Sinal de fumaça

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Memória em chamas
Memória em chamas

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Publicada em 03/09/2018 às 22:52:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Quem se escandali-
zou com a ruína do 
Museu Nacional, no Rio de Janeiro, deveria dar uma olhada nos números do Ideb, divulgados ontem, enquanto a tragédia ainda repercutia. A relação é reveladora como um sinal de fumaça. Em lugar onde a educação é reduzida a um slogan vazio, a tal da Pátria Educadora, por exemplo, nada mais natural do que a memória arder em chamas, tragada pelo vórtice de um embate partidário que desconhece os fatos e a realidade em carne e osso.
Museu para quem? Segundo o Ideb, nenhuma das 27 unidades federativas do Brasil (os 26 estados mais o Distrito Federal) cumpriu as metas estabelecidas de modo mais ou menos arbitrário para o ensino médio, o ano passado. Em cinco estados (Amazonas, Roraima, Amapá, Bahia e Rio de Janeiro), o índice retrocedeu para um patamar inferior ao registrado em 2015.
Infelizmente, apesar de escandalosos, os números não possuem o apelo imagético de um palácio pegando fogo, não vão comover ninguém. Os dados disponíveis mostram que apenas 1,62% dos estudantes da última série do ensino médio alcançaram níveis de aprendizagem satisfatórios em língua portuguesa. Em matemática, embora o índice tenha melhorado ligeiramente, o nível de aprendizado foi o segundo pior da série histórica, iniciada em 1995.
Alguém já disse que um País se faz com homens e livros. Pois então... Domingo, quando o Museu Nacional foi tomado pelo fogo, consumou-se um projeto de Brasil onde os jovens estão condenados a ganhar a vida na marra, com a força dos próprios braços, sem direito às ilusões próprias do refinamento intelectual. Este é um projeto antigo, foi ganhando corpo ao longo das últimas décadas, período durante o qual não faltou dinheiro para erguer dezenas de elefantes brancos, destinados a grandes eventos esportivos, e o investimento público em cultura e educação permaneceu insuficiente, sem a ambição de salvar ninguém.
Agora Inês é morta, como diria Camões, um poeta de compreensão impossível para os estudantes brasileiros, no Canto III de 'Os Lusíadas'. Resta o amargo da lição. A ruína é amiga do tempo, opera sempre com muita paciência, sem nenhuma pressa de mudar uma parede em cinza e pó. Mas tão certo como o Hotel Palace ainda vacila no centro de Aracaju, sem nenhuma providência, um dia a casa cai.

Quem se escandali- zou com a ruína do  Museu Nacional, no Rio de Janeiro, deveria dar uma olhada nos números do Ideb, divulgados ontem, enquanto a tragédia ainda repercutia. A relação é reveladora como um sinal de fumaça. Em lugar onde a educação é reduzida a um slogan vazio, a tal da Pátria Educadora, por exemplo, nada mais natural do que a memória arder em chamas, tragada pelo vórtice de um embate partidário que desconhece os fatos e a realidade em carne e osso.
Museu para quem? Segundo o Ideb, nenhuma das 27 unidades federativas do Brasil (os 26 estados mais o Distrito Federal) cumpriu as metas estabelecidas de modo mais ou menos arbitrário para o ensino médio, o ano passado. Em cinco estados (Amazonas, Roraima, Amapá, Bahia e Rio de Janeiro), o índice retrocedeu para um patamar inferior ao registrado em 2015.
Infelizmente, apesar de escandalosos, os números não possuem o apelo imagético de um palácio pegando fogo, não vão comover ninguém. Os dados disponíveis mostram que apenas 1,62% dos estudantes da última série do ensino médio alcançaram níveis de aprendizagem satisfatórios em língua portuguesa. Em matemática, embora o índice tenha melhorado ligeiramente, o nível de aprendizado foi o segundo pior da série histórica, iniciada em 1995.
Alguém já disse que um País se faz com homens e livros. Pois então... Domingo, quando o Museu Nacional foi tomado pelo fogo, consumou-se um projeto de Brasil onde os jovens estão condenados a ganhar a vida na marra, com a força dos próprios braços, sem direito às ilusões próprias do refinamento intelectual. Este é um projeto antigo, foi ganhando corpo ao longo das últimas décadas, período durante o qual não faltou dinheiro para erguer dezenas de elefantes brancos, destinados a grandes eventos esportivos, e o investimento público em cultura e educação permaneceu insuficiente, sem a ambição de salvar ninguém.
Agora Inês é morta, como diria Camões, um poeta de compreensão impossível para os estudantes brasileiros, no Canto III de 'Os Lusíadas'. Resta o amargo da lição. A ruína é amiga do tempo, opera sempre com muita paciência, sem nenhuma pressa de mudar uma parede em cinza e pó. Mas tão certo como o Hotel Palace ainda vacila no centro de Aracaju, sem nenhuma providência, um dia a casa cai.