A assinatura Ferrante

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto
Duas amigas encurraladas em ambiente agreste.
Duas amigas encurraladas em ambiente agreste.

Clique nas imagens para ampliar

Publicada em 25/08/2018 às 07:37:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Acabo de ler a série 
napolitana de Elena 
Ferrante, uma escritora sem rosto conhecido, capaz de inflamar a minha imaginação por meses a fio. Lá se vão quase duas mil páginas, divididas em quatro volumes. Um calhamaço que ainda assim não contem a extensão completa de tanto fascínio.
O mistério biográfico pairando sobre a assinatura Ferrante, de um italiano musical, próprio das grandes óperas, encontra ressonância na história de uma infância miserável, sujeita às tensões políticas do pós guerra. O bairro velho, onde a protagonista nasce e cresce, espelhando-se numa amiga, inconsciente das engrenagens que movem o mundo, até virar gente, é palco de um espetáculo mesquinho, uma luta de vida e morte entre as necessidades mais prementes da sobrevivência e a vocação para a beleza em ambiente agreste.
Para Ferrante, a violência e a grosseria, a brutalidade, correspondem ao exato oposto da Cultura. Há, naturalmente, quem abra a boca cheia de palavras difíceis para defender as ideias mais ignóbeis, de modo afetado. Mas estes são intelectuais, jamais foram tocados de verdade pela pulsão nas entrelinhas de um romance. Não por acaso, o dialeto dos pobres soa incompreensível aos ouvidos limpos dos italianos de boa educação. Aqui, mais que o dinheiro, a língua é instrumento de poder, uma fissura, um território bem demarcado vedado aos bárbaros, impedido aos subalternos.
Entre o caos e a ordem, num insuspeito ponto de intersecção, resta o sexo, um subterfúgio. Os apetites do corpo propiciam toda a sorte de experiências, motivo da mais completa alegria e também da subordinação mais asquerosa. Na intimidade de homem e mulher, revela-se o que escapa à linguagem, com a devoção, a fúria e o egoísmo de um bicho.
A tetralogia dá tanto pano pra manga, que a HBO está investido numa adaptação televisiva, em parceria com a TV pública italiana e consultoria da própria escritora. A julgar por depoimento do produtor Lorenzo Mieli, há potencial para uma verdadeira revolução. Mas esse é ainda um tiro no escuro. Os livros, eu garanto, acertam o alvo de olhos fechados.

Acabo de ler a série  napolitana de Elena  Ferrante, uma escritora sem rosto conhecido, capaz de inflamar a minha imaginação por meses a fio. Lá se vão quase duas mil páginas, divididas em quatro volumes. Um calhamaço que ainda assim não contem a extensão completa de tanto fascínio.
O mistério biográfico pairando sobre a assinatura Ferrante, de um italiano musical, próprio das grandes óperas, encontra ressonância na história de uma infância miserável, sujeita às tensões políticas do pós guerra. O bairro velho, onde a protagonista nasce e cresce, espelhando-se numa amiga, inconsciente das engrenagens que movem o mundo, até virar gente, é palco de um espetáculo mesquinho, uma luta de vida e morte entre as necessidades mais prementes da sobrevivência e a vocação para a beleza em ambiente agreste.
Para Ferrante, a violência e a grosseria, a brutalidade, correspondem ao exato oposto da Cultura. Há, naturalmente, quem abra a boca cheia de palavras difíceis para defender as ideias mais ignóbeis, de modo afetado. Mas estes são intelectuais, jamais foram tocados de verdade pela pulsão nas entrelinhas de um romance. Não por acaso, o dialeto dos pobres soa incompreensível aos ouvidos limpos dos italianos de boa educação. Aqui, mais que o dinheiro, a língua é instrumento de poder, uma fissura, um território bem demarcado vedado aos bárbaros, impedido aos subalternos.
Entre o caos e a ordem, num insuspeito ponto de intersecção, resta o sexo, um subterfúgio. Os apetites do corpo propiciam toda a sorte de experiências, motivo da mais completa alegria e também da subordinação mais asquerosa. Na intimidade de homem e mulher, revela-se o que escapa à linguagem, com a devoção, a fúria e o egoísmo de um bicho.
A tetralogia dá tanto pano pra manga, que a HBO está investido numa adaptação televisiva, em parceria com a TV pública italiana e consultoria da própria escritora. A julgar por depoimento do produtor Lorenzo Mieli, há potencial para uma verdadeira revolução. Mas esse é ainda um tiro no escuro. Os livros, eu garanto, acertam o alvo de olhos fechados.