Cara lisa e água com açúcar

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto
A falta que uma Cássia Eller faz...
A falta que uma Cássia Eller faz...

Clique nas imagens para ampliar

Publicada em 01/09/2018 às 07:35:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Aos 23 anos, antes de 
perder todas as ilu-
sões e os primeiros fios de cabelo branco, o sujeito talvez se comova com os versos edulcorados da dupla AnaVitória. Entre as eventuais vantagens da experiência pouca, concorre justamente a falta de referências - dádiva duvidosa, derivada de um repertório exíguo, circunstância de quem ainda tem muita vida a enfrentar pela frente. Alguém mais calejado, no entanto, dificilmente vai ter paciência para as rimas fáceis das meninas. Os marmanjos sem nenhum pudor que dão aval ao xarope romântico, solução de água com açúcar, sabem muito bem quanto dinheiro botam no bolso com a cara lisa que Deus lhes deu.
Outro dia, doente de tédio, acabei me rendendo à televisão. Eu pulava de canal em canal, controle remoto à mão, com a música dos Titãs na cabeça: A televisão me deixou burro demais. Para minha surpresa, dei de cara com o próprio Nando Reis, violão em punho e barba ruiva, ladeado por duas quase adolescentes, ainda cheirando a leite. Deu desgosto. O encontro de um roqueiro sobrevivente, egresso dos controversos anos 80, com o pop sem pulso de AnaVitória, gritou em meus ouvidos a falta que uma Cássia Eller faz.
De todo modo, as duas têm os pés firmes num cenário mantido por cifras de gente grande. Após uma estréia rumorosa, impulsionada por estruturas comerciais gigantescas, ameaçadas de extinção por força de uma grandeza insustentável, Ana Vitória cometeu o recém lançado 'O tempo é agora'. O título sugere o amadurecimento da dupla. Mas apesar do batismo mentiroso, o disco peca por uma vacuidade alarmante.
O "agora" pronunciado por AnaVitória soa como um balão de ensaio expelindo vapor cor de rosa, pouco tem a ver com o mundo real e as pessoas de carne e osso. Até aí, novidade nenhuma. De idealização, a música popular dos quatro cantos está cheia. Sempre cola. Mas se nenhum artista é obrigado às urgências coletivas, uma questão de foro íntimo, ninguém batiza um disco com nome tão animoso impunemente.
Há quem acredite que as canções de amor serão sempre necessárias. E eu assino embaixo. Vira e mexe, quando as cervejas sobram, perco os modos e esqueço os vizinhos, boto o volume em toda a altura. 'Fio de cabelo' (Chitãozinho e Xororó), 'Olhos nos olhos' (Chico Buarque), 'Detalhes' (Roberto e Erasmo) despedaçam então a madrugada em falsetes de sentimento derramado. Mas para ouvir AnaVitória, antes de costurar estas palavras, usei fones de ouvidos, resguardado em puro recato. Um pouco de vergonha na cara nunca fez mal a ninguém.
AnaVitória apresenta 'O tempo é agora' em Aracaju:
05 de setembro, no Espaço Emes.

Aos 23 anos, antes de  perder todas as ilu- sões e os primeiros fios de cabelo branco, o sujeito talvez se comova com os versos edulcorados da dupla AnaVitória. Entre as eventuais vantagens da experiência pouca, concorre justamente a falta de referências - dádiva duvidosa, derivada de um repertório exíguo, circunstância de quem ainda tem muita vida a enfrentar pela frente. Alguém mais calejado, no entanto, dificilmente vai ter paciência para as rimas fáceis das meninas. Os marmanjos sem nenhum pudor que dão aval ao xarope romântico, solução de água com açúcar, sabem muito bem quanto dinheiro botam no bolso com a cara lisa que Deus lhes deu.
Outro dia, doente de tédio, acabei me rendendo à televisão. Eu pulava de canal em canal, controle remoto à mão, com a música dos Titãs na cabeça: A televisão me deixou burro demais. Para minha surpresa, dei de cara com o próprio Nando Reis, violão em punho e barba ruiva, ladeado por duas quase adolescentes, ainda cheirando a leite. Deu desgosto. O encontro de um roqueiro sobrevivente, egresso dos controversos anos 80, com o pop sem pulso de AnaVitória, gritou em meus ouvidos a falta que uma Cássia Eller faz.
De todo modo, as duas têm os pés firmes num cenário mantido por cifras de gente grande. Após uma estréia rumorosa, impulsionada por estruturas comerciais gigantescas, ameaçadas de extinção por força de uma grandeza insustentável, Ana Vitória cometeu o recém lançado 'O tempo é agora'. O título sugere o amadurecimento da dupla. Mas apesar do batismo mentiroso, o disco peca por uma vacuidade alarmante.
O "agora" pronunciado por AnaVitória soa como um balão de ensaio expelindo vapor cor de rosa, pouco tem a ver com o mundo real e as pessoas de carne e osso. Até aí, novidade nenhuma. De idealização, a música popular dos quatro cantos está cheia. Sempre cola. Mas se nenhum artista é obrigado às urgências coletivas, uma questão de foro íntimo, ninguém batiza um disco com nome tão animoso impunemente.
Há quem acredite que as canções de amor serão sempre necessárias. E eu assino embaixo. Vira e mexe, quando as cervejas sobram, perco os modos e esqueço os vizinhos, boto o volume em toda a altura. 'Fio de cabelo' (Chitãozinho e Xororó), 'Olhos nos olhos' (Chico Buarque), 'Detalhes' (Roberto e Erasmo) despedaçam então a madrugada em falsetes de sentimento derramado. Mas para ouvir AnaVitória, antes de costurar estas palavras, usei fones de ouvidos, resguardado em puro recato. Um pouco de vergonha na cara nunca fez mal a ninguém.
AnaVitória apresenta 'O tempo é agora' em Aracaju:
05 de setembro, no Espaço Emes.