DESPERDÍCIO E FOME

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Publicada em 01/09/2018 às 08:06:00

 

* Manoel Moacir Costa Macêdo
Nada mais humilhante para uma nação, que negar os sustentos para os seus filhos, em especial a carência de alimentos. Quando isso acontece, existe fome. Uma afronta à dignidade humana. Uma realidade consentida por homens e mulheres de posse. Não é castigo dos deuses, mas injustiça humana. Não comer é pena de morte seletiva e sem culpa. Uma morte que envergonha uma Nação cristã. Uma ferida aberta numa civilização em tempo de tecnologia e inovação e fartura. 
A fome é a chaga mais dolorosa da humanidade. Ela não é uma fatalidade, mas uma realidade previsível, consentida e anunciada. Não enfraquece apenas o corpo, mas a alma, a família e a sociabilidade. Quebra de forma doída o ciclo da vida. Interrompe artificialmente, o tempo reencarnatório do nascer ao morrer. Ela tem causas visíveis, como a pobreza, a miséria, a desigualdade, a concentração de riqueza e políticas públicas com vieses para exportação e cadeias agroindustriais sofisticadas em capital. 
Existe insegurança alimentar quando a oferta de grãos, for abaixo de 250 kg/pessoas/ano. No caso brasileiro, a safra recente de 217 milhões de toneladas de grãos, uma tonelada por habitante, quatro vezes mais que o recomendado como segurança alimentar. Um país que não alimenta a sua gente, é um país injusto, com o futuro comprometido. Uma vergonha para um País continental, exuberantes recursos naturais, áreas agricultáveis, competência científica, água disponível, energia renovável, mercado abundante, e gente faminta.
O Brasil produz os alimentos suficientes para nutrir os seus filhos. A cada ano, safras se sucedem com badalados recordes. Resultados da inteligência brasileira com as suas agriculturas. Ciência, assistência técnica, e incentivos públicos substantivam essa revolução na produção de alimentos. Não é pouco, para um País que no tempo recente, carecia de produtos básicos de alimentação. Hoje, um relevante exportador na economia internacional do trabalho. Uma contradição à sua realidade faminta. Desprezo às carências dos pobres e desvalidos, não apenas em comida, mas em saúde, segurança, educação e civilidade. Uma cidadania malformada e incompleta. No dizer de Allan Kardec, "numa sociedade onde alguém morre de fome, deveríamos ter constrangimento de viver nela".
Euforia de ser o maior exportador de alimentos do mundo. Vergonha de perdas em até 40% dos alimentos prontos e acabados, incluindo o ciclo da produção, distribuição e consumo. Alimentos suficientes para alimentar 11 milhões de humanos são desperdiçados. Inadmissível numa sociedade com fome e pobre. 15 milhões de brasileiras e brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza, sem capacidade de comprar comida. 1,0% da população mais rica ganha 36 vezes mais do que os 50% mais pobres. O Brasil, possui as condições de atender à emergente demanda mundial por comida. Em breve seremos dez bilhões de habitantes. Atualmente, um bilhão de pessoas sofre com desnutrição. Desperdício e desigualdade inaceitáveis. Não conta o desperdício apenas dos alimentos, mas esforço humano, água, terra, meio ambiente e recursos financeiros. 
Estatísticas dolorosas do desperdício são mantidas por décadas. 30% de tudo o que é produzido no mundo é desperdiçado e perdido antes de chegar à mesa do consumidor. No Brasil, estima-se que 40 mil toneladas de alimentos são perdidos por dia. Metade dos brasileiros admitem jogar diariamente comida no lixo. Enquanto isso, sete milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar grave. Em Sergipe, estimativas precárias mostram que 164 mil domicílios têm renda insuficiente para consumir as três refeições básicas diárias. Ao mesmo tempo, 240 toneladas de alimentos são desperdiçadas por mês. 10% das frutas e verduras têm o lixo como destino. 
Soluções existem, algumas no curto prazo. Criação de bancos de alimentos. Orientações de pós-colheita dentro e fora das porteiras rurais. Cuidados com a embalagem, transporte e armazenamento adequados à comercialização e consumo. Usinas de triagem de alimentos para reduzir o volume de lixo. Reaproveitamento dos resíduos para transformar em fertilizantes. Mudança de atitude e de hábitos alimentares. Uso integral dos alimentos. Outras estruturantes, a exemplo de políticas de distribuição de renda e redução dos tributos nos bens de consumo alimentar. A eliminação dos desperdícios favorece a consciência ambiental, e suscita a solidariedade humana. Fome e desigualdade não são boas conselheiras em contingências de corrupção, descrença política, e desperdício. Ainda é tempo de mudar. 
* Manoel Moacir Costa Macêdo, engenheiro Agrônomo, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra

* Manoel Moacir Costa Macêdo

Nada mais humilhante para uma nação, que negar os sustentos para os seus filhos, em especial a carência de alimentos. Quando isso acontece, existe fome. Uma afronta à dignidade humana. Uma realidade consentida por homens e mulheres de posse. Não é castigo dos deuses, mas injustiça humana. Não comer é pena de morte seletiva e sem culpa. Uma morte que envergonha uma Nação cristã. Uma ferida aberta numa civilização em tempo de tecnologia e inovação e fartura. 
A fome é a chaga mais dolorosa da humanidade. Ela não é uma fatalidade, mas uma realidade previsível, consentida e anunciada. Não enfraquece apenas o corpo, mas a alma, a família e a sociabilidade. Quebra de forma doída o ciclo da vida. Interrompe artificialmente, o tempo reencarnatório do nascer ao morrer. Ela tem causas visíveis, como a pobreza, a miséria, a desigualdade, a concentração de riqueza e políticas públicas com vieses para exportação e cadeias agroindustriais sofisticadas em capital. 
Existe insegurança alimentar quando a oferta de grãos, for abaixo de 250 kg/pessoas/ano. No caso brasileiro, a safra recente de 217 milhões de toneladas de grãos, uma tonelada por habitante, quatro vezes mais que o recomendado como segurança alimentar. Um país que não alimenta a sua gente, é um país injusto, com o futuro comprometido. Uma vergonha para um País continental, exuberantes recursos naturais, áreas agricultáveis, competência científica, água disponível, energia renovável, mercado abundante, e gente faminta.
O Brasil produz os alimentos suficientes para nutrir os seus filhos. A cada ano, safras se sucedem com badalados recordes. Resultados da inteligência brasileira com as suas agriculturas. Ciência, assistência técnica, e incentivos públicos substantivam essa revolução na produção de alimentos. Não é pouco, para um País que no tempo recente, carecia de produtos básicos de alimentação. Hoje, um relevante exportador na economia internacional do trabalho. Uma contradição à sua realidade faminta. Desprezo às carências dos pobres e desvalidos, não apenas em comida, mas em saúde, segurança, educação e civilidade. Uma cidadania malformada e incompleta. No dizer de Allan Kardec, "numa sociedade onde alguém morre de fome, deveríamos ter constrangimento de viver nela".
Euforia de ser o maior exportador de alimentos do mundo. Vergonha de perdas em até 40% dos alimentos prontos e acabados, incluindo o ciclo da produção, distribuição e consumo. Alimentos suficientes para alimentar 11 milhões de humanos são desperdiçados. Inadmissível numa sociedade com fome e pobre. 15 milhões de brasileiras e brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza, sem capacidade de comprar comida. 1,0% da população mais rica ganha 36 vezes mais do que os 50% mais pobres. O Brasil, possui as condições de atender à emergente demanda mundial por comida. Em breve seremos dez bilhões de habitantes. Atualmente, um bilhão de pessoas sofre com desnutrição. Desperdício e desigualdade inaceitáveis. Não conta o desperdício apenas dos alimentos, mas esforço humano, água, terra, meio ambiente e recursos financeiros. 
Estatísticas dolorosas do desperdício são mantidas por décadas. 30% de tudo o que é produzido no mundo é desperdiçado e perdido antes de chegar à mesa do consumidor. No Brasil, estima-se que 40 mil toneladas de alimentos são perdidos por dia. Metade dos brasileiros admitem jogar diariamente comida no lixo. Enquanto isso, sete milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar grave. Em Sergipe, estimativas precárias mostram que 164 mil domicílios têm renda insuficiente para consumir as três refeições básicas diárias. Ao mesmo tempo, 240 toneladas de alimentos são desperdiçadas por mês. 10% das frutas e verduras têm o lixo como destino. 
Soluções existem, algumas no curto prazo. Criação de bancos de alimentos. Orientações de pós-colheita dentro e fora das porteiras rurais. Cuidados com a embalagem, transporte e armazenamento adequados à comercialização e consumo. Usinas de triagem de alimentos para reduzir o volume de lixo. Reaproveitamento dos resíduos para transformar em fertilizantes. Mudança de atitude e de hábitos alimentares. Uso integral dos alimentos. Outras estruturantes, a exemplo de políticas de distribuição de renda e redução dos tributos nos bens de consumo alimentar. A eliminação dos desperdícios favorece a consciência ambiental, e suscita a solidariedade humana. Fome e desigualdade não são boas conselheiras em contingências de corrupção, descrença política, e desperdício. Ainda é tempo de mudar. 

* Manoel Moacir Costa Macêdo, engenheiro Agrônomo, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra