades.
Todos são novos, ninguém defende o que existe. Nem o candidato que o seu grupo está no governo há 12 anos defende o governo. O programa de Belivaldo faz duras críticas ao governo Belivaldo. É como se dissesse: me suportem até 31 de janeiro, que a partir de 2019 começa um novo mundo, cheio de mudanças e de soluções. E o mais grave, Belivaldo acredita que ele próprio será outro em janeiro. O réveillon será um rito de passagem.
Mas as eleições estão chegando e precisamos votar. Cada um faça a sua escolha. Eu já decidi: não voto em candidatos envolvidos em ladroagem, nem em quem já teve oportunidades de mudar e não mudou, nem em salvadores da pátria, nem em quem acredita que só ele é puro, nem em quem pensa que tem a solução para tudo. Tenho receio dos "não políticos", me cheira a oportunismo ou ingenuidade.
Estou convencido, pode demorar, mas vamos sair do atoleiro.

* Antonio Samarone  é médico sanitarista