Gilberto Gil está velho

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Condescendente, como ele só
Condescendente, como ele só

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Publicada em 29/08/2018 às 07:17:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Para minha surpresa, 
Gilberto Gil está cain-
do de velho. Não se fala aqui dos cabelos brancos, nem dos setenta e tantos anos bem vividos pelo cantor e compositor baiano, uma legenda da Música Popular Brasileira. Trata-se, isso sim, do pulso fraco desaconselhando o seu último disco. Fosse obra de outro, 'OK OK OK' não mereceria nem uma linha em letra de imprensa.
Mas Gil é Gil, um músico capaz de participar de uma ruidosa passeata contra a guitarra elétrica e emular riffs de inspiração roqueira, impunemente. Nem toda a má vontade do mundo negaria a ele, entretanto, os feitos da própria discografia. Mesmo depois da Tropicália - um dos raros sopros de renovação arejando a história da MPB, desde sempre muito conservadora, no pior sentido da palavra -, o irmão preto de Caetano esteve sempre na linha de frente de uma batalha estética orientada para a ampliação do horizonte musical brasileiro.
A essa disposição para a novidade devemos todos a preciosidade batizada 'Refavela' (1978), já celebrado nesta página, por ocasião do aniversário de 40 anos. Ali está registrado o melhor de Gil. Hoje, o esforço de aproximação com as periferias globais talvez não impressione o ouvinte menos atento, alheio ao contexto de então. Lá atrás, antes de a fusão virar regra, no entanto, a pegada do terceiro mundo não havia ainda sido assimilada pela indústria fonográfica. Gil foi pioneiro, um desbravador.
Em 'OK OK OK', no entanto, o Gil das passeatas dá as caras de novo, condescendente como ele só. Nem bem se afirma mais preocupado com as próprias dores nas costas e faz poesia de suas mesquinharias domésticas, nem bem toma partido e mergulha nos ritmos emergindo aqui e ali, por obra e graça das tensões à flor da pele numa terra eternamente em transe. Neste particular, até o quadrado Chico Buarque, seu companheiro de geração, foi mais longe. Sobra em 'Caravanas', uma canção soberba, com toda a perspicácia de que o sambista é capaz, o que faz tanta falta no lamento exangue de Gil.
Naturalmente, a grande imprensa, apegada a sua vocação cartorial, cobriu o baiano de louvores. Um chegou a escrever que, depois de sofrer o diabo, às voltas com enfermeiras, médicos e hospitais, o artista nos oferta a sua melhor safra de canções neste século, resvalando em desonestidade intelectual. Seria mais bonito assumir a tietagem de vez e afirmar, com todas as letras: Gil está vivo e, para alguns, isso é tudo o que importa.

Para minha surpresa,  Gilberto Gil está cain- do de velho. Não se fala aqui dos cabelos brancos, nem dos setenta e tantos anos bem vividos pelo cantor e compositor baiano, uma legenda da Música Popular Brasileira. Trata-se, isso sim, do pulso fraco desaconselhando o seu último disco. Fosse obra de outro, 'OK OK OK' não mereceria nem uma linha em letra de imprensa.
Mas Gil é Gil, um músico capaz de participar de uma ruidosa passeata contra a guitarra elétrica e emular riffs de inspiração roqueira, impunemente. Nem toda a má vontade do mundo negaria a ele, entretanto, os feitos da própria discografia. Mesmo depois da Tropicália - um dos raros sopros de renovação arejando a história da MPB, desde sempre muito conservadora, no pior sentido da palavra -, o irmão preto de Caetano esteve sempre na linha de frente de uma batalha estética orientada para a ampliação do horizonte musical brasileiro.
A essa disposição para a novidade devemos todos a preciosidade batizada 'Refavela' (1978), já celebrado nesta página, por ocasião do aniversário de 40 anos. Ali está registrado o melhor de Gil. Hoje, o esforço de aproximação com as periferias globais talvez não impressione o ouvinte menos atento, alheio ao contexto de então. Lá atrás, antes de a fusão virar regra, no entanto, a pegada do terceiro mundo não havia ainda sido assimilada pela indústria fonográfica. Gil foi pioneiro, um desbravador.
Em 'OK OK OK', no entanto, o Gil das passeatas dá as caras de novo, condescendente como ele só. Nem bem se afirma mais preocupado com as próprias dores nas costas e faz poesia de suas mesquinharias domésticas, nem bem toma partido e mergulha nos ritmos emergindo aqui e ali, por obra e graça das tensões à flor da pele numa terra eternamente em transe. Neste particular, até o quadrado Chico Buarque, seu companheiro de geração, foi mais longe. Sobra em 'Caravanas', uma canção soberba, com toda a perspicácia de que o sambista é capaz, o que faz tanta falta no lamento exangue de Gil.
Naturalmente, a grande imprensa, apegada a sua vocação cartorial, cobriu o baiano de louvores. Um chegou a escrever que, depois de sofrer o diabo, às voltas com enfermeiras, médicos e hospitais, o artista nos oferta a sua melhor safra de canções neste século, resvalando em desonestidade intelectual. Seria mais bonito assumir a tietagem de vez e afirmar, com todas as letras: Gil está vivo e, para alguns, isso é tudo o que importa.