Os 'çábios' da minha aldeia

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Publicada em 31/08/2018 às 07:46:00

 

* Lelê Teles
Na minha aldeia tem um largo que serve de ágora. Ali, parlamenta toda a comunidade.
Nos dias normais, os homens se encontram para trocar abraços, autoelogios, contar lorotas e difamar as mulheres; mesmo as esposas.
A regra é que não se pode falar mal da mulher alheia. Então, cada um desanca a sua.
Há também um velho griot contador de causos. É ele que não deixa morrer as histórias da comunidade.
Chamar-se-ia fofoqueiro se vivesse em outras paragens. Mas nós conservamos o léxico ancestral.
Como os tempos são bicudos, só se fala em política. Mesmo quando querem falar mal das mulheres.
Há um grupo de selvagens urbanizados que votam em Bolsonaro, são os cidadãos de bens.  
Pois eis que, certa noite, à beira da fogueira, chegaram todos embriagados de uma partida de futebol. Cantavam hinos machistas, jactavam-se de suas bebedeiras, mentiam sobre aventuras sexuais, enfim, enchiam o saco das almas serenas.
Foi então que o velho lhes perguntou: "filhos do tormento e da amargura, por que gritar em alegria as suas tristezas?"
"Bolsonaro 2018", gritou um. O outro fez com a mão o gesto de quem usa uma arma de fogo.
O velho, ainda mantendo a tranquilidade, perguntou mais uma vez: "eu os vi, todos, ainda infantes, com o nariz sujo, a correr por essas ruas de chão batido. Eram, todos, garotos inteligentes e curiosos. Porém, cresceram obtusos e belicosos. por que diabos querem tanto uma arma?"
"Para nos defender, bradou um bombadinho".
E o velho redarguiu: "mas a arma serve para atacar, para defender-se foram feitos elmos e escudos?"
Um jovem envelhecido, de bigodinho, não gostou da recomendação: "E por acaso sairemos às ruas armados de armadura enquanto os bandidos andam livres, de chinelos e ponto 40?"
"Bandido bom é bandido morto", gritaram em coro.
Dona Magda, esposa de Velho Benga, tentou entrar na conversa: "Os bandidos mais perigosos usam gravatas. Uma caneta numa mão errada é mais letal que um revólver enferrujado. Pode provocar mortes coletivas. Os ruralistas mandam e desmandam, matam e desmatam..."
"Cala a boca, Magda", gritou um adolescente arruivado, erguendo o dedo médio.
O velho, de saco cheio com o mainsplainig habitual da rapaziada, pediu mais respeito.
"As mulheres querem ocupar nossos espaços, elas são nossas inimigas agora. Precisam ler Paulo nas escrituras", ouviu-se de alguém no meio da turba.
"Não desvia a conversa, voltemos às armas", gritou outro.
E o Velho Griot gritou para a turba ensandecida: "queridos, vejo aqui no meu tablet que uma pistola automática custa oito mil reais..."
"A gente parcela", disse o pobre de direita.
"Sim, mas aí, ao invés de votar em Bolsonaro vocês precisam votar no Ciro, para ele tirar os seus nomes do SPC".
Em silêncio, coçaram a cabeça.
"E digo mais", gritou o Velho, "antes disso é melhor votarem em Lula, para que tenham emprego e possam pagar as faturas".
O silêncio dominou o ambiente. Só se ouvia o crepitar da madeira e o estalar no fogareiro.
Palavras sapienciais.
* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista

* Lelê Teles

Na minha aldeia tem um largo que serve de ágora. Ali, parlamenta toda a comunidade.
Nos dias normais, os homens se encontram para trocar abraços, autoelogios, contar lorotas e difamar as mulheres; mesmo as esposas.
A regra é que não se pode falar mal da mulher alheia. Então, cada um desanca a sua.
Há também um velho griot contador de causos. É ele que não deixa morrer as histórias da comunidade.
Chamar-se-ia fofoqueiro se vivesse em outras paragens. Mas nós conservamos o léxico ancestral.
Como os tempos são bicudos, só se fala em política. Mesmo quando querem falar mal das mulheres.
Há um grupo de selvagens urbanizados que votam em Bolsonaro, são os cidadãos de bens.  
Pois eis que, certa noite, à beira da fogueira, chegaram todos embriagados de uma partida de futebol. Cantavam hinos machistas, jactavam-se de suas bebedeiras, mentiam sobre aventuras sexuais, enfim, enchiam o saco das almas serenas.
Foi então que o velho lhes perguntou: "filhos do tormento e da amargura, por que gritar em alegria as suas tristezas?"
"Bolsonaro 2018", gritou um. O outro fez com a mão o gesto de quem usa uma arma de fogo.
O velho, ainda mantendo a tranquilidade, perguntou mais uma vez: "eu os vi, todos, ainda infantes, com o nariz sujo, a correr por essas ruas de chão batido. Eram, todos, garotos inteligentes e curiosos. Porém, cresceram obtusos e belicosos. por que diabos querem tanto uma arma?"
"Para nos defender, bradou um bombadinho".
E o velho redarguiu: "mas a arma serve para atacar, para defender-se foram feitos elmos e escudos?"
Um jovem envelhecido, de bigodinho, não gostou da recomendação: "E por acaso sairemos às ruas armados de armadura enquanto os bandidos andam livres, de chinelos e ponto 40?"
"Bandido bom é bandido morto", gritaram em coro.
Dona Magda, esposa de Velho Benga, tentou entrar na conversa: "Os bandidos mais perigosos usam gravatas. Uma caneta numa mão errada é mais letal que um revólver enferrujado. Pode provocar mortes coletivas. Os ruralistas mandam e desmandam, matam e desmatam..."
"Cala a boca, Magda", gritou um adolescente arruivado, erguendo o dedo médio.
O velho, de saco cheio com o mainsplainig habitual da rapaziada, pediu mais respeito.
"As mulheres querem ocupar nossos espaços, elas são nossas inimigas agora. Precisam ler Paulo nas escrituras", ouviu-se de alguém no meio da turba.
"Não desvia a conversa, voltemos às armas", gritou outro.
E o Velho Griot gritou para a turba ensandecida: "queridos, vejo aqui no meu tablet que uma pistola automática custa oito mil reais..."
"A gente parcela", disse o pobre de direita.
"Sim, mas aí, ao invés de votar em Bolsonaro vocês precisam votar no Ciro, para ele tirar os seus nomes do SPC".
Em silêncio, coçaram a cabeça.
"E digo mais", gritou o Velho, "antes disso é melhor votarem em Lula, para que tenham emprego e possam pagar as faturas".
O silêncio dominou o ambiente. Só se ouvia o crepitar da madeira e o estalar no fogareiro.
Palavras sapienciais.

* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista